OPINIÃO

A gota d'água das últimas delações: Crise moral e democracia

A conformação com a corrupção contribui para colocar em risco o que um país tem de mais precioso: a democracia.

11/05/2017 17:22 -03 | Atualizado 11/05/2017 17:22 -03
Rodolfo Buhrer / Reuters
Em suas delações, Marcelo Odebrecht revelou como funciona a política no Brasil.

De acordo com alguns cientistas políticos, a estabilidade de regimes democráticos depende primordialmente do apoio popular. Há certa divergência quando se discute como esse apoio ocorre e duas perspectivas clássicas dominam a literatura: a político-cultural e a político-econômica.

Na perspectiva cultural, a estabilidade dependeria de valores transmitidos de geração a geração, legado de nações antigas e com uma herança fortemente democrática (que não é o caso do Brasil).

Já na segunda concepção, a solidez de um sistema dependeria de sua capacidade de atender às necessidades dos indivíduos e representar suas demandas, fortemente enraizadas nos interesses socioeconômicos do cidadão.

Com relação a estes interesses, nos últimos anos o brasileiro tem sofrido com uma profunda recessão que devastou o País. Todos já estão cansados de ler a bola de neve que se formou: diminuição do consumo, queda do poder aquisitivo e padrão de vida das famílias, aumento das dívidas, esfriamento da atividade econômica, desemprego, e por aí vai.

Historicamente, altos índices de desemprego são grandes responsáveis por gerar sentimentos de ineficácia política, descontentamento com o sistema político, desconfiança e frustração. Isso sem falar na autoestima do brasileiro e outros desdobramentos maléficos para a nossa saúde mental que só reforçam o sentimento de descrédito em relação à classe política.

E a cereja do bolo chegou com a Lava Jato. Após descobrirmos que ainda somos um país machista, com José Mayer e o BBB, mergulhamos ainda mais fundo na crise moral pela qual o País passa. As últimas delações da Odebrecht nos mostraram que todo o sistema político está podre e corrompido. E faz tempo.

A corrupção burlou os limites de mandatos e partidos, mostrando que legenda política é um mero apetrecho ideológico usado por pessoas que têm uma coisa em comum: o desejo de politicar não para os outros mas para o enriquecimento próprio.

A revelação teve um quê de time favorito entrando no estádio para disputar uma final proforma, um perigoso clima de "eu já sabia". Por que perigoso? Porque este clima implica que essa devassa não foi espanto para ninguém.

Talvez a proporção da coisa tenha assustado, mas no fundo parece que sabíamos que era improvável a corrupção fazer parte apenas de uma minoria. Se já desconfiávamos, se já sabíamos, então não podemos negar que havia uma certa tolerância, certa dessensibilização ao problema.

Todo esse cenário contribui para colocar em risco o que um país tem de mais precioso: a democracia. Não é à toa que vimos enormes polarizações nas inflamadas discussões das redes sociais desde o ano passado.

Não é à toa que vimos pessoas saírem às ruas defendendo a bandeira do militarismo e da ditadura.

Não é à toa que, após um governo pretensamente de esquerda, candidatos de extrema direita estejam ganhando cada vez mais popularidade.

Os desfechos possíveis e imagináveis são três.

Primeiramente, podemos ficar ainda mais insensíveis a tudo isso. Mais por cansaço, por desgaste, do que por vontade mesmo. Contribuem para isso nossos sentimentos de desapontamento e o conforto da mesmice, da não-mudança. Esta saída favorece a tradicional pizza a que todos já estamos acostumados. Os ex-presidentes já se organizam, planejam conchavos, e tudo continua como sempre foi.

A segunda saída é o risco à democracia. Nestes cenários, o Estado fica mais vulnerável aos regimes tirânicos, autoritários e opressores. Comumente em épocas de crises morais, a falta de regra gera a busca por códigos e atitudes rígidas, muitas vezes rígidas ao extremo.

Em uma terceira saída, a Lava Jato é utilizada para limpar o sistema democrático e recomeçarmos do zero. Utopia? Desejável. Possível? Quero crer que sim. Temos que nos abster de ficarmos calados, e fazer que isso seja possível. Fazer acontecer, por mais cansados que estejamos de toda essa porcaria.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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