OPINIÃO

A epidemia de zika é sobre gênero, pobreza e desigualdade

08/03/2016 13:47 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
REUTERS/Ricardo Moraes

*Por Ramona Vijeyarasa

Sou uma mulher australiana grávida vivendo na Nicarágua, com todos os privilégios de ser uma estrangeira, incluindo a possibilidade de obter um bom atendimento médico e aconselhamento. Por motivos óbvios, a epidemia de zika agora é assunto diário em minha casa, e tem sido assustador ver a rapidez com que essa crise se desenvolveu desde o início deste ano.

Como qualquer crise global, há sempre diferentes perspectivas. Como podemos evitar pânico em um mundo que está diminuindo de tamanho, devido à velocidade e à facilidade de acesso à informação?

Como as crianças que vivem com microcefalia e seus pais se sentem ao ler sobre a cobertura global na imprensa e o medo? Por que uma doença existente na África desde a década de 1950 só recebeu atenção mundial quando atingiu as Américas?

Para mim, uma ativista pelos direitos das mulheres, a questão do vírus é indiscutivelmente sobre gênero, pobreza e desigualdade. E essa reflexão se faz urgente e pertinente neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

São mulheres em idade reprodutiva que estão sendo vigiadas nesta crise. O que acontecerá aos fetos que nascerem com microcefalia?

Será o sistema público capaz de apoiar suas mães? São elas que terão, inevitavelmente, a maior responsabilidade por seus cuidados, como é a realidade do mundo em que vivemos.

Quando foi recentemente sugerido que o zika pode ser transmitido não somente pelos mosquitos, mas também sexualmente, uma série de questões em torno de sexo, sexualidade e as escolhas que nós fazemos - ou deveríamos fazer - passou a ocupar o centro do debate.

Vou tomar a Nicarágua como exemplo. O país tem o maior número de adolescentes grávidas em toda a América Latina.

Com o Fundo de População das Nações Unidas relatando que 109 em cada mil jovens entre 15 e 19 anos darão a luz, o planejamento familiar mostra-se um primeiro passo essencial para que a Nicarágua tire as mulheres da pobreza.

Mas a falha do governo em combater, mesmo que remotamente, as barreiras que homens e mulheres enfrentam para o acesso a serviços de planejamento familiar, em fornecer satisfatoriamente informações de base científica e em desafiar as desiguais relações de poder e violência que existem em muitos relacionamentos íntimos no país, é totalmente inaceitável.

No Brasil, medidas estão obviamente sendo tomadas para responder ao zika. Mas o País também precisa fazer o debate sobre planejamento familiar e direitos reprodutivos, além de prestar atenção em falhas históricas, como a infraestrutura de saneamento e coleta de lixo, que criaram as condições propícias para essa epidemia.

Na Nicarágua, apesar de esta ser uma estação seca, o Ministério da Saúde está dimensionando esforços para fumigar casas e espaços públicos. Organizações da sociedade civil estão desempenhando papéis significativos.

Mas é trágico que se precise de uma doença como o zika para chamar atenção para o debate sobre o acesso a informações e serviços de planejamento familiar nesta região do planeta.

Uma coisa é alertar que as pessoas evitem viagens desnecessárias. Outra é dizer a uma mulher para atrasar sua gravidez, como tem ocorrido em Colômbia, Equador, El Salvador e Jamaica.

E uma coisa mais é certa: a decisão sobre o direito das mulheres está sendo colocada, mais uma vez, nas mãos de outras pessoas.

*Ramona Vijeyarasa (PhD) é uma advogada de direitos humanos, que lidera o trabalho de direito de mulheres da ActionAid em todo o mundo. Ela é autora do livro Sex, Slavery and the Trafficked Woman: Myths and Misconceptions about Trafficking and its Victim. Ramona trabalhou anteriormente na Organização Internacional pela Migração no Vietnã e na Ucrânia, no combate ao tráfico de mulheres e meninas, e advogou por direitos reprodutivos e justiça de gênero no Centro de Direitos Reprodutivos e no Centro Internacional pela Justiça Transicional, ambos baseados em Nova York.

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