OPINIÃO

Parem o mundo que eu quero descer!

07/11/2014 16:08 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Adam Hester

O que fazer quando o curso dos fatos te encontram inocentemente desprevenida e você, por estar assim tão desarmada, não consegue assimilar o que está acontecendo? Quando se olha para o país estupefata e, por não acreditar naquilo que emerge à visão, você coça os olhos para assegurar-se de que "não, não é só um sonho!". E, quando, enfim, após sofrer tudo isso, você simplesmente entrega-se por dias a melhor vertente filosófica já criada por alguém? - A teoria do absurdo de Albert Camus, claro, como não poderia deixar de ser nesse after de mal gosto do segundo turno das eleições presidenciais de 2014.

Bem, em eleições é muito normal que haja bastante discordância, pequenas desavenças familiares e entre amigos. Portanto, sobre o embate político verificado presencialmente e nas redes sociais durante o período eleitoral, eu não tenho nenhuma crítica a fazer. O que me deixou Camusiana foi, como já disse, os dias que sucederam a reeleição da presidenta Dilma Rousseff.

O meu primeiro choque, foi, ainda no dia 26/10, quando não sabíamos quem havia sido eleito. Estava no apartamento de meu irmão, em Moema, São Paulo, e as pessoas esgoelavam de suas janelas: "fora sua puta", "fora sua vagabunda", "sai sua feia, baranga" e por aí ia. Além da falta de educação de se utilizar um vocabulário tão esdruxulo para se qualificar alguém que preside nosso país, o que me chamou a atenção foi também a falta de inteligência, batida no liquidificador com um terrível e vergonhoso sexismo, atingindo o ápice da inocuidade. Afinal, o que a aparência da Dilma tem a ver com o seu cargo? Ou ainda: prostituição é uma profissão bastante trabalhosa pela qual nutro um grande respeito, mas não é a ocupação atual de Dilma, que, afinal, é uma senhora de 61 anos. A falta de classe da nossa elite, aliás, foi de chorar nesses últimos tempos. Olhem que eu, que sou uma pessoa do povo e tida, segundo os PSDBistas, como mal informada, quando enchi a boca para xingar FHC certa feita, disse, baixinho "boca mole!", porque lá em casa, mamãe falou que não se ofende verbalmente ninguém, menos ainda quem é mais velho.

No dia 27/10, entrei nas redes sociais e me deparei com uma onda neofacista de arrepiar. Pessoas pedindo pela separação do Brasil - mais uma vez, de maneira interessantemente impensada, posto que em estados do Sul tais quais Rio de Janeiro e Minas Gerais, Dilma ganhou de Aécio Neves. Contudo, o mais impressionante eram os argumentos para a divisão: nordestinos e nortistas são burros, pobres, desinformados e vagabundos. Por que devemos dividir o país com eles que "não sabem votar?!". Havia também ameaças sulistas, que seriam cômicas se não fossem trágicas, como: "nordestinos, não venham pedir emprego em São Paulo. Fiquem aí morrendo de fome e arquem com as consequências de suas escolhas". Não consegui conter o riso ao ler essa, pois, considerando a falta de água em SP, acredito ser bem mais possível paulista ter que vir para cá pedir água do que baiano ter que descer para pedir trabalho. Sem contar que, passar fome não é mais a realidade do Nordeste. Dilma e Lula resolveram essa questão.

Segui monitorando as redes sociais por diversos dias. Eram tantas as manifestações de preconceito e ódio, que, no facebook foi criado um grupo chamado "Xenófobos do meu Brasil", no qual se divulgavam declarações xenófobas dirigidas ao povo nordestino. De todas, a que mais me embrulhou o estômago foi a de Ana Finotti, que dizia assim: "Eu gosto do Nordeste! Meus parentes italianos comem menininhas de 12 anos lá por um preço baratíssimo!". Depois dessa, passei dias repetindo para todo mundo com quem eu conversava: cara, como essas pessoas vivem? Elas pensam para falar? Não é possível tamanha escória em pleno século XXI! Afinal, são pensamentos como esse que criam a cena favorável para os piores crimes da humanidade. A escravidão, o Holocausto, os estupros e todos os crimes contra a mulher, bem como homofobia se desenvolvem exatamente nesse lugar: no ódio pressuposto e burro daquele que desconsidera o outro e se julga, por questões totalmente aleatórias, superior.

Na crescente do inimaginável, ainda tive que ver pessoas manifestando por uma intervenção militar. Opa, esperem aí. O que essas pessoas pretendem? Ninguém contou para elas como foi a ditadura no Brasil? Ah tá, elas não querem outra ditadura, elas só querem a ordem. Entendo. Mas o que está tão bagunçado que precisamos chamar os milicos para colocar em ordem? Porque até onde o mundo sabe, o Brasil vai bem. Tem uma economia que, de fato, não está crescendo como se gostaria, porém a geração de empregos tem dos melhores índices mundiais, quase mais ninguém no país passa fome, "o salário mínimo aumentou muito nos governos do PT" (como diria Aécio), estamos caminhando para a ampliação e fortalecimento de medidas de distribuição de renda que mudaram a nossa história e, mal a presidenta se reelegeu, já está botando para andar a reforma política e a regulação da mídia. Digo então: não estamos precisando do espírito salvacionista das milícias brasileiras, muito gratos!

Isso tudo sem contar o lamentável caso mimimi inconformista da recontagem de votos - mais uma faceta da infantilização de nossa elite que, desde sempre "a dona da bola e da história", não aceita ser contrariada. Todavia, essa eu nem vou perder meu tempo comentando, dado que o STF já até vetou a demanda.

Diante de tudo isso, emudeci por dias e, apenas hoje, consegui tecer um comentário sobre os últimos tristes fatos da nossa República. Por fim, faço minhas as palavras pronunciadas pela esquerda festiva presente em peso no meu FB: se forem separar mesmo, me avisem, porque quero ser Brasil do Norte - porque aqui ninguém patrulha ninguém, o povo é doce e malemolente, sabem curtir a vida e são inteligentes que só a porra, como diriam os baianos.

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