OPINIÃO

3 anos de Lava Jato, Carne Fraca e Zé Carioca

Temos de mudar toda uma cultura, mudar a cabeça. Deixar um pouquinho o Zé Carioca de lado. E sermos implacáveis com as grandes corrupções.

18/03/2017 21:32 -03 | Atualizado 20/03/2017 13:51 -03
Reprodução/YouTube
Zé Carioca é a personagem do jeitinho brasileiro.

Você se lembra do Zé Carioca?

Se não lembra, a Wikipédia descreve o personagem da Disney como alguém que "assumia falsas identidades" pra impressionar as mulheres, alguém que tentava ludibriar as pessoas com o intuito de ganhar jantares em restaurantes caros.

Criado em 1942, caracterizava um brasileiro arquetípico que sempre dava uma de esperto e tentava levar vantagem sobre as outras pessoas. Pois é, na semana passada a Operação Lava Jato completou três anos com mais um escândalo, afetando agora a mesa do brasileiro e lembrando-nos que somos mesmo o País do Zé Carioca.

Foram 91 prisões preventivas, 101 temporárias e 6 prisões em flagrante. Até agora temos 130 condenações, e estima-se que pelo menos 6,4 bilhões de reais foram pagos em propina.

Com inúmeros desdobramentos, a operação está realizando uma grande devassa nas contas públicas, e parece que quanto mais fuça mais corrupção acha.

E a carne é fraca; a bola da vez são as fraudes nos frigoríficos.

Hoje cedo meu celular foi inundado por memes de papelão no lugar da carne do churrasqueiro, do hambúrguer etc. Injeção de água e fécula de mandioca nas carnes, uso de produtos químicos para disfarçar o apodrecimento, e por aí vai. Apodrecimento da carne e do País neste mar asqueroso de corrupção.

Parece que quando se trata de dinheiro, a imaginação "zé-carioquês" do político brasileiro não tem limite.

Não duvido nada que, pelo andar da carruagem, acabem descobrindo que até para se comprar lápis em uma escola pública haja conchavos, acertos por debaixo dos panos, e tramoias afins.

Afinal, os empresários, quando pegos, assumem discurso unívoco de que propina é prática antiga, de que sempre foi o modus operandi das coisas. Parece que a propina está infiltrada em toda a máquina governamental brasileira, em seus mais diversos extratos.

Não obstante, Disney não criou seu personagem brasileiro do nada.

Engana-se aquele que acha que corrupção está apenas no alto escalão. Há sim também as pequenas corrupções do dia a dia. As furadas de fila. Aquele precinho por fora, para não pagar imposto. O uso de aplicativos para fugir de radares e bloqueios policiais. Aquela parada de "só 5 minutinhos" na vaga de deficiente. As cópias piratas que burlam os direitos autorais. O cafezinho para o policial rodoviário. O famoso "gatonet". O jeitinho para arrumar as coisas.

Claro, é indiscutível que há uma enorme diferença nas proporções. Mas no fundo o espírito é o mesmo: o de levar vantagem nas coisas. É uma cultura.

Ninguém aqui quer ser um careta c***-regras, mas Walt Disney não era burro. Se ganhamos um personagem para simbolizar esse nosso jeitinho, há mais de meio século, e ainda vemos rastros desta cultura nos dias de hoje, é porque algo está errado.

Os números da Lava Jato, batendo recordes históricos, mostram que algo de fato está errado. Algo precisa mudar. Mudança esta que não é fácil. Pois quando se vê uma cultura de corrupção tão arraigada e embrenhada, o risco que geralmente se observa é o de dessensibilização.

Aconteceu assim na operação Mani Pulite (operação na qual a Lava Jato se espelha), na Itália dos anos 90. Havia tanta corrupção que a sociedade acabou criando uma certa indiferença a ela. O resultado disso foi que, apesar da operação, a corrupção continuou no país, possibilitando a ascensão de Berlusconi e seus capangas.

Assim, se quisermos mesmo combater a corrupção, temos de combatê-la nos mais diversos graus. Temos de mudar toda uma cultura, mudar a cabeça. Deixar um pouquinho o Zé Carioca de lado. E, sobretudo, com relação às grandes e vergonhosas corrupções, devemos ser implacáveis. Intolerantes.

Não podemos baixar a guarda e deixar que, na calada da noite, políticos votem medidas de autoanistia. Não podemos deixar de nos indignar quando percebemos que a carne que vai a nossa mesa é feita de papelão.

Não podemos esvaziar as ruas. Aquele espírito de justiça que muito nos povoou no ano de 2016 tem de voltar. Vamos deixar um pouco o Zé Carioca de lado.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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