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Greve no Rio de Janeiro: A intimidação como maior risco da violência policial

Eu nunca tinha sentido medo em um protesto antes, embora já tenha acompanhado muitos em diversos países, inclusive no Brasil.

01/05/2017 16:17 -03 | Atualizado 01/05/2017 16:24 -03
Mario Tama via Getty Images
"A hora em que realmente senti mais medo foi quando passou um carro militar com dois policiais apontando uma enorme arma diretamente para um grupo de manifestantes"

*Texto escrito por Laura Sullivan

Eu nunca tinha sentido medo em um protesto antes, embora já tenha acompanhado muitos em diversos países, inclusive no Brasil. Geralmente, saio com a boa sensação que deriva da consciência de que estar ali é exercer um direito cidadão. Manifestações são eventos importantes para nos lembrar da causa comum. Mas na última sexta-feira (28) foi diferente.

Eu estava no Centro do Rio de Janeiro, em um dia de greve geral que tinha como objetivo parar um conjunto de reformas propostas pelo governo Temer e que impactam as leis trabalhistas e previdenciárias. Nas últimas décadas, houve grandes avanços no Brasil em termos do aumento da renda das pessoas e da proteção social básica. Mas esse progresso não foi suficiente. Estruturalmente, as mudanças não chegaram e o Brasil ainda é um dos países mais desiguais do mundo, particularmente quando se trata de coisas muito cruciais, como quem controla a terra.

Embora o presidente Michel Temer tenha atualmente um índice de aprovação de 4%, ele está tentando aprovar um pacote de reformas que levará o Brasil a décadas de atraso em termos de proteção básica para os trabalhadores. A reforma da Previdência propõe 65 anos como idade mínima para a aposentadoria, num país onde, em certos estados, a expectativa de vida das pessoas é menor do que isso. Exige também que as pessoas paguem contribuições para o sistema por 49 anos, o que significa que, se você quiser se aposentar aos 65, precisa começar a trabalhar aos 16 anos (e nunca ter um período de desemprego). Além disso, tornará a idade de aposentadoria igual para homens e mulheres, ignorando totalmente a enorme quantidade de cuidados e trabalhos domésticos não remunerados e invisíveis que as mulheres continuam a fazer no Brasil.

A hora em que realmente senti mais medo foi quando passou um carro militar com dois policiais apontando uma enorme arma diretamente para um grupo de manifestantes

A reforma Trabalhista abrirá caminhos para a precarização das relações de trabalho. Chefes serão capazes de contratar funcionários para cumprir jornadas de trabalho de poucas horas, com salários muito menores e sem que o funcionário tenha acesso a qualquer tipo de segurança trabalhista. Os acordos coletivos passariam a valer sobre o que determina a lei. A ameaça é enorme, especialmente para os trabalhadores mais vulneráveis.

O ato realizado no fim da tarde da última sexta-feira, quando já ia terminando o dia de greve geral, foi marcado pela intimidação policial no Rio de Janeiro. A combinação de bombas de gás, carros do Choque da Polícia Militar, agentes vestidos iguais a Robocps e a tentativa de perseguir e encurralar os manifestantes em uma pequena área se traduziu na clara intenção do Estado de impedir que a manifestação ocorresse na Cinelândia. Estava claro que eles não permitiriam que qualquer grupo volumoso se reunisse. As pessoas foram dispersadas e perseguidas enquanto fugiam pelas ruas de bairros vizinhos ao Centro do Rio, como Glória e Catete.

No horário em que a manifestação estava agendada para acontecer na Cinelândia, o grupo com o qual eu estava tentou se aproximar do palco montado na praça, em frente às escadarias da Câmara de Vereadores. Mas não conseguimos. Naquele momento, já havíamos recebido notícias de que o ato que havia começado em outro ponto do Centro, em frente à Assembleia Legislativa (Alerj), na Praça XV, e que seguiria para a Cinelândia, para o protesto principal, havia sido interrompido pela repressão. Tentamos nos aproximar do ponto de encontro, mas tudo o que vimos foram pessoas recuando, esfregando os olhos que ardiam pelo gás e os sprays de pimenta, e fugindo das bombas de efeito moral que eram arremessadas. Ficou claro que a violência que havia começado na Alerj não daria trégua na Cinelândia.

Passamos então a tentar encontrar uma saída da confusão. Mas as tropas da polícia continuavam a perseguir as pessoas. As duas horas que se seguiram foram de medo e insegurança. Andamos por dois bairros em busca de proteção. O objetivo dos cidadãos brasileiros ao sair de casa naquele dia em direção à Cinelândia, de exercer o direito à manifestação, não foi alcançado em nenhum momento. A hora em que realmente senti mais medo foi quando passou um carro militar com dois policiais apontando uma enorme arma diretamente para um grupo de manifestantes que corriam pelas ruas do bairro da Glória. Para mim, ficou claro: estava tudo errado.

Um indicador de uma sociedade saudável é aquela em que as pessoas podem falar livremente e exercer seu direito de protestar. A resposta da Polícia Militar do Rio de Janeiro aos esforços dos civis em exercer esse direito na última sexta-feira foi chocante. O elemento mais perigoso disso tudo é que as cenas vistas na cidade gerem medo e impeçam os trabalhadores de tomarem as ruas por seus direitos no futuro. Um círculo vicioso antidemocrático está em risco de se instaurar no Brasil. E ainda assim parto com o pensamento de que os brasileiros lutaram contra a repressão antes e venceram. Vencerão desta vez também. O medo nunca prevalecerá.

*Laura Sullivan é diretora regional da ActionAid para a Europa e as Américas

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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