OPINIÃO

Onde brasileiros e brasileiras sentem-se confortáveis compartilhando espaço?

04/02/2016 14:45 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
MIGUEL SCHINCARIOL via Getty Images
A 'bloco da rua' or street carnival band protests corruption under the theme 'Lava Jato' or Car Wash - the federal police investigation launched in response to the scandal that broke out in 2014 involving the state oil company Petrobras - in Sao Paulo, Brazil, on January 30, 2016. AFP PHOTO/Miguel SCHINCARIOL / AFP / Miguel Schincariol (Photo credit should read MIGUEL SCHINCARIOL/AFP/Getty Images)

Um dos sub temas deste blog é a luta para ocupar espaços físicos, um interesse despertado em mim em parte pelas observações feitas pelo Rio Gringa sobre os rolezinhos em 2013. A disponibilidade de espaços é escassa - não há muitos parques públicos nas cidades brasileiras, nem passeios em que todos, ricos e pobres, podem compartilhar o espaço.

Pior, mesmo quando existem, alguns desses espaços tornam-se indisponíveis. Lamentavelmente, isso aconteceu ao passeio público ao redor da famosa Península dos Ministros em Brasília (que, aliás, poderia ser renomeada como Península dos Policiais, depois de tanta presença naquele lugar da Polícia Federal por causa da Operação Lava Jato).

Diante disso, me perguntei: quais seriam então os espaços públicos que os brasileiros partilham com boa vontade? A clássica resposta carioca à minha pergunta é simples: a praia. Mas mesmo isso pode não ser verdade com tanta diferenciação social entre as várias áreas de uma praia, e mais controle sobre os ônibus que levam pessoas até lá. Espaço público, para mim, tem de ser um espaço que todos possam acessar facilmente.

No entanto, esta semana, encontrei uma resposta no meio da enorme confusão e alegria de um ensaio da Escola de Samba Estácio da Sá, nas ruas do Rio: o Carnaval.

Na multidão havia alas, bateria, passistas, pessoas de todas as cores, todas as idades e todas as classes, desde uma senhora negra de, pelo menos 80 anos, que acho começou a sambar no útero da sua mãe, até uma senhora branca, de roupa elegante, que estava vibrando por poder participar do desfile.

Além dessa mistura, houve uma participação que me comoveu profundamente. À frente da grande procissão, havia ume moça, talvez entrando na adolescência, vestida com um biquini de lamê e dançando a música com evidente prazer e concentração. Nada surpreendente, não fosse o fato que ela tinha Síndrome de Down. Ninguém comentou, ninguém ligou. Foi natural para ela, natural para a mãe dela, natural para todos. Me fez lembrar de ver, no meio de explosão de cores e som do Festival do Parantins, pessoas utilizando linguagem dos sinais para os espectadores e participantes surdos.

Isto é inclusão verdadeira. Há alguma magia no Carnaval, da cultura popular, que permite acessibilidade para todos, uma abertura ainda mais impressionante quando se considera que, em outras esferas sociais brasileiras, ainda há uma luta permanente por acesso e igualdade.

Minha única preocupação é a seguinte: será que no Carnaval é assim e que nas outras 51 semanas do ano essa moça não tem as oportunidades que a festa lhe dá, porque a base sociológica do Carnaval é a inversão de normalidade?

Fica a reflexão.

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