OPINIÃO

Resistência antimicrobiana: É melhor você saber o que é isto

19/10/2015 13:03 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
GP Kidd via Getty Images
Close up of mixed race woman holding medication capsule

Uma vez li um livro de Stephen King, um pouco desesperado por falta de alternativas. Não acabei o livro (sorry, Stephen) mas uma detalhe ficou na minha memória. O enredo era sobre um grupo de jovens tinha sobrevivido a algum apocalipse global, e estavam tentando reconstruir uma vida meio normal. De repente um deles sofreu uma apendicite. No mundo pré-apocalíptico teria sido facílimo resolver a doença, com uma operação. Mas, neste novo mundo com zumbis mas sem médicos, técnicas de medicina, etc, o jovem faleceu. Assim Stephen King conseguiu mostrar que coisas que damos por adquiridas podem desaparecer facilmente.

Refleti sobre este ponto depois de passar alguns dias no Brasil com Jim O'Neill, conhecido por ser o inventor do acrónimo BRICs, e Sally Davies, a "Chief Medical Officer" da Inglaterra, a conselheira principal ao governo sobre questões de saúde. Eles estavam aqui para falar com o governo brasileiro, deputados, empresas e pesquisadores sobre um problema global pouco conhecido mas crescente, cujo impacto pode ser devastador - a resistência antimicrobiana.

Resistência anti quê? Ouço a pergunta do/a leitor/a. Foi a minha pergunta também. Em resumo, bactérias e parasitas estão ficando cada vez mais resistentes aos medicamentos existentes, por exemplo antibióticos e remédios contra malária. Isto tem consequências profundas para a saúde pública. Alguns tratamentos estão cada vez menos eficazes contra doenças e infecções comuns. Para dar uma ideia, no ano passado na Europa e nos Estados Unidos a ineficácia de tratamentos normais contra infeções e doenças já conhecidas resultou em 50 mil mortes.

Todos os países de mundo são afetados por este fenômeno, incluindo Brasil, que está mostrando indicações de problemas em tratar tuberculose por causa de maior resistência aos medicamentos, além do fenômeno mais midiático de "superbugs" que tem matado brasileiros em hospitais públicos no Distrito Federal, por exemplo.

Por que este problema está surgindo agora? Por causa da maneira como estamos utilizando medicamentos, e especialmente antibióticos, não só para a nossa saúde mas também na produção agropecuária. Às vezes tomamos antibiótico quando não é necessário. Outras vezes não utilizamos o antibiótico certo. Então temos um problema de demanda.

Também há um problema de oferta. Há uma falta de antibióticos novos para contornar este problema. Por quê? Em parte porque medicamentos para outras doenças como câncer, ou problemas cardiovasculares, são mais interessantes para as grandes empresas farmacêuticas; porque os incentivos para pesquisar um novo antibiótico são fracos - leva muito tempo e o retorno é menor. E há, até um certo ponto, incentivo para vender mais antibióticos já existentes, para maximizar o retorno. O mercado não dá, hoje, a solução.

O que fazer? O problema tem várias facetas, e por isso não há uma solução "bala de prata". Eu diria que o primeiro passo seria de estar consciente do problema - recomendo a leitura do primeiro relatório do Jim O'Neill sobre a questão. Segundo, melhorar os diagnósticos sobre as nossas doenças, para tomarmos o remédio certo. Terceiro, apoiar pesquisa em novos medicamentos, às vezes recuperando velhas fórmulas, já meio esquecidas, que podem ser reconstruídas para novos fins, e que não tem resistências.

Isto é um problema de longo prazo. Mas a solução tem que ser encontrada hoje. Senão, intervenções médicas muito comuns, como uma cesariana ou uma operação de prótese de joelho, podem se tornarem de grande risco por causa das infecções.

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