OPINIÃO

Um casal literário

06/11/2015 18:39 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
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O amor às vezes nos prega umas peças e surge onde nunca, no senso comum, haveria de encontrar-se. Pois foi assim que eles se conheceram.

Não foi na mesa de bar, nenhum amigo em comum os apresentou. Não houve uma festa que possibilitasse o encontro, nem sequer um esbarrão abrupto na rua, desses de novela, em que as coisas dela caem no chão, ele a ajuda, os olhares se cruzam e ... uau! Nasce dali uma história.

Não, nada disso houve.

Ele, solitário homem de seus 50 e poucos. Ela, jovem adulta de 28. Apaixonados por literatura.

Liam, reliam, treliam seus livros em suas solidões já habituais e quietas, em suas casas silenciosas na cidade cinza.

Ele era jornalista e ela, também. Mas a grande paixão não era a narrativa dessa gente de verdade.

O que lhes devorava diariamente o coração era a dor da gente que não sai no jornal.

Essa dor de cotovelo, essa dor de existir, essa vácuo vazio se esvaindo nas entrelinhas da vida.

Isso era o que lhes arrebatava e para falar disso, ambos tinham um blog. O dele, de crônicas. O dela, de poesias.

O dele, famoso e com 10 mil likes diários. O dela, desconhecido e com a visitação quase que exclusiva dos amigos.

Uma semana antes do dia dos namorados, naquele período em que quem ama quer cantar e contar para o mundo ouvir, ele, que há tempos não amava ninguém, escreveu uma crônica que unia amores líquidos, o medo masculino dos quase-relacionamentos e a voracidade feminina em constituir um enlace, sobretudo nessa data.

Ela leu o que ele escreveu e discordou. Só Deus sabe por que pensou que seria importante comunicar àquele homem o que ela pensava do que ele havia dito. Escreveu-lhe, assim, um manifesto sobre a liberdade feminina e sobre a supremacia das pessoas que permitem-se não durar e sim inflamar, utilizando como ponto de argumento Roland Barthes e o seu "e me dizem 'esse tipo de amor não é viável'. Por que é melhor durar a inflamar?".

Foi paixão à primeira linha. Ele, fazia um bom tempo, não cruzava suas frases com uma mulher tão radioativa. Sua resposta, após verificar suas fotos de biquíni no facebook, foi um quase que imediato "quando podemos falar mais sobre isso com uma cerveja?".

Fazia muito tempo que esse viejo corazón não amava. Fazia bem pouco tempo que aquele jovem miocárdio não se acelerava. Mas apesar dos pesares já previstos e das diferenças e incongruências todas expostas, assim, jogadas devastadoras sobre a mesa, ambos não podiam mais recuar e marcaram a primeira de tantas outras noites de louca boemia.

Foi paixão à primeira apresentação. Ela era mestre em Camus. Ele, apaixonado pelo Mito de Sísifo. Era o Sr. Meursault que vinha e que voltava, pedra que subia e descia, Simone de Beauvoir que falava e Sartre que calava.

Discutiram os rumos da literatura, os rumos dos livros. Desapareceriam diante da tecnologia? E foi entre Cervantes e Dante que ele lascou-lhe o melhor beijo da sua vida.

Ele tinha uma festa de uns amigos. "Vamos comigo?". Foram. E foi mais conversa e foram mais risadas.

Mas foi num Balzac que se desentenderam. Quando ela admitiu nunca ter conseguido superar o século XIX, ele explodiu. Como ela, uma estudiosa de Camus? E ela dizia ter seus motivos. Ele não entendia: o que na vida poderia ser melhor ou maior que Camus?

"Eu só quero falar de Camus, baby! Eu só preciso que você ame Camus"

"Você quer teoria do absurdo?"

"Sim, porque nada disso faz sentido, a vida não tem sentido!"

"Eu prefiro não acreditar nisso"

"É Mito de Sísifo, baby, é subir a pedra pra depois ter que começar tudo de novo e de novo e de novo..."

"Chega, isso é uma piração, eu tô indo embora"

E foi assim, com trejeitos de uma personagem de Stendhal que ela saiu da festa, dramática, romântica, definitiva.

Ele, qual um marido de Flaubert correu atrás dela. Primeiro pediu-lhe perdão, depois, enfurecido em ver que ela continuava firme em sua marcha, agarrou-lhe pelo braço e disse:

- Melhor pararmos mesmo isso por aqui. Nem nos conhecemos e já estamos brigando, não vejo como ter futuro um troço desses...

Realismo! A frase remeteu-lhe à sua escola literária preferida. Ela pensou em Machado de Assis e disse:

- Quer ir para minha casa?

Ele, mais estupefato que Brás Cubas ao olhar do alto do morro, junto com a mãe Natureza, o movimento caótico da humanidade respondeu-lhe que sim.

Como eram também grandes amantes da filosofia, tiveram uma noite Homérica!

Uma semana Platônica e estão vivendo uma paixão à la Hilda Hilst.

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