OPINIÃO

Ninguém precisa me penetrar para eu saber que fui violada

Existem muitas formas de me causarem "constrangimento" pelo simples fato de eu ser mulher.

04/09/2017 18:12 -03 | Atualizado 04/09/2017 18:12 -03
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"Fui embora, mas aquela sensação horrível ficou no meu corpo o dia inteiro. Era MEU corpo, meu espaço, meu direito de não ser tocada por quem eu não autorizei"

Há uns anos, eu estava no metrô de São Paulo com mala e mochila na mão. O vagão estava cheio e as pessoas, muito próximas umas das outras. De repente, comecei a sentir algo se aproximando e encostando em mim.

Primeiro, achei que fosse sem querer, por conta do balanço do trem. Mas aquilo foi crescendo e se avolumando ali na curva entre meu bumbum e o início da minha perna, do lado direito. Só de lembrar eu sinto de novo, como se fosse agora, e me sinto péssima.

Por medo, não tive coragem de fazer absolutamente nada. Não gritei, não reclamei, não bati no homem nojento que continuava ali, escondendo nas calças a ousadia de quem sabe que ficará impune. Apenas lancei um rápido e sutil olhar de raiva para ele, consegui me afastar alguns centímetros e empurrar meu corpo para a frente, quase caindo em quem estava sentado.

Fui embora, mas aquela sensação horrível ficou no meu corpo o dia inteiro. Era MEU corpo, meu espaço, meu direito de não ser tocada por quem eu não autorizei.

Essa memória veio à tona quando saiu a notícia da mulher que levou um jato de esperma no pescoço dentro de um ônibus. Naquela hora, ela não estava sozinha. Milhares de mulheres já estiveram, de alguma forma, ali. Milhares já foram alvo do prazer alheio não permitido, de um olhar faminto, de uma cantada agressiva, de um toque não consentido. Todos os dias, em todos os lugares, em qualquer horário.

A lei pode não concordar, mas ninguém precisa me penetrar para eu ter certeza de que fui violada, agredida, atacada. Existem muitas formas de me causarem "constrangimento" pelo simples fato de eu ser mulher.

O sexo masculino jamais saberá como é, por exemplo, desde o início da adolescência, ter que desviar o caminho para não passar perto de um grupo de homens. Só para não ter que ouvir frases que nos tratam como objetos, alimentos, brinquedos - "avião, boneca, delícia, gostosa, peixão". Tudo, menos um ser humano. Pode parecer elogio, mas é assédio.

Alguns vão dizer que é "mimimi". Não adianta discutir. Os homens nunca saberão o que é ser alvo no ônibus, no metrô, no táxi, no Uber, numa festa, com bebida, sem bebida, com roupa, sem roupa, de dia, no escuro, no trabalho, na rua, em casa.

Ser mulher é passar a vida na mira de algum homem por aí que acha ter no meio das pernas uma licença para nos dominar quando quiser, mesmo sem nossa autorização. Mas não, amigo, isso aí que você carrega não te faz melhor nem mais poderoso que eu. Meu corpo não é público, é meu e a posse dele é intransferível - não tem preço, não tem desculpa, não tem procuração.

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