OPINIÃO

Fascistas são sempre os outros

Se democracia fosse somente chamar de democrático algo que se faz ou se quer fazer, a democracia seria um teatro verbal de ilusões sem efeito nem garantias para as partes envolvidas.

10/10/2017 16:12 -03 | Atualizado 10/10/2017 18:41 -03
Me interessa sobretudo assinar brevemente a facilidade com que sempre chamamos de fascista quem não pensa como nós mesmos.

Não é nova a atitude de tomar o pensamento acomodado, o pensamento que não critica a si mesmo, o pensamento que não só é simples, mas também simplista, como um esforço sério de coerência. Há os que veem nesse mesmo fato de sustentar atitudes até a perpetuidade uma mostra de determinação, de rigor, de bravura. Para alguns, o pincel grosso é o motor do mundo, quando não sua própria justificativa. E desse fato derivam a maioria dos equívocos do presente, do passado e também do futuro. Se a complexidade irrompe na realidade, não é produtivo, mesmo que seja tranquilizador para muitos mistificar com reduções absurdas suas implicações, porque, cedo ou tarde, todos sairemos perdendo – de forma mais ou menos substancial.

Assim, se democracia fosse somente chamar de democrático algo que se faz ou se quer fazer, a democracia seria um teatro verbal de ilusões sem efeito nem garantias para as partes envolvidas. Um exemplo disso está na recente encenação das pretensões de autodeterminação do governo catalão, que apelou para uma democracia de urnas sem garantias, algo como uma representação pixelizada de algo que se poderia fazer, com mais tempo e mais cabeça, de forma mais melhor e mais sã para todos os atores envolvidos. Não vou aqui separar as múltiplas camadas desse conflito no qual se refugiam muitas pessoas para não ter de enfrentar as coisas verdadeiramente importantes. Me interessa sobretudo assinar brevemente a facilidade com que sempre chamamos de fascista quem não pensa como nós mesmos.

Se democracia fosse somente chamar de democrático algo que se faz ou se quer fazer, a democracia seria um teatro verbal de ilusões sem efeito nem garantias para as partes envolvidas.

Entregues ao simplismo, muitos acreditaram que a liberdade de expressão consiste em deixar cair o primeiro que lhes passa na cabeça, sem a necessidade de submetê-lo a um exame prévio. Acham que pensar é um processo instantâneo, que não exige esforço ou que – ainda mais enganoso – enfrentar os problemas políticos colocando o coração na frente da razão é a chave de qualquer progresso social. Vemos que na Catalunha se apela recorrentemente às coisas mais fugazes e intangíveis, como as ideias de nação e identidade, dois conceitos que, se não estão sujeitos a prerrogativas tolerantes e de abertura, dão sempre como resultado os maiores exemplos de torpeza, atrocidade e miséria coletiva que conhecemos ao longo da história.

São muitas as vozes, de todas as cores e matizes, que se expressaram, não necessariamente contra o referendo em si, mas contra as condições suspeitas sob as quais ele foi realizado; uma crítica da qual compartilho sem ressalvas. Exigir moderação, a meu juízo, é sempre um sintoma não de vocação passiva ou reacionária, mas do contrário: como a ideia é fazer as coisas direito para que elas sejam estáveis e durem o maior tempo possível, parece mais sensato optar pelo esforço e pela paciência diante de um caminho que é longo, porém que, a seu final, provavelmente terá satisfeito com maior grau de rigor as demandas e pretensões exigidas pelos contendores.

Basta ler a imprensa, assistir aos telejornais ou entrar nas redes sociais para comprovar que abunda o 'facilismo' dos símbolos, dos devaneios excludentes e vingativos, do sarcasmo sem substância e dos insultos baratos e diretos.

Desgraçadamente, é contra esse tipo de gente que se opta pela sanidade em tempos de agitação contra os autoproclamados vanguardistas; vanguardistas que, como costuma ocorrer na maioria dos casos, acreditam que seu infantilismo é uma forma de expressão à frente de seu tempo. Basta ler a imprensa, assistir aos telejornais ou entrar nas redes sociais para comprovar que abunda o "facilismo" dos símbolos, dos devaneios excludentes e vingativos, do sarcasmo sem substância e dos insultos baratos e diretos.

Nunca pude entender como as pessoas se entregam a defender de forma extasiada o lugar em que arbitrariamente nasceram, atacando verba, textual e fisicamente aqueles que acreditam que um país é algo mais complexo que uma bandeira, um conjunto de costumes herdades e uma determinada geografia. A facilidade de assinalar e desprezar os demais por não ter uma visão tão simplista das coisas dá conta da pobreza educacional de nossas sociedades e do alcance de seus males: é mais ameno queixar-se e atacar tudo e todos quando se despreza o atrevimento daqueles que querem ir a fundo nos assuntos. E este é um dos problemas mais autênticos que enfrentamos nos dias de hoje: o esplendor do simplismo que quer cegar o livre exame das coisas com sua miséria sonora e visual.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost ES e traduzido do espanhol.

*Este texto foi originalmente publicado no El HuffPost e traduzido do espanhol.

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