OPINIÃO

Bombardear o ISIS não é suficiente. Seis passos para alcançar uma solução diplomática para a Síria

19/11/2015 15:24 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02
Anadolu Agency via Getty Images
VIENNA, AUSTRIA - NOVEMBER 14: United States Secretary of State John Kerry (C), Foreign Minister of Russia Sergey Lavrov (R) and United Nations and Arab League Envoy to Syria Staffan de Mistura (L) are seen during the talks on Syria in Vienna, Austria on November 14, 2015. (Photo by Hasan Tosun/Anadolu Agency/Getty Images)

Encaremos os fatos - bombardeios e poderio militar não vão resolver o problema na Síria. A guerra civil no país é resultado da colisão dos ideais da Primavera Árabe e do regime totalitário do presidente Bashar Assad. Se apenas destruirmos o Estado Islâmico - com certeza o principal objetivo agora --, outros grupos terroristas vão aparecer no que vai continuar sendo um espaço sem governo. Precisamos de uma solução política coerente, que será construída idealmente por meio de diplomacia, não salas de guerra no Pentágono, na Otan e em Moscou. Para derrotar o ISIS e lidar com a complexa teia de desafios da Síria, precisamos tanto do poderio militar quanto da inteligência.

E a história pode ser um guia. Em 1815, depois das Guerras Napoleônicas, um grupo de hábeis diplomatas realizaou uma longa conferência na capital austríaca, Viena, para resolver as várias questões políticas, econômicas e territoriais enfrentadas pelo continente europeu. Henry Kissinger explorou de forma brilhante a condução e o impacto das reuniões em seu livro O Mundo Restaurado.

O Congresso de Viena juntou os pedaços da Europa e ofereceu uma estabilidade que durou (com certas rupturas no meio do século) até a Primeira Guerra Mundial. Dois dos principais diplomatas representavam adversários ferrenhos das guerras: o ministro Tayllerand, da França, e o príncipe Metternich, da Áustria. Junto com outros atores, eles conseguiram convencer as maiores potências europeias de que concessões eram necessárias para que se avançasse rumo ao século 19.

Se apenas destruirmos o Estado Islâmico - com certeza o principal objetivo agora --, outros grupos terroristas vão aparecer.

Na sexta e no sábado passados, em Viena, houve outra conversa contenciosa: a discussão sobre o futuro da Síria. O secretário de Estado americano, John Kerry, e seu par russo, Sergey Lavrov, lideraram as cerca de 20 delegações presentes. Eles anunciaram ter chegado a um acordo sobre um cronograma para eleições na Síria e sobre um pedido de cessar-fogo por parte da ONU.

Entretanto, não está claro que isso vá resolver o conflito. Eles ainda precisam concordar em relação aos pontos mais controversos - o que vai acontecer com Assad.

A destruição da Síria moderna tem raízes na criação do país: o Tratado Sykes-Picot de 1916, pós-Primeira Guerra, que essencialmente confinou um grande número de culturas, religiões, línguas e tribos disparatadas em fronteiras artificiais: sunitas, alauítas, cristãos, druzos; árabes, palestinos, curdos, turcomenos, gregos, armênios e outros foram forçados a viver no que é hoje a "Síria".

Com a Primavera Árabe e a tentativa de derrubar Assad, vieram centenas de milhares de mortos e desabrigados. A maioria foge não só da guerra civil, mas também dos horrores medievais do ISIS. O resultado é a onda de refugiados que se arriscam para chegar a uma Europa cética e nada disposta a lhes dar boas-vindas - talvez 3 milhões de refugiados terão chegado até o fim do ano que vem.

Precisamos de uma solução política coerente, que será construída idealmente por meio de diplomacia, não salas de guerra no Pentágono, na Otan e em Moscou.

Tudo isso, é claro, foi realçado pelos terríveis ataques em Paris, Beirute e na Península do Sinai. Todos os atentados foram reivindicados pelo ISIS, que opera livremente no espaço sem governo criado nas regiões central e leste da Síria. Em Paris, pelo menos 129 pessoas morreram e mais de 300 ficaram feridas (muitas em estado grave); o atentado a bomba contra o Hezbollah, em

Beirute, matou mais de 40; e a derrubada do avião russo matou mais de 200. Dado o que está em jogo - não só a população da Síria, mas também a ameaça global na forma do ISIS --, os negociadores que vão voltar a se reunir em Paris até o fim do ano terão um prato cheio. Eis o que eles deveriam fazer:

1. Começar com os Estados Unidos e a Rússia - e então trazer Irã e Arábia Saudita.

Há quase 20 países envolvidos nos diálogos e, com essa escala, o risco é que a conversa não avance. Estados Unidos e Rússia precisam chegar a um acordo geral aceitável para ambos e então buscar o comprometimento de iranianos e sauditas. Os outros vão acompanhar a decisão.

2. Manter em aberto uma divisão da Síria.

No longo prazo, se as eleições não resolverem o conflito e o único caminho para um acordo levar a uma divisão da Síria, os negociadores deveriam considerar seriamente essa possibilidade. Certamente há precedentes na Europa: depois da morte de Tito, a Iugoslávia - outro país fictício e artificial - se desintegrou. Mesmo depois da guerra da Bósnia e da resolução de várias questões regionais com os Acordos de Dayton, a Sérvia foi obrigada a abrir mão de Kosovo, hoje reconhecido por mais de cem países.

Uma Síria dividida poderia incluir um encrave alauíta centrado em Damasco e na costa; uma Síria central controlada por sunitas moderados (depois de derrotado o ISIS, o que não será trivial); e uma entidade curda no nordeste.

Elas poderiam ser parte de uma espécie de federação, mas tentar fazer um país desintegrado voltar a operar de forma integrada e funcional pode ser pedir demais.

3. Estar preparado para fazer concessões em relação a Assad.

Virtualmente todo mundo, com a exceção da Rússia e do Irã, quer se livrar do regime de Assad. Seu histórico de tortura, impunidade, uso de armas de destruição em massa (gás letal contra sua própria população) e bombardeios indiscriminados de civis é simplesmente condenável e altamente ilegal de acordo com as leis internacionais. Mas, sem a concordância da Rússia e do Irã, não há perspectiva realista de avanço.

No fim das contas, Assad numa dacha em Moscou, num apartamento de luxo em Teerã ou numa cela em Haia importa pouco em comparação com o enorme sofrimento de milhões de pessoas. Naturalmente, os Estados Unidos, a Turquia (e outros integrantes da Otan) e os países sunitas do Golfo Pérsico querem vê-lo julgado e condenado. Mas, para que se chegue a um acordo político e diplomático, esse objetivo vai ter de ser deixado de lado, pelo menos por enquanto.

4. Aproveitar as fundações estabelecidas no acordo nuclear iraniano.

A despeito das opiniões sobre o acordo nuclear com o Irã - e ainda é cedo demais para medir seu impacto de longo prazo --, vários dos negociadores- chave se conhecem e se respeitam: o americano Kerry, o russo Lavrov e o iraniano Zarif, por exemplo. A diplomacia - como vimos no Congresso de Viena, em 1815 - costuma ser construída (ou destruída) com base nas personalidades.

5. Usar técnicas diplomáticas das negociações dos Bálcãs.

O exemplo histórico mais recente do que a comunidade internacional está tentando fazer ocorreu nos Bálcãs, em meados da década de 1990, quando o mundo se reuniu - meio a contragosto - para dar fim à guerra da Bósnia. Os níveis de violência e desabrigados são semelhantes quando se levam em conta os tamanhos das populações. A ideia dos Acordos de Dayton e a metodologia para alcançar um pacto nos Bálcãs - incluindo diplomacia pessoal, conferências em lugares remotos, vai-vém diplomático e uso de especialistas militares de ambos os lados - seriam úteis para os negociadores do conflito sírio.

6. Separar a campanha para destruir o ISIS dos esforços políticos e diplomáticos para solucionar o conflito na Síria.

Isso acaba de ficar mais fácil, dada a nova percepção de uma ameaça global do ISIS depois dos atentados de Paris. A comunidade internacional vai se unir para atacar o ISIS; mas, simultaneamente, ela precisa negociar avanços diplomáticos e políticos.

Essas tarefas obviamente caminha juntas, mas uma exige poderio militar (a destruição do ISIS), e a outra, inteligência (solucionar a guerra civil na Síria).

Priorizando a resposta ao ISIS e, ao mesmo tempo, perseguindo vigorosamente uma solução diplomática, teremos a melhor chance de aliviar o sofrimento de milhões de sírios, ao mesmo tempo reduzindo os riscos na região e em todo o mundo. O novo Congresso de Viena tem muito trabalho pela frente.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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