OPINIÃO

As consolações e os riscos da arte

28/03/2016 21:23 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Photo by Francisco Cribari. via Getty Images
The sound of colors

Ao início da Segunda Guerra Mundial, ao fim de 1939, um jovem crítico literário ingles, Cyril Connolly, decidiu lançar uma nova revista como um antídoto contra o horror da desumanidade dos nazistas. Horizon nunca conseguiu um grande número de leitores, mas foi um polo de atração para os melhores escritores de época, como George Orwell, por exemplo.

A criação da Horizon foi uma reação artística contra um panorama pública turbulento. Pensei nisso na sexta-feira passada, quando participei do ensaio semanal do coral do qual faço parte. Eu, como qualquer pessoa vivendo no Brasil, fui afetado pelos eventos da última semana, sem precedente no Brasil democrático. Comecei o ensaio sem nenhuma vontade de cantar. Mas duas horas de imersão em música de uma beleza profunda, incluindo Água de beber, de Tom Jobim, acalmaram a minha alma e restauraram o meu equilíbrio.

Esse é um enorme benefício de arte: consolar e inspirar mesmo quando tudo fora, no mundo, está fazendo o contrário. Não importa as circunstâncias. Ver uma peça de Shakespeare, ouvir Bach ou admirar um retrato de Velazquez pode ter esse efeito restaurador.

Contudo, há um risco dessa consolação se tornar um refúgio; a beleza e o sublime podem ser uma fuga da realidade.

Ao mesmo tempo em que Cyril Connolly lançava Horizon, Lord Halifax, um potencial rival de Churchill ao poder no Reino Unido, estava olhando a lindíssima paisagem de suas terras, com um grande temor do que uma guerra poderia fazer. Seu instinto era negociar para conservar.

As circunstâncias do Brasil de hoje são muito distantes daquelas do meu país em 1939. Mas deve haver para brasileiros, durante estes dias, uma tentação para fugir, de recuar. A arte, seja música, pintura, dança, seja o que for, pode oferecer uma realidade paralela tentadora. Mas, espero, que a arte possa ser também uma inspiração, uma lembrança dos valores pelos quais vale a pena lutar em praça pública.

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