OPINIÃO

Por que este é um momento crucial para o Islã na Europa

09/01/2015 15:57 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
REMY GABALDA via Getty Images
A woman places a candle in front of the city hall in Toulouse, on January 8, 2015, a day after Islamist gunmen stormed the office of French satirical newspaper Charlie Hebdo, killing eight journalists, two police and two others. French security forces desperately hunted two brothers Thursday suspected of gunning down 12 people in an Islamist attack on a satirical weekly, as a stunned and outraged France fell silent to mourn the victims. With thousands of police scouring France after the bloodiest attack in the country for half a century, the two men -- still armed -- were apparently spotted at a petrol station in the northern Aisne region. AFP PHOTO / REMY GABALDA (Photo credit should read REMY GABALDA/AFP/Getty Images)

O senso de horror absoluto da terrível tragédia ocorrida em Paris ainda não recedeu. A enormidade do que aconteceu - um ataque às fundações da ideia e da prática de uma imprensa livre - não tem precedentes. A França está de luto, assim como deveriam estar todas as pessoas direitas, que dão valor à democracia e aos direitos humanos. Nos comiseramos com as famílias que sofreram perdas tão trágicas.

Numa demonstração de união, o presidente da França, François Hollande, e seu rival político, o ex-presidente Nicolas Sarkozy, apareceram juntos para condenar o atentado em termos duros. Eles refletiram fielmente a oposição, a ira e o choque sentidos pela nação. Líderes mundiais, do presidente Barack Obama ao primeiro-ministro britânico, se mostraram solidários com a França e juraram defendê-la.

Hollande e Sarkozy veem o ataque à luz da tese Huntingtoniana do choque de civilizações entre o Ocidente e o Islã. Hollande condenou a "excepcional barbárie" e Sarkozy afirmou que houve um ataque "bárbaro" contra a própria civilização. É uma "guerra contra a civilização", disse Sarkozy. Implícita nessas declarações estava a ideia de Huntington de um choque.

"Era questão de vida ou morte entender os muçulmanos europeus... A questão na cabeça das pessoas era como transformar o John Jihad em um Mustafá Maleável e a Jane Jihad em Leila Leal."

Foi precisamente para observar o que acontece na Europa no contexto do Islã que eu e minha equipe de pesquisadores fizemos um trabalho de campo em toda a Europa, que se encerrou esta semana. Estávamos na França duas semanas atrás.

Durante a pesquisa, um projeto chamado "Jornada para a Europa", visitamos cerca de 50 cidades e 50 mesquitas e entrevistamos mais de 30 imãs por todo o continente. Conversamos com estudantes e professores, motoristas de táxi e donos de lojas, presidentes e primeiros-ministros, arcebispos e rabinos-chefes.

A relevância - urgência, de fato - do nosso estudo dos muçulmanos da Europa foi sublinhada durante nossas viagens, no meio do ano passado. Desenvolvimentos geopolíticos no Oriente Médio - e em outras regiões - ligavam os muçulmanos europeus diretamente aos eventos que ocorriam no mundo. A mídia noticiava que milhares de muçulmanos europeus estavam envolvidos em combates na Síria e no Iraque. Desses, o governo britânico estimava que cerca de 400 vinham do Reino Unido

Em meados de agosto, quando o jornalista americano James Foley foi brutalmente decapitado por um mascarado que falava com sotaque britânico, houve um frenesi midiático para tentar descobrir sua identidade. Começaram os ataques aéreos americanos, e falou-se em maior envolvimento militar no Oriente Médio. De certa forma, parecia um déjà vu. Mas essa era uma situação substancialmente diferente, com novos atores. O teatro do conflito não era mais o Afeganistão, e o Taliban não era mais o protagonista. A mídia agora falava que os muçulmanos europeus eram a ameaça, o cavalo de Troia. A mídia falava em "John Jihadi" assim como antes falara em "Jane Jihadi"

Era questão de vida ou morte entender os muçulmanos europeus. Do primeiro-ministro britânico a jornalistas, a questão na cabeça das pessoas era como transformar o John Jihad em um Mustafá Maleável e a Jane Jihad em Leila Leal.

O problema era que essa questão não poderia ser respondida sem algum conhecimento da comunidade muçulmana - sua definição de identidade, seus padrões de liderança, seus atores religiosos e políticos, o papel dos imãs, a influência de mães e mulheres sobre os jovens da família e as relações com o governo e o público em geral. Poucos tinham as respostas, mas essas eram as questões que precisavam ser respondidas.

Foi por esse motivo que nosso estudo assumiu uma topicalidade maior do que inicialmente planejado. Ele é um estudo atualizado da comunidade muçulmana na Europa no contexto de seu impacto no mundo. Como se baseia em trabalho de campo, conduzido junto às comunidades, o estudo é o mais autêntico possível. E, como tem por objetivo mostrar um retrato holístico da comunidade muçulmana do continente, ele é capaz de justapor toda a gama e diversidade dos muçulmanos, de Edimburgo, no norte da Grã-Bretanha, a Melilla, uma possessão espanhola no norte da África, da espanhola Córdoba, no oeste, à grega Xanthi, no leste, perto da fronteira com a Turquia.

Os muçulmanos se enquadram em três grandes categorias no contexto da Europa de hoje: são nativos (como a maioria dos bósnios); imigrantes (muitos vão para o país que colonizou sua nação, portanto têm o direito de imigrar, por reciprocidade histórica - populações do Norte da África, especialmente argelinos na França e asiáticos na Grã-Bretanha; mas também há o caso dos turcos que foram convidados a ir trabalhar na Alemanha); e convertidos (especialmente os jovens em busca de respostas espirituais para seus problemas).

Sugiro que examinemos essas três categorias em três fases distintas de sua história: muçulmanos estão na Europa desde 711, ano que pode ser considerado o começo da primeira fase da presença muçulmana. É o período em que em certos lugares, durantes certos períodos, houve o que os espanhóis chamam de La Convivencia Esta fase acabou em 1492, com a queda de Granada, o último reino muçulmano independente, e a expulsão dos muçulmanos (e judeus) da Península Ibérica.

A segunda fase da presença muçulmana na Europa começa por volta do século 15 e vai até o século 20. Ela é formada pelos confrontos entre forças cristãs europeias e exércitos otomanos. A ideia de que o Islã é estrangeiro e predador se consolida nas mentes europeias como resultado dessa fase.

A terceira fase começa com a colonização de terras muçulmanas por países europeus nos séculos 19 e 20. A segunda e a terceira gerações de muçulmanos estão chegando à maioridade na Europa. Muitas questões que envolvem essas gerações geram debates, controvérsias, ira e até mesmo ódio na população majoritária. O "terror" (como o ataque em Paris), a Sharia e o hijab são amplamente associados ao Islã na imaginação popular.

Eis algumas conclusões preliminares:

1. O que aconteceu na França é trágico e chocante, mas não inteiramente surpreendente. Enquanto estávamos no país houve pelo menos três incidentes violentos envolvendo muçulmanos. A maioria dos muçulmanos vivem em áreas pobres, quase "guetos". Havia áreas inteiras de Marselha, uma cidade cuja população é 30% muçulmana, que pareciam efetivamente "proibidas". Gangues de muçulmanos vendiam drogas livremente. Não surpreende que violência emane dessas comunidades.

2. A relação entre muçulmanos e não-muçulmanos na Europa também alimenta a sensação de cerco percebida pelos muçulmanos. Mais de 17 000 alemães fizeram uma passeata contra o Islã em Dresden, e três mesquitas foram atacadas na sequência na Suécia. Os muçulmanos são retratados como "não-europeus" e "bárbaros" que não têm lugar numa Europa "civilizada".

3. Muçulmanos de todo o continente convivem com uma sensação de incerteza. Houve uma reação forte - a histórica catedral de Colônia, por exemplo, apagou suas luzes contra o protesto em Dresden --, mas isso é insuficiente para reduzir a ansiedade.

4. Notamos um fracasso duplo muito claro: a liderança e as organizações muçulmanas fracassaram dramaticamente, porque assassinos como os de Paris vêm da comunidade muçulmana. Sem reforço das comunidades e das lideranças, esses incidentes trágicos vão continuar. Não há uma mesquita central em Marselha, por exemplo. Não há, portanto, um ponto focal para organização e ação social. Líderes muçulmanos deveriam reforçar o fato de que a comunidade vive em um contexto cultural e social diferente daqueles dos países em que elas se originaram, na Argélia ou no Paquistão; de que muçulmanos de todo o mundo ficam descontentes com insultos à sua fé e ao profeta, mas que a resposta a esses insultos não deve ser violenta.

5. Os governos locais europeus também fracassaram. Se não fosse o caso, não teríamos tantas ocorrências violentas. Estratégias eficazes precisam ser definidas em coordenação com a comunidade muçulmana. Sem colaboração, não há como conter a violência. A sensação que tivemos foi de iniciativas aleatórias em alguns lugares e uso excessivo da força em outros.

6. Nos Estados Unidos, muitas vezes nos esquecemos da proximidade entre a Europa e a África e a Ásia. Os continentes se tocam; tanto no oeste, com Espanha e Marrocos, como no leste, com Turquia e Grécia. Isso significa que as fronteiras são "porosas". Cerca de 150 000 imigrantes entraram na Itália no ano passado. Cerca de 1 300 foram resgatados em alto mar enquanto estávamos no país. Enquanto houver caos político no norte e na região central da África e no Oriente Médio, as pessoas continuarão fugindo em busca de abrigo no exterior, especialmente na Europa. Uma política de longo prazo para lidar com refugiados precisa ser definida o mais rápido possível, ou logo não haverá recursos locais suficientes para lidar com esse fluxo de pessoas.

7. Considerando os vários incidentes que acontecem ao mesmo tempo na Europa, não é difícil concluir que a questão dos muçulmanos na Europa vai representar um enorme desafio para a sociedade, incluindo a questão da lei e da ordem. Lidar com ela é prioridade máxima.

8. O presidente da França e o imã da principal mesquita de Paris ambos condenaram os assassinos, dizendo que eles irão para o inferno, etc. O problema é aceitar que essas ações sejam motivadas pela religião. Os muçulmanos podem usar a retórica religiosa, mas esses ataques são consequência do ambiente sociológico de suas vidas na Europa de hoje. Portanto, a resposta deve ser evitar novos incidentes no futuro, em vez de se envolver em discussões teológicas fúteis. Além disso, a estratégia e a política para lidar com as comunidades minoritárias precisam ser definidas em um contexto que envolva todo o continente.

9. São tempos complicados na Europa. Eles vão exigir sabedoria, coragem e compaixão dos líderes muçulmanos e não-muçulmanos. Felizmente, tivemos o privilégio de conhecer homens e mulheres de visão extraordinária - de Bent Melchior, ex-rabino-chefe da Dinamarca, a Rowan Williams, o ex-arcebispo de Canterbury, e a Mustafa Ceric, o ex-grão-mufti da Bósnia-Herzegovina. Com suas mensagens de cooperação entre as fés e as culturas, de diálogo e compreensão, eles refletiram a noção judaica de tikkun ulam - criar um mundo fraturado. Deveríamos ouvi-los.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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