OPINIÃO

A complexidade do luto por um ídolo acusado de abuso sexual

15/01/2016 16:24 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Star Max/IPx
Photo by: Dennis Van Tine/STAR MAX/IPx 1/11/16 David Bowie Memorial in New York City.

Semana sim semana não, sou uma das líderes de um grupo de apoio para pessoas de todos os gêneros. Na nossa última reunião, um dos tópicos discutidos foi David Bowie, é claro. Algumas pessoas se sentiram deslocadas, perturbadas com a morte do artista.

Nesse espaço transgeneracional, havia os que cresceram quando Bowie já era famoso bem como os que cresceram junto com Bowie e viram sua carreira decolar. Contamos histórias sobre o significado dele para cada um de nós e também falamos sobre os sentimentos confusos que surgiram quando descobrimos informações sobre seus abusos e comportamentos problemáticos.

Nas redes sociais, vi inúmeras histórias de como a música de David Bowie tocou milhões de pessoas da comunidade LGBT, de várias raças, idades e países. As pessoas expressaram choque e falaram de suas lembranças, como ele as inspirou de maneiras que nem elas mesmas suspeitavam, como ele mudou a música, a ficção científica e os gêneros.

E anteontem também soube pela primeira vez das acusações de estupro contra ele (das quais ele foi absolvido por um júri, mas também sei que isso não significa que o estupro não tenha acontecido) e de seu envolvimento com uma menina de 14/15 anos. Minhas timelines estavam cheias de raiva explosiva, mas também de expressões de desconforto, frustração e exaustão.

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David Bowie e Jennifer Connely em uma cena do filme 'Labirinto'. (Stanley Bielecki/Getty Images)


O que eu, uma latinx sem gênero definido, tenho de sentir e fazer a respeito desse ícone cultural? Uma pessoa que há anos trabalha para evitar e lidar com abusos e ataques sexuais? Uma pessoa que ensina consentimento e acredita no incrível poder e conhecimento da juventude, bem como na incrível vulnerabilidade da adolescência? Uma pessoa que vê estrelas brancas escaparem ilesas de acusações que crucificariam celebridades de cor? Uma pessoa que trabalha com muita gente que tem sentimentos profundos a respeito de David Bowie? Uma pessoa que viu o filme "Labirinto" muito mais vezes do que deveria, mas que mesmo assim não sentia uma ligação tão próxima com Bowie?

Temos de lidar com o fato de que o humano Bowie... pode ter abusado de seu poder e seu privilégio.

E o que as outras pessoas devem sentir? Os sobreviventes de abusos e ataques sexuais, ouvindo elogios a um acusado de estupro? As crianças LGBT para quem a música de Bowie foi uma salvação, uma esperança para quem contemplava o suicídio? As pessoas que vivem nessa intersecção?

Não faço essas perguntas porque tenho as respostas definitivas nem porque tenho prazer em dizer o que os outros devem fazer (quer dizer, talvez, mas são outros quinhentos). Pergunto porque temos de discutir e entender que posição tomaremos, e o que ela significa.

Socorro: sentimentos são difíceis e complicados!

Nossa relutância em ter uma conversa aberta e sincera sobre as falhas das celebridades que amamos vem de um fato simples: nos enxergamos nelas. Se sua celebridade favorita é inteligente, talentosa e bem-sucedida, mas também pode ser classista, sexista ou racista, o que isso diz a respeito de você? Bem, diz que você pode ser classista, sexista, racista, homofóbico ou transfóbico.

Mas você pode ser, e é, algumas dessas coisas, às vezes. Eu também. Assuma. Aprenda. Não é um ataque, é a verdade. Ninguém é um exemplo perfeito de virtude. Se você não está fazendo nada errado é porque não está tentando.

- Ijeoma Oluo

Para aqueles que não estão de luto por David Bowie: Podemos e devemos criticar ações deploráveis a despeito de quem as cometa. Devemos também reconhecer o direito das pessoas sentirem luto e respeitar a dor real que elas estão vivendo. Isso não significa esquecer ações problemáticas, aterrorizantes, horríveis, nojentas etc. Significa respeitar o fato de que muita gente está se sentindo triste. Bowie morreu; devemos ser gentis com as pessoas que sentem a perda. Não significa que devemos estar de luto, erguer cartazes, nos envolver em conversas que não nos parecem autênticas. Não significa que não devemos sentir nossos sentimentos nem que devemos deixar de lado questões que consideramos importantes. Significa que devemos permitir que haja um espaço onde as pessoas de luto possam se congregar e sentir seus sentimentos. Significa que podemos expressar nossa raiva em relação às ações de David Bowie, mas não à custa daqueles que estão de luto.

Nossa relutância em ter uma conversa aberta e sincera sobre as falhas das celebridades que amamos vem de um fato simples: nos enxergamos nelas.

Estamos criticando Bowie ou seus fãs? Estamos nos concentrando no objeto cultural ou na pessoa? Estamos criticando os abusos que ele cometeu ou o fato de que as pessoas podem ter sentimentos grandes e complexos sobre isso e ao mesmo tempo estão chorando sua morte? Estamos criticando o fato de que certas estrelas são muito elogiadas na hora da morte e seus pecados são esquecidos? Estamos criticando como, por causa da ignorância e da supremacia branca, muitos choram a morte de uma estrela branca e ignoram as perdas de incontáveis pessoas de cor nas mãos da brutalidade policial? Estamos criticando a tristeza das pessoas só para parecermos 'cool' por não sentir nada? Estamos achando que as pessoas não podem ter vários sentimentos simultâneos?

Temos de pensar na nossa audiência e no impacto de nossas palavras nas nossas comunidades. Temos de pensar nas intersecções e como as destacamos ou as apagamos. Temos de nos perguntar se estamos nos fazendo ouvir, e a serviço de quê.

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(Source: Flickr)


Para aqueles estão de luto por David Bowie: Temos o direito de ter tempo para chorar, para lembrar, para fazer o que quer que seja necessário. E não devemos usar nosso luto para silenciar os sobreviventes de abuso sexual, mesmo que nós mesmos sejamos sobreviventes.

Temos de lembrar que não precisamos entrar imediatamente em discussões com estranhos (nem com amigos) sobre os aspectos problemáticos da vida de Bowie. Mas, em algum momento, temos de nos envolver nessa discussão e incorporá-la em nosso entendimento de Bowie, porque ele era um ícone mas também uma pessoa.

Devemos dar espaço para a dor daqueles que foram vítimas de abusos e que foram repetidas vezes silenciados, especialmente porque tantos foram abusados por celebridades, por pessoas em posições de destaque, e todo mundo fez vista grossa "porque eles fizeram tanto bem para a comunidade".

Significa que temos de encontrar pessoas que têm sentimentos parecidos com os nossos para falar sobre nossas emoções, mas não à custa do reconhecimento da cultura do estupro e do abuso.

Não devemos usar nosso luto para silenciar os sobreviventes de abuso sexual, mesmo que nós mesmos sejamos sobreviventes.

Estamos confundindo nosso luto por Bowie a pessoa com Bowie-o-ícone-e-o-que-sua-música-significou-para-nós (e portanto em luto por um pedaço de nós mesmos e nosso mundo)? Estamos de luto de modo a apagar tudo o que ele fez de errado, promovendo Bowie como um ciborgue perfeito da visibilidade LGBT? Estamos ignorando o impacto de raça, idade e dinheiro nessas discussões? Estamos de luto num fórum público, mantendo um silêncio sinistro sobre os possíveis abusos de poder de Bowie? Estamos de luto por David Bowie e ridicularizando ou ignorando o luto pelas inúmeras vidas perdidas em lugares como Síria, Afeganistão e Iraque?

Temos de pensar na nossa audiência e no impacto de nossas palavras nas nossas comunidades. Temos de pensar nas intersecções e como as destacamos ou as apagamos. Temos de nos perguntar se estamos nos fazendo ouvir, e a serviço de quê.

Nossos ídolos são problemáticos (#SorryNotSorry, David Bowie)

Temos a tendência de esperar dos nossos ídolos os mesmos padrões morais dos nossos amigos, e costumamos ter a expectativa de que eles ecoem nossas posições políticas e nossas sensibilidades da mesma maneira que a arte deles, qualquer que seja, fala conosco. Por definição, a fama exigem que quem está do lado de fora use a imaginação para sustentar as narrativas das celebridades; o que vemos das vidas dos famosos é tão pouco e tão mediado que achamos que sabemos, mas na realidade não temos a menor ideia. A fama nos incentiva a preencher as lacunas com o que queremos enxergar, com o que reafirma nossas suposições. Não é surpresa, então, que quando se trata de arte que apreciamos, e dos artistas que a produzem, esperamos enxergar nosso reflexo neles, mesmo nos níveis mais simples.

Rawiya Kameir

Entender que "nossos ídolos são problemáticos" não significa carta branca para desculpá-los dos seus erros, porque "todo mundo é problemático" (e, pode acreditar, há muitos mostrando que a maioria das pessoas de quem gostamos meteu os pés pelas mãos). Ainda assim, existe a questão do grau e do impacto.

E temos de lembrar que uma mentalidade de "matar todo mundo que fizer algo errado" não nos leva a lugar nenhum no longo prazo. Podemos lembrar e perdoar. Podemos cobrar responsabilidade e manter as pessoas entre nós. Podemos lembrar, não perdoar, e mesmo assim seguir em frente. Temos opções.

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David Bowie como Ziggy Stardust.


A maioria de nós conhece Bowie como ícone, roqueiro, artista, ator, pioneiro - um conceito maior que a própria vida -, em vez de Bowie como ser humano. Temos de lidar com o fato de que o humano Bowie (não a persona que ele criou o que ele significou para nós ou o que sua música fez por nossa alma e nossa sobrevivência) pode ter abusado de seu poder e seu privilégio.

Pode ser difícil e assustador conceber a realidade de amar alguém e/ou achar que a pessoa fez coisas incríveis com a realidade de que essa mesma pessoa fez coisas horríveis, mas o mundo é assim. É disso que se trata a interseccionalidade - entender como identidades que se cruzam fazem nossos privilégios e opressões, entender as maneiras complexas por meio das quais nossas experiências e pedaços formam nosso todo.

Ao discutir David Bowie, precisamos eliminar a transfobia, a homofobia e as desculpas pela cultura do estupro em muitas das conversas.

Assim como gays e trans que não são sobreviventes de abusos/ataques sexuais deveriam reconhecer a dor dos sobreviventes, os héteros e cisgêneros deveriam reconhecer a dor da população LGBT. E quem está nas intersecções - os sobreviventes LGBT - que se sentem confusos (ou de um lado do muro) também precisam da nossa compreensão. Ao discutir David Bowie, precisamos eliminar a transfobia, a homofobia e as desculpas pela cultura do estupro em muitas das conversas. São forças tóxicas que prejudicam nosso mundo.

Não devemos simplesmente descartar o legado artístico de David Bowie e seu impacto. E não devemos descartar as acusações de estupro e as realidade de como ele se envolveu com uma menina de 14/15 anos quando ele era um adulto poderoso e reverenciado.

Também temos de ouvir as pessoas que interagiram com Bowie, em vez de colocar palavras nas bocas delas, e ao mesmo tempo reconhecer que há forças poderosas envolvidas - só porque alguém não se sente vitimizado não significa que David Bowie não tenha agido de forma predatória ou que não tenha vitimizado alguém na mesma situação.

Podemos dizer "Eram os anos 1970!" e "as coisas eram diferentes na época, com tantas drogas!" ou qualquer outra coisa para dar contexto, mas não para justificar abusos. Alguns de nós podem se sentir confusos ou incrédulos em relação ao relato de Lori M. sobre seus relacionamentos com David Bowie e Jimmy Page, mas temos de entender que a história é dela, não nossa.

O fato de que alguns de nós teriam se comportado de maneira diferente não apaga a realidade e a verdade de Lori. E também temos de prestar atenção ao que essa narrativa faz na esfera pública.

Pessoas e experiências marginalizadas não costumam ser categorizadas e perfeitas para o consumo dos movimentos sociais. Quando elas o SÃO, ou parecem ser, alguma coisa está errada.

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David Bowie mais velho. (AP Photo/Koji Sasahara)

Indo além do "morte aos estupradores"

Um sistema carcerário e baseado em punições que valorize o olho por olho não vai nos salvar. Pode parecer bom na hora, resolver aquela coceira da "vingança", mas não vai nos salvas. Expulsar as "pessoas ruins" da ilha vai nos deixar numa ilha vazia. O que vai nos salvar é a compaixão, a compreensão, a responsabilidade, a transformação e a restauração da justiça. Não é fácil, mas é o que temos de fazer. E não é SIMPLES, mas é o que temos de tentar se realmente quisermos viver num mundo diferente e melhor. Não significa que temos de ignorar as coisas ruins ou ~*~ magicamente perdoar as pessoas e abraçá-las mesmo que elas ameacem nossa existência ~* ~ (já falo mais sobre isso).

Em relação a David Bowie e seu trabalho, cada um tem de entender como essas coisas se conectam em nossas vidas. Algumas pessoas podem rejeitar sua música, outras, não. Alguns podem sentir repulsa ao vê-lo em filmes que gostavam no passado, outros, não. Podemos encontrar uma maneira, enquanto sociedade, de honrar seu trabalho e as coisas que ele trouxe ao mundo ao mesmo tempo não apagando seus erros.

Bowie não é a primeira nem será a última celebridade em quem vamos pensar dessa maneira. Melhor começar a praticar esse tipo de pensamento, se é que já não estamos fazendo isso (e muitos de nós já vêm pensando no assunto há muito tempo).

É fácil para mim ter compaixão pelas pessoas de que gosto e com as quais concordo, pessoas que não me prejudicaram. Ver essas pessoas como seres humanos de valor, que merecem bondade e segurança e cuidados do mundo e de mim - isso é fácil. Estender essa mesma compaixão para todos - paras as pessoas que me prejudicaram, aqueles de quem discordo em tudo, as pessoas que jamais me dariam ouvidos ou teriam empatia ou compreensão para comigo - isso é mais difícil. Dar esse tipo de amor é difícil e doloroso.

Agora, para ser realista, ter compaixão por pessoas que me prejudicaram ou que quiseram me prejudicar não significa que eu tenha de deixá-las chegar perto. Não significa que eu tenha de colocar minha segurança em risco. E também não significa que essa compaixão não possa coexistir genuinamente com uma raiva real e poderosa. Mas minha dor e minha raiva não implicam que a pessoa não tenha o direito de existir, de sentir compaixão, de ser amada.

-- Andy Izenson

Eu? Concordo com Andy. Prefiro a perspectiva do amor radical. Não é sempre nem é fácil, mas com intenção, complexidade e imperfeição.

Post publicado originalmente no blog de Aida Manduley e ligeiramente editado para repostagem aqui.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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