OPINIÃO

Se não somos racionais, os políticos tampouco são

Uma reflexão sobre o Nobel de Economia 2017, Richard Thaler, e seus trabalhos sobre racionalidade, economia e Estado.

31/10/2017 21:54 -02 | Atualizado 31/10/2017 22:02 -02
maxkabakov via Getty Images
Entre políticos e eleitores, à cegueira ideológica, se adicionam interesses privados e ignorância.

Neste mês, foi atribuído o Nobel de Economia a Richard Thaler por seus trabalhos sobre racionalidade e economia comportamental. Ele teria demonstrado que os agentes econômicos não são "perfeitamente racionais" como nos modelos mainstream e que às vezes (ou muitas vezes) cometem erros cognitivos e tomam decisões sub-ótimas. Thaler e outros economistas comportamentais alegam que, então, o Estado poderia nos ajudar a tomar decisões melhores.

Do ponto de vista da Ciência Política, essa conclusão esbarra em um problema tão banal quanto grave: o Estado é uma organização feita de pessoas que também têm desejos, interesses, ambições, falhas de caráter, erros cognitivos tanto quanto os cidadãos, ou mais.

Recentemente, os dinamarqueses Dahlmann e Petersen aplicaram um questionário a 954 políticos (dinamarqueses) mostrando dados de performances de escolas privadas e estatais. Para um grupo, as escolas foram chamadas "escola A" e "escola B", para outro grupo "escola privada" e "escola estatal".

Perguntava-se quanto eles achavam que fosse a satisfação dos pais. No primeiro caso (escolas A X escolas B), foram capazes de responder corretamente; no segundo caso não. Explicitar que algumas eram estatais e outras privadas os levou a responder segundo as próprias ideologias prefixadas. Até aqui, só confirmações de estudos já conduzidos no passado.

Mas aí os dois pesquisadores aprofundaram a questão dando mais dados. Desta vez apresentaram dados sobre sucesso pós-operatório de hospitais privados e estatais. Resultado: os políticos que receberam mais informações, mesmo se refutassem as próprias convicções, erraram ainda mais, ou seja, distorceram as informações para suportar os próprios preconceitos.

À cegueira ideológica, se adicionam interesses privados e ignorância. Em Democracy e Political Ignorance, Ilya Somin, mostra que votantes (vulgo eleitores) e políticos são igualmente ignorantes sobre política. Os últimos sabem mais de tecnicalidades de bastidores e de politics, mas pouco ou nada de policy. Afinal quem os elege são estes mesmos eleitores ignorantes.

Aí fica o dilema: as pessoas não seriam capazes de decidir para si, mas saberiam escolher um político que depois vai decidir eficientemente para ele e para os outros também?

Em The myth of rational voter, Bryan Caplan demonstra que os votantes não erram casualmente dum lado e de outro, mas erram sistematicamente apresentando um viés anti-mercado, um viés pró-emprego (em lugar de pró-produtividade) e um viés anti-estrangeiro (ambos em questão de imigração e de abertura comercial) levando a decisões ineficientes para eles mesmos.

Na mesma linha, Jason Brennan adiciona (emThe ethics of voting; Aganist Democracy e Compulsory voting) como os votantes são ignorantes, como tendem a votar mal e como, então, quando mais pessoas votam a qualidade média do voto cai. Ignorância, interesse privado e ideologia aqui também.

Sobra uma terceira hipótese: nem os políticos, nem os votantes, mas os técnicos\burocratas. Como se eles também não respondessem a interesses privados, como se não fossem corruptíveis, como se tivessem informação perfeita para eles e para 200 milhões de pessoas, como se não fossem seres humanos imperfeitos.

Weber e Mises já mostraram faz tempo como os burocratas tendem a focar em procedimentos (e não em resultados) e a fazer uma carreira política (e não meritocrática).

William Niskanen dedicou a vida toda ao estudo da burocracia e demonstrou amplamente que burocratas respondem a lobistas e aos chefes políticos (e não ao usuário), que tem incentivo a ampliar sempre mais a própria esfera de poder, a pedir sempre mais dinheiro, a não resolver o problema (pois acabaria a necessidade do emprego dele), a trabalhar menos e ganhar mais.

Miglio mostra como os burocratas tendem a aumentar o gasto estatal (pois eles são pagos por meio dos impostos) a votar para quem beneficia a classe estamental.

Allison mostra que os técnicos decidem também levando em conta ciúmes entre colegas e a própria sobrevivência na organização burocrática.

Não há alternativas; estamos condenados a errar sozinhos ou a receber ordens erradas de cima.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.