OPINIÃO

4 maneiras de se combater o suicídio

Precisamos nos conscientizar de que este é um problema de saúde pública que muitas vezes pode ser evitado.

17/09/2017 10:14 -03 | Atualizado 17/09/2017 10:14 -03
Divulgação
É importante educar pessoas chave na assistência à pessoa em risco de suicídio.

Atentar contra a própria vida é um dos atos mais violentos que um ser humano pode levar a cabo. Muitas vezes não nos damos conta, mas no suicídio há não só o lamento do tirar a própria vida, mas também a violência do matar alguém.

Considerando a agressividade do gesto, muitas religiões abominam o suicídio. Em algumas correntes do Judaísmo, não se vela o corpo do suicida. No Espiritismo, "o suicídio não apaga a falta. Ao contrário, em vez de uma, haverá duas", segundo o Livro dos Espíritos.

Não obstante, o número de pessoas que se matam sobe a cada ano. A Organização Mundial da Saúde descreve o suicídio como um fenômeno global. Por ano, cerca de 800 mil pessoas tiram a própria vida, sendo que 78% dos casos ocorrem em países de renda média e baixa, como o Brasil.

Isso significa que a cada 40 segundos, uma pessoa se mata no mundo, e o suicídio é a segunda causa de morte em pessoas de 15 a 29 anos de idade.

Mas o que podemos fazer para combater esta epidemia?

O suicídio é uma ocorrência multifatorial e, por isso, deve ser combatido em diversas frentes.

1. Conscientização

A primeira frente é a da conscientização em relação ao problema. Geralmente, falar sobre suicídio é um tabu. Vejamos por exemplo o seriado 13 Reasons Why, da Netflix. Gerou-se muita polêmica em torno da série por abordar o suicídio de maneira frontal. Mas esse assunto não pode ser varrido para debaixo do tapete.

Temos de estar conscientes e entender que é um problema de saúde pública, pois só assim ficaremos atentos a eventuais sinais de alerta. Campanhas como a do Setembro Amarelo e este especial do HuffPost Brasil servem para sensibilizar a população sobre a problemática, quebrando tabus, colocando a questão em pauta e, com isso, fazendo que olhemos mais para o assunto, sem ignorá-lo.

Esta conscientização é importante, pois pode levar as pessoas em necessidade a buscarem ajuda. E cria alerta para aqueles que estão ao lado destas pessoas.

2. Combate ao preconceito

A segunda frente, importantíssima, é a do combate ao preconceito das doenças psíquicas. A doença mental sempre foi cercada de estigma, pelas mais diversas razões. O transtorno psiquiátrico envolve mudanças de comportamento que fogem a determinados padrões, e isso torna os indivíduos mais vulneráveis a serem tachados como "diferentes", outsiders.

A pessoa com depressão vira a preguiçosa, o ansioso vira o apressado, a pessoa com transtorno obsessivo-compulsivo vira a chata, aquele com distúrbio bipolar é o maluco. Esta estereotipagem negativa leva o portador do transtorno a ter vergonha do seu distúrbio e não buscar ajuda. Com isso, gera um ciclo vicioso de não tratamento, cronicidade da doença, pior prognóstico, e muitas vezes um risco maior de suicídio.

Temos que entender que nossa mente repousa sobre um cérebro biológico. E ele pode adoecer como qualquer outro órgão do corpo humano. Os distúrbios psiquiátricos podem ser deflagrados por eventos de vida, mas encontramos no cérebro suas manifestações biológicas (neuroinflamação, alteração da plasticidade e do metabolismo cerebral, morte de células neuronais etc). A doença mental é uma doença como qualquer outra. E precisa ser tratada. Não é preguiça, chatice, maluquice e afins.

3. A mídia

A mídia tem um papel fundamental na questão do suicídio e constitui-se na terceira frente. A mídia pode tanto ajudar como até atrapalhar na questão. Ajuda quando promove a divulgação de informações corretas, científicas, de maneira acessível, clara e objetiva. Divulgando campanhas de conscientização e de enfrentamento do preconceito das doenças mentais. Pode atrapalhar se glamurizar o suicídio.

Um efeito conhecido há muito tempo na imprensa é o efeito Werther. Werther é a personagem de um livro de Göethe que se mata durante a trama. Após o lançamento do livro, houve uma onda de suicídios de jovens do sexo masculino, mimetizando o romance. É o que se chama de copycat suicide; aquele indivíduo vulnerável, que já estava aflito e vê no enredo um modelo a ser seguido.

Uma das questões no seriado 13 Reasons Why era justamente se ele não era pernicioso ao glamurizar o suicídio. A mídia deve informar, não glamurizar.

4. Acesso a meios letais

Por fim, aqui no Brasil muito se discute sobre o desarmamento e seu papel no aumento ou diminuição da violência. Independentemente da polêmica, a restrição de meios letais é outra importante medida na prevenção de suicídios.

Costuma-se dizer que cada país escolhe seu método preferencial suicídio. Em países mais rurais, há altas taxas de morte por envenenamento (pesticidas). Em países onde o comércio de armas é liberado, o suicídio por armas de fogo é mais comum, como por exemplo na Suíça.

A Golden Gate, na Califórnia, foi por muitos anos um dos locais onde mais as pessoas se matavam no mundo. Perdeu o posto depois para a Aokigahara, a floresta dos suicidas no Japão, e depois para outros locais ao redor do mundo.

Erroneamente, costuma-se achar que agir nos métodos e locais não tem eficácia. "Bom, se a pessoa não se atirar da ponte ela vai se matar de outra maneira." Isso não é verdade. Provou-se que avisos oferecendo ajuda, linhas de emergência colocadas em pontes, e outras medidas efetivamente diminuem as taxas de suicídio gerais naquela localidade.

A restrição de armas pode reduzir em até 10% a taxa de suicídios de um país. A desintoxicação do gás de cozinha, por exemplo, reduziu em até um terço as mortes através de envenenamento por gás em alguns lugares.

Outras medidas incluem a educação de pessoas chave na assistência à pessoa em risco de suicídio. Elas incluem médicos de família, médicos generalistas, socorristas, agentes comunitários, professores, líderes de comunidade, líderes religiosos etc.

É importante que tais pessoas estejam em alerta quando souberem de alguém com alguma intenção suicida para direcioná-la à assistência psiquiátrica adequada. Educar para reconhecer sinais de um transtorno mental.

Resumindo: em primeiro lugar, precisamos falar do suicídio. Precisamos nos conscientizar de que é um problema de saúde pública que muitas vezes pode ser evitado. Só estando alerta para a questão é que conseguiremos reduzir essas tristes ocorrências. A redução de acesso a meios letais e a mídia também têm papel importante nessa guerra. Por último: doença mental não é frescura, precisa ser tratada.

Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 141, para o CVV - Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é sigiloso e não é preciso se identificar. O movimento Conte Comigo oferece informações para lidar com a depressão. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar redes de apoio disponíveis.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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