OPINIÃO

Seca na África: Ou respondemos imediatamente ou assistiremos aos somalis morrerem de fome

Na seca de 2011 mais de 250 mil somalis perderam suas vidas. Desta vez, a comunidade internacional tem a chance de evitar que a história se repita.

03/04/2017 19:28 -03 | Atualizado 06/04/2017 18:55 -03

Ashley Hamer/ ActionAid
Por Sadia Abdi Alin*

Três anos consecutivos sem chuva trouxeram a fome para a Somália. Quem viaja pelo país um pouco além da capital da Somalilândia, Hargeisa, vê que a paisagem está repleta de carcaças de animais.

Ao entrar nas comunidades, você percebe a profundidade e a devastação da seca nas vidas das pessoas, e, particularmente, o impacto desta situação sobre mulheres e meninas.

Conheci uma mulher, viúva e mãe de cinco filhos, que perdeu todos os seus animais – ela tinha centenas deles. Depois de viajar por meses à procura de água, ela simplesmente não tinha energia. Estava há dias sem comer, quando foi encontrada pelas equipes de distribuição de ajuda humanitária.

Devemos lembrar que na seca de 2011 mais de 250 mil somalis perderam suas vidas. Mas, desta vez, a comunidade internacional tem a chance de evitar que essa história se repita.

Precisamos que os doadores internacionais intensifiquem os esforços de ajuda agora, para que possamos escalar e acelerar a resposta de emergência antes que seja tarde demais.

Centenas de milhares de animais já morreram e, com isso, as famílias perderam seus meios de subsistência. As pessoas estão realmente vivendo em desespero, e a janela de oportunidade para mudar esse quadro é pequena.

Ou respondemos imediatamente, ou assistiremos aos somalis morrerem.

Ashley Hamer/ ActionAid

Tradicionalmente, quando desastres como a seca acontecem, são os homens que assumem a distribuição da ajuda. Mas, na ActionAid, trabalhamos de forma diferente, com grupos de mulheres locais liderando a resposta.

Asseguramos que as mulheres ocupem cargos de liderança nos momentos de emergência e participem das distribuições de alimentos, pois elas ajudam a selecionar os beneficiários que estão em maior necessidade.

As mulheres conhecem as pessoas mais necessitadas e sabem como usar o alimento e como distribuí-lo. Portanto, asseguramo-nos de que elas estejam em posição de liderança, pois, do contrário, tendem a ser marginalizadas nos processos.

Estamos distribuindo alimentos, incluindo óleo, açúcar, farinha e arroz, além de água potável, em áreas onde as comunidades estão seriamente afetadas -- onde não há mais nada para comer e beber.

Estamos dando prioridade às mulheres, especialmente às gestantes e lactantes, às crianças e aos idosos, porque são os grupos mais atingidos.

Mas precisamos fazer mais, e precisamos fazer isso agora. Se não o fizermos, estaremos contando o custo em vidas.

Sadia Abdi Alin é diretora da organização internacional de combate à pobreza ActionAid na Somalilândia

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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