OPINIÃO

Nem Davos, nem Washington: Uma celebração das estratégias das mulheres no combate à desigualdade

18/01/2017 22:22 -02 | Atualizado 18/01/2017 22:22 -02

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Por Ojobo Atuluku*

Homens em ternos finos e escuros passeiam pelos restaurantes e salas de reuniões de um resort de esqui suíço de cinco estrelas ao longo desta semana, à medida que a reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos se desenrola.

Esse desfrute por parte da elite empresarial e política é viabilizado pela crise atual da desigualdade, que concentra o poder nas mãos de poucos em lugares como Davos e deixa o resto de nós virtualmente impotentes.

Do mesmo modo, as imagens da posse presidencial de Donald Trump, também esta semana, serão vistas por muitos como o ponto mais baixo desta mesma crise, que antecipa um 2017 sombrio.

Longe desses espaços de poder, o outro lado da moeda da desigualdade é vivenciado por multidões. Para as mulheres em comunidades empobrecidas de todo o mundo, a desigualdade chega das mais diversas e desafiadoras formas: pesam questões de gênero, sociais e econômicas. Isso sem falar nos desafios intrínsecos a cada país e sociedade. A boa notícia é que essas mulheres têm criado estratégias de enfrentamento e superação.

No estado nigeriano de Gombe, por exemplo, é proibido às mulheres possuir terra, e elas só podem cultivar nas pequenas partes separadas pelos homens, chefes das famílias. Quando se trata de vender os produtos que elas próprias cultivam, seus maridos muitas vezes lhes tomam o suado dinheiro para gastar em álcool.

Como reação, essas mulheres estão se opondo a essa injustiça e furtivamente passaram a esconder pequenas quantidades de dinheiro com suas mães ou outras mulheres em quem confiam.

Na região do Planalto Central do Haiti, uma mulher ficou tão farta dos homens ignorarem o seu trabalho de cozinhar, limpar e plantar, que ela começou sua própria organização.

Tendo iniciado com um grupo de 10 amigas, Jacqueline Féquière Morette agora lidera 50 mulheres em suas próprias trajetórias para recuperarem poder por meio da produção e venda de sua própria comida.

Elas aprendem novas técnicas agrícolas, economizam dinheiro em uma cooperativa e, quando se deparam com um obstáculo, unem suas vozes para fazer os homens no governo local sentarem e as ouvirem.

A organização de Jacqueline, Associação das Nações Unidas de Pouly, cresceu a ponto de não poder mais ser ignorada, e até mesmo os homens da localidade passaram a incentivar as mulheres a participarem, uma vez que os benefícios da partilha de poder ficaram claros.

mulheres

Jacqueline Féquière Morette

Já no Nepal, Nirmala Mahatara se salvou de uma vida de profunda pobreza fazendo campanha pelos direitos das mulheres rurais em todo o país, junto ao movimento nacional Mahila Adhikar Manch.

Inconformada com as leis que punem e abusam das mulheres, acusando-as de feitiçaria, vendendo-as em casamento, mal reparando as vítimas de estupro, sua organização ajudou a levar a questão aos olhos do poder dominado pelos homens, incentivando 3 mil mulheres a protestarem dormindo na rua em frente ao parlamento. Nirmala e sua organização agora têm voz nas conversas sobre a nova constituição do Nepal.

A resistência das mulheres no Nepal, no Haiti, na Nigéria e em muitos outros lugares é a nossa esperança, pois desmantelam as barreiras contra as desigualdades que surgem à sua frente. Mas o desafio é extremo.

Apenas uma em cada 10 chefes de Estado no mundo é mulher, e, como a ActionAid destacou em um relatório publicado em 2016, as mulheres acabam trabalhando 4 anos a mais do que os homens, em média, uma vez que precisam equilibrar a vida profissional com as tarefas domésticas.

Além disso, descobrimos que as mulheres nos países em desenvolvimento estão perdendo, coletivamente, intangíveis US$ 9 trilhões por ano por causa de salários desiguais e do menor acesso a empregos. Uma soma de dinheiro que parece tão absurda para a maioria das pessoas comuns como seria um convite para se juntar aos presidentes e bilionários em Davos.

Para que as chamas acesas por Jacqueline, Nirmala e as mulheres na Nigéria não se apaguem, o combustível precisa ser despejado de todos os lados.

Em menos de um mês de iniciado o ano que vai trazer algumas das maiores incertezas políticas mundiais da História, temos uma oportunidade impressionante de combater a desigualdade de gênero e reconstruir nossa sociedade.

Esta semana, a ActionAid e uma ampla gama de outras organizações globais e locais da sociedade civil estão se unindo como parte da Aliança de Luta contra a Desigualdade por uma Semana de Ação em muitos países ao redor do mundo.

Nossa esperança é que, por meio de ações públicas nos países, além de campanhas digitais de sensibilização da sociedade para o tema, possamos ajudar a conectar as mulheres que já estão liderando o caminho, para fortalecer ainda mais suas estratégias de enfrentamento e resistência, exigindo maior igualdade nas políticas e nas práticas em todo o mundo.

* Ojobo Atuluku é diretora da ActionAid na Nigéria

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