OPINIÃO

Aproveitando a deixa...

06/01/2016 13:37 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
ASSOCIATED PRESS
United Nations Secretary General Ban Ki-moon delivers his speech during the opening ceremony of the COP21, United Nations Climate Change Conference, in Le Bourget, outside Paris, Monday, Nov. 30, 2015. (AP Photo/Thibault Camus, Pool)

Em novembro de 2015, o representante permanente alterno do Brasil junto à ONU, Embaixador Carlos Duarte, fez discurso em Nova York defendendo, entre outros temas, a ideia de que o próximo Secretário-Geral da organização seja uma mulher--ou que, pelo menos, seja alguém comprometido com o empoderamento das mulheres.

Nada mais justo. O governo brasileiro, inclusive através dos esforços da missão brasileira junto à ONU, vem defendendo a causa da inclusividade de gênero nas relações internacionais, sobretudo no âmbito da principal instituição multilateral. O Embaixador Antonio de Aguiar Patriota, por exemplo, assumirá a presidência da Comissão sobre a Situação da Mulher na ONU e a delegação promove a campanha #ElesPorElas, movimento global que busca o engajamento masculino em favor dos direitos da mulher.

A escolha de uma mulher para encabeçar a ONU teria um peso simbólico importante, transmitindo a mensagem de que as mulheres também podem alcançar os mais altos postos da governança global. Ao mesmo tempo, contribuiria para o aprimoramento de uma organização que, embora encarregada de zelar pela paz, pelos direitos humanos e pelo desenvolvimento socioeconômico, perde eficácia ao negligenciar o papel da mulher dentro e fora da sua estrutura burocrática. Além disso, dado que o atual Secretário-Geral, Ban Ki-moon, vem encabeçando um esforço institucional de fortalecimento da área do gênero, seria condizente com a atual agenda da organização que a secretaria-geral refletisse a preocupação crescente com a questão.

Vale lembrar, no entanto, que o argumento sobre gênero se aplica não apenas aos principais mecanismos da governança global, mas também à própria arquitetura da política externa brasileira. A ONU, fundada em 1945, já teve oito Secretários-Geral, todos homens em seus 70 anos de existência. Se tomarmos a criação da Secretaria de Negócios Estrangeiros, em 1822, como data de fundação do que viria a ser o Ministério das Relações Exteriores, já se vão quase duzentos anos de existência. E, dentre os 126 diplomatas-chefe desde então, sequer uma mulher na chefia do ministério. Ou no posto de Secretário-Geral.

A cara do Itamaraty vem mudando, mesmo que lentamente. Políticas e iniciativas elevaram o número de mulheres--assim como de outras categorias pouco representadas--na carreira diplomática. O ministério também passou, e continua a passar, por mudanças qualitativas que ilustram os avanços das diplomatas brasileiras e seu impacto sobre a política externa. Mulheres já ocuparam alguns dos principais postos do Itamaraty, inclusive o de Representante Permanente junto à ONU, assim como várias das embaixadas e chefias de divisões com agendas mais densas. Assim, o argumento--citado com frequência--de que as opções para uma Chanceler seriam parcas, e de que potenciais candidatas seriam "verdes demais," não é mais válido.

A Delegação Brasileira junto à ONU às vezes parece representar o país que queremos, e não o país que vivemos. Há um lado positivo e outro, negativo nesse papel. Por um lado, a atuação da missão indica a existência de pensamento inovador e progressista em alguns lugares do governo, inclusive no que diz respeito às relações internacionais. Por outro lado, a atual lacuna entre os argumentos defendidos na ONU e a composição dos mais altos quadros do ministério deixa transparecer uma certa contradição. E essa contradição só será superada quando as instituições nacionais se tornarem adequadas às ideias reformistas que estão sendo promovidas junto às organizações multilaterais.

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