OPINIÃO

Como uma revista está conseguindo tirar pessoas da rua e difundir a cultura ao mesmo tempo

01/04/2016 14:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

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(Foto: Andre Borges/Agência Brasília)

Esses dias eu jantava com uma amiga perto de casa, aqui em Brasília, e vivi um momento curioso. Um homem de roupas sujas, aparentemente embriagado e corpo enfraquecido, nos abordou para pedir algum dinheiro.

Passou pela nossa mesa já sem esperança - minutos antes ele havia sido quase escorraçado por funcionários da lanchonete, e todos os olhares o ignoravam. Quando nós simplesmente respondemos o seu boa-noite, ele abriu um sorriso e sentou-se no chão, iniciando uma conversa.

Ele contou que as pessoas nunca davam-lhe atenção e que estava ali pedindo mesmo, fazer o quê? Tinha um olhar penetrante, expressivo. Parecia ter mais fome de humanidade que de comida.

Nós não tínhamos dinheiro, estávamos só com as chaves de casa e um cartão. Ele desabafou mais um pouco com palavras quase incompreensíveis, agradeceu e seguiu seu caminho de andarilho das ruas, cabisbaixo.

No mesmo segundo apareceu outro rapaz. Roupas limpas, crachá pendurado no pescoço, carregando uma mochila e umas revistas coloridas. Pediu licença educadamente, sorriu e falou sobre o projeto que o levara até ali.

Ele vendia uma revista chamada Traços, lançada há alguns meses em Brasília com a proposta de mudar a realidade de pessoas que moram nas ruas, ou pessoas em situação de rua, como movimentos de direitos humanos preferem.

A ideia é simples: quem antes vivia pedindo esmola e até usando drogas passou a vender a revista e a ser chamado de "porta-voz da cultura". Vendem por R$ 5, ficam com R$ 4.

Só nas três primeiras edições, que são mensais, foram vendidos 20 mil exemplares que ajudaram 80 desses vendedores.

Muitos começaram a tratar a dependência química, pararam de pedir dinheiro e passaram a viver em uma casa de verdade, tudo com o apoio do projeto.

Foi já nessa fase que conhecemos o Givanildo. Sorridente, ele contou que até uns três meses antes vagava por aquela mesma quadra e agora já havia alugado "uma casinha boa no Itapoã (região administrativa na periferia de Brasília)" e não usava mais drogas. Até celular já tinha!

Naquele dia, estava ainda mais feliz porque era aniversário da filha e, pela primeira vez em muito tempo, a ex-mulher deixara que ele a encontrasse. Era dia de festa, disse.

O sorriso do Givanildo quase me arrancou umas lágrimas. Ele era o retrato de uma solução criada por alguém que não se conformou em dar esmolas e deixar o flanelinha vigiar o carro por uns trocados.

Alguém que uniu responsabilidade social, valorização cultural e qualidade de informação.

Sim, porque, como se não bastasse, a Traços ainda tem a cultura como tema e é linda. A revista é editada com cuidado, em cores vivas, textos completos e minuciosos, fotografias expressivas e de incrível qualidade artística e capas intrigantes.

Além, é claro, do encantamento pela revista, o papo com o Givanildo foi tão bom que trocamos contatos e compramos todas as edições - sim, ele é um bom vendedor - em troca do lanche, que podia ser pago com cartão.

Ele saiu de lá ainda mais sorridente, com a comida embrulhada para a festa com a filha, e me deixou pensativa.

Pensei no outro homem que nos abordou, em como deve ser difícil para ele mendigar não o dinheiro, mas a atenção e o olhar de alguém.

Pensei em como o Givanildo deve ter se sentido ao conversar com as pessoas para vender cultura e não mais pedir dinheiro. Pensei em como eu deveria de fato reagir diante de alguém que está na situação de rua.

Pensei por que a gente se acha alguma coisa por pagar um lanche para alguém mesmo que isso represente menos que uma gota d'água num oceano de problemas do mundo.

Pensei se eu me emocionar, dar dinheiro e uns minutos de atenção servem para alguma coisa de fato. Pensei que eu deveria agir e inovar mais, como fizeram os criadores da Traços, no lugar de só pensar.

Naquela noite de festa, fui eu que ganhei alguma coisa do Givanildo: a certeza de que, sim, o mundo tem jeito, que ainda vale a pena acreditar no ser humano e que é preciso muito mais que pena para fazer alguma diferença na vida de alguém.

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