OPINIÃO

Encontros e Desencontros da Pequena Área

16/12/2015 19:08 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02
Fotosearch via Getty Images

A paixão pelo futebol intriga-me há muitos e muitos anos. Já conheci tanto homens quanto mulheres completamente fanáticos e já vi muita noite romântica ruir por conta de uma derrota do time do coração.

Convivi com mais homens desesperados por suas equipes do que com mulheres; natural, afinal o futebol socialmente sempre foi classificado como um esporte bastante masculino.

A conclusão à qual cheguei depois da observação atenta de namorados e amigos foi que um homem apaixonado por seu time abre mão de tudo o que ele mais gosta para vê-lo jogar, ainda que seja uma pereba perdedora e derrotada da 3ª divisão.

Homem fanático abre mão de sexo com a Gisele Bünchen em nome de um clássico no domingo ou na quarta...

Esses pobres homens perdem-se, partem corações sem nem saber e ficam líderes ou não do campeonato, chutando a latinha da solidão pelas ruas, chupando o picolé gelado do abandono, exatamente como aconteceu ainda esta semana nos Jardins, em São Paulo.

Uma amiga, D., me ligou hoje pela tarde para me contar do encontro que deveria ter tido ontem com um ex-affaire. Encontro com ex-affaire é complicado. Sempre sugere algo muy caliente, mas nem sempre o é.

O ex-caso pode ter engordado, enfeiado, encarecado, enfim, mudado bastante e nem mesmo com todo o auxílio oferecido pelas redes sociais pode-se ter com exatidão acesso ao novo shape físico e psíquico da pessoa em questão.

Sem contar que no Facebook todo mundo é modelo, então nem dá mesmo para levar isso em consideração.

Estou cansada de ver figuras apolíneas nas páginas das redes sociais para depois conhecê-las ao vivo e decepcionar-me de forma bastante dura.

Enfim, voltemos a minha amiga e ao seu encontro com o ex-affaire.

Ela tinha expectativas; afinal de contas, não era um ex-namorado. Era um ex-affaire.

Affaire não é namoro. Affaire é aventura, frio na barriga, encontros sorrateiros no final da tarde, hotéis baratos no centro da cidade.

Affaire é o estado bruto da paixão, sem evoluções, sem RG de status, sem futuro e sem passado.

O bom affaire se apresenta todo corpo e se faz só de presente.

Havia acontecido já um reencontro de ex-affaire na semana anterior. Havia sido muito bom. Não tinham conseguido parar de falar um só minuto.

Todas as lembranças, todas as faltas, todas as vontades assim despertadas repentinamente.

E as novidades? Não se viam há mais de sete anos, era coisa de mais para ser dita, atualizada, contada.

Na despedida do encontro, obviamente, como havia mãos desejosas aguardando e bocas salivantes de saudades, beijaram-se. Longamente e apaixonadamente. E depois de novo. Muito bom, delicioso.

O beijo e o cheiro haviam mudado.

Estavam melhores.

Nos dias que se sucederam: mensagens mil, telefonemas escondidinhos, vontades, curiosidades e muita ansiedade. E então combinaram o próximo encontro: quarta-feira.

Então, D. sai de casa, ainda de manhã, no fatídico dia, carregando o armário em suas costas. Ia viajar a trabalho durante o dia, mas se trocaria no aeroporto na volta para não perder nem a hora e nem a linha.

Chegando a SP, depois de peripécias e malabarismos, exausta, mas sem descer do salto, pregada, mas de batom vermelho. Já no táxi, ligou para o desalmado.

E a resposta?

"Vou ao jogo do Coringão!"

"Como assim, jogo? Eu achei que íamos nos ver!"

"Ah, eu achei que estava precisando de um futebolzinho para relaxar".

D. desligou humilhada e foi encontrar com os amigos num bar, no qual, é óbvio, todos estavam acompanhando a partida pela televisão sob os berros e as lamúrias de uma horda de fanáticos.

A maldita galinha preta estava arrasando. Mil gols, mil gols. E a cada um deles, D. sentia como se uma faca, não, melhor, um punhal penetrasse suas entranhas, arrancando suas vísceras sanguinolentas, matando-a lentamente.

O corpo doía, a alma chorava.

Já não havia mais nada que não gritasse de dor, e o jeito era secar o Corinthians e beber pra anestesiar a derrota.

Ela sabia que, a cada gol marcado, a certeza da escolha inegavelmente acertada do ex-amante se clarificava na mente de F. naquele estádio xexelento, com aquele time mais xexelento ainda.

Ela, são paulina, sempre foi anti-corinthians, mas naquele dia o ódio a consumia ainda mais.

Fez todas as promessas e negociações com Cristo para que o timeco de 5ª que estava sendo goleado reagisse, mas nada... "Nem pra isso servem esses falidos!", exclamava.

Teve de suportar 3 X 0. Placar final do Clássico. Lágrimas nos olhos.

Como toda mulher rejeitada, arrumou um cobertor de orelha provisório, mas, antes de qualquer coisa, fez questão de assegurar-se: "Para que time você torce?". Indagou, dividida entre a fúria e a avidez.

O moço, que nesse instante virou príncipe, respondeu: "Não vejo graça em futebol, não torço pra time nenhum".

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