OPINIÃO

Alter ego bêbado: todo mundo tem o seu

04/01/2016 17:27 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
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Diante da bebedeira institucionalizada que é o fim de ano, com todas as suas confraternizações, despedidas, encontros e reencontros, não poderia deixar de pensar na relação estreita e bela que o álcool (além de outras substâncias) exerce sobre a nossa personalidade. Como diria L., "a gente continua sendo quem somos, mas de maneira ainda mais exagerada, o que, no nosso caso, é um desastre!".

Os muito fieis à própria personalidade que me desculpem, mas alter ego é fundamental. Porque, afinal de contas, ninguém consegue passar por essa vida bandida sem tirar férias de si mesmo. Ser a gente sempre cansa um pouco. Nós que erguemos tantas bandeiras, que temos tantas lutas a travar todos os dias. Que queremos que o mundo seja bom pra todo mundo e sabemos que esse lugar nos parece cada dia mais distante. Por isso, vez por outra, é totalmente necessário decretar-se feriado e dizer: hoje não estou pra ninguém. Se quiser mesmo me encontrar, só falando com meu lado B". Acho impossível passar a vida de cara limpa. A bem da verdade, não acho nem saudável.

Todo mundo, aliás, tem mais de um viés. Somos algo bem definido na essência, mas as máscaras sociais cotidianas nos impõem tantas regras de conduta, que, às vezes, assumimos outras possibilidades do nosso próprio personagem. Você no trabalho acaba não sendo exatamente a mesma pessoa que é na mesa de bar, com seus amigos. Você, solteir@ na farra, acaba se apresentando de forma um tanto distinta do que quando está num almoço de família ou tentando parecer respeitável para pessoas que mal conhece e assim por diante.

Sem contar que, à medida que vamos vivendo, as pessoas vão nos taxando de determinadas coisas. Elas nos atribuem adjetivos e, depois que essas classificações alcançam um consenso entre as pessoas mais próximas, aquelas que mais te conhecem, pronto. Você é aquilo! Não há para onde fugir. "Fulano é muito responsável e sério, jamais faria isso!"."Fulana é muito espevitada e maluca, como conseguiu ganhar um prêmio na Acadêmia?!". Porém, a verdade mesmo é que em todos nós repousa um sério metódico e um espevitado maluco em potencial.

De todas as poções mágicas que fazem aflorar traços de personalidade inconfessáveis, o mais potente que até hoje conheci, foi o álcool. Eita substância potente na subversão da alma humana - não à toa considerada a poção dos ursinhos Gummi.

Todo mundo tem um alter ego bêbado. Tem gente, inclusive, que tem mais de um. No entanto, de maneira geral, as pessoas possuem um comportamento peculiar e repetitivo quando ultrapassam o limite dos 6 ou 7 copinhos. Tem gente que fica comunicativa ao extremo e conta a vida inteira, com detalhes sórdidos, ao chefe, naquele happy hour errado da firma. Tem gente que fica carente e dá a mão pros amigos, pede músicas românticas pro cantor do bar e termina a noite relembrando aquele affair do passado - com os amigos desesperados segurando o celular para que o indivíduo não ligue aos prantos saudosos para o ex!).

Têm aqueles que ficam agressivos e impacientes e brigam com todo mundo. Duro mesmo é escutar todas as histórias que você protagonizou no dia seguinte. Como diria um amigo meu: "se Deus me deu a dádiva de esquecer, por que que você quer me lembrar!?!?". A ignorância é a melhor amiga da ressaca, pode acreditar.

Eu particularmente tenho um alter ego bêbado extremamente fiel e pontual. Após 5 ou 6 chopps ou três ou quatro taças de vinho, ele chega. O nome da figura é Jenniffer. Não sabemos tanto assim de nós, afinal de contas, quando Jen chega, eu já estou de saída, praticamente de pijamas, mas o que eu já ouvir falar dessa moça me faz pensar que poderíamos até ser grandes amigas.

Jen chega chegando e, se a festa tem banda e palco, pode valer que ela vai subir lá e dançar.

Porque essa moça é assim: festeira e muito desinibida! Ela faz amig@s na pista e na fila do banheiro, se perde do grupo original para alongar-se numa prosa inédita com gente nunca antes vista. Ela detesta o fim da festa e, por isso, sugere sempre uma saideira num bar pé sujo da augusta, onde começa a filosofar sobre os tempos atuais, a sociedade e o machismo vigente. Ela diz sempre: "ser piriguete é uma questão política!", porque ela adora duas coisas nessa vida: frases de efeito e chocar as outras pessoas que estão na mesa! E essa frase acaba juntando suas duas paixões num mesmo espaço.

Sua melhor amiga também tem um alter ego bêbado: a Magali! Apesar de sóbria tratar-se de uma nipônica comedida e um tanto "grave", depois de uma certa dose da poção, torna-se gulosa, empolgada e incontrolável. Dessas que atravessam a rua sem olhar, que acha que a vida é uma só e que o momento é sempre o agora.

Desse modo, Jen e Maga dão-se muito, muito bem! Curtem a vida como se não houvesse amanhã e devaneiam sobre um mundo fora dos padrões tradicionais. Fazem pequenas revoluções e falam poeticamente. De modo que são, elas também, melhores amigas!

Os alter egos estão aí para fazerem com que nos confrontemos com aquelas características que são nossas, mas que passamos os dias "de cara limpa" tentando ocultar, esconder. São aquelas características que vivemos tentando apequenar para que pareçamos pessoas melhores. Mas, graças a Baco, não podemos enterrá-las para sempre no poço do nosso autocontrole e, goles depois, esses impulsos vêm nos encontrar e brindar conosco uma maior graça da existência. Temos que agradecê-los, pois suas aparições são a garantia da manutenção de nossa sanidade.

E você, qual seu alter ego bêbado? Qual faceta você esconde da sociedade, mas, depois de alguns goles a mais, te bota para dormir e parte, livre e soberana, para conquistar o mundo?

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