OPINIÃO

É preciso (re)descobrir o centro de São Paulo

São iniciativas que fazem parte da economia criativa e refletem a efervescência cultural provocada pelas pessoas.

19/10/2017 12:18 -02 | Atualizado 19/10/2017 12:53 -02
Divulgação/Prefeitura de São Paulo
Ainda tem muita gente que acredita que o centro é todo degradado, só tem prédios detonados e ruas perigosas. Não é bem assim.

Por Clayton Melo e Denize Bacoccina*

Você já percebeu quanta coisa nova e interessante está surgindo no centro de São Paulo? Não? Então vamos lá: Sesc na rua 24 de Maio, Casa do Baixo Augusta, um novo espaço de cultura no Arouche e, em breve, um centro cultural do Santander no antigo Banespão, que estava fechado havia alguns anos. No início de 2018 também terá o Bar dos Arcos, no Theatro Municipal. E não é só isso.

Também tem o Mirante 9 de Julho, inaugurado no ano passado, e a transformação de ícones da cidade, como a Galeria do Rock, hoje renovada e bombando, e a Galeria Metrópole, com bares descolados, ateliês, escritórios de arquitetura e lojinhas de moda.

Para completar, em breve começa a funcionar um centro de empreendedorismo, tecnologia e economia criativa do Sebrae no Palácio Campos Elíseos, prédio histórico que um dia foi sede do governo do Estado

O que tudo isso tem em comum? Além de estarem no centrão, são iniciativas que fazem parte da economia criativa. São empreendimentos que refletem a efervescência cultural que a região vive já há alguns anos e que é provocada pelas pessoas.

Pessoas que transformam

O descaso do poder público deixou a decadência tomar conta da região a partir dos anos 1970, com a especulação imobiliária mudando o eixo da cidade primeiro para a região da Avenida Paulista e depois para a Berrini.

Da década passada para cá, o centro começou gradativamente a ser ocupado por um público jovem e antenado com novos valores, como vida sustentável, liberdade de gênero, ocupação do espaço público e ativismo urbano. São pessoas que preferem a bicicleta e o transporte público aos carros. É uma galera que gosta de arte, gastronomia, tecnologia, moda e quer uma cidade mais humana. Não quer viver em bolhas e muito menos ficar trancafiada atrás de grades de condomínios.

Esse movimento ainda não foi percebido pelo conjunto da cidade. Ainda tem muita gente que acredita que o centro é todo degradado, só tem prédios detonados e ruas perigosas. Não é bem assim. Claro, ainda há muitos – muitos! – problemas na região, como a questão da chamada Cracolândia, algo que deveria fazer qualquer governo sério morrer de vergonha. Mas a região central é mais do que isso.

A transformação só vai ser completa quando toda a cidade mudar sua relação com o centro e enxergá-lo não como um incômodo, um lugar do medo e no qual não se reconhece. Em vez disso, devemos valorizar seu papel estratégico na construção de uma cidade moderna e acolhedora.

A transformação passa também por reconhecer o que há de bom, o que pode criar uma espiral positiva com efeitos para toda a sociedade. Quantos brasileiros, quando vão para o exterior, especialmente para a Europa, adoram andar a pé pelos centros históricos.

E não me venham falar que não existem batedores de carteiras – ou de celular – nesses lugares. A grande diferença é que, nessas ocasiões, o prazer da ocupação do espaço público e da descoberta do novo supera o medo.

Por isso, a conversa não deveria ser pautada pela tal "revitalização", essa palavra higienista e que não condiz com a realidade. Não falta vida no centro de São Paulo. O que incomoda muita gente talvez seja o excesso de vida. Vida diversa. Ou seja, ricos e pobres, miseráveis até, moradores de rua.

Na maioria das vezes, gente que não ameaça ou incomoda ninguém, a não ser a consciência pela lembrança de que vivemos num país desigual, em grave crise econômica, com 13 milhões de desempregados e onde muitos, quando perdem o emprego, perdem também a casa e a família. Mas vida tem de sobra.

Novos ares

O que está acontecendo no centro é uma mudança no perfil, com a cultura e a inovação ganhando espaço e servindo como motores da mudança. É preciso lembrar que São Paulo, apesar dos seus 500 e poucos anos de fundação, ainda é uma metrópole jovem, de pouco mais de um século. Isso porque, até o século 19, tudo o que havia era praticamente a região da Sé, o lado de lá do Vale do Anhangabaú.

Esse processo todo vem renovando, por exemplo, bairros como Vila Buarque e Santa Cecília, hoje os principais points de gastronomia criativa de São Paulo, com restaurantes de boa comida aliada a uma atmosfera acolhedora, em nada parecida com os ambientes padronizados da Vila Olímpia.

Outro lugar que, até há alguns anos, estava na lista dos não frequentáveis já está ficando descolado: o Largo do Arouche. Além do Barouche, que abriu no ano passado e atrai a galera hipster, o local agora tem um espaço cultural em um casarão de 120 anos, o No Arouche, além de novos restaurantes na Avenida Vieira de Carvalho, uma das mais charmosas da cidade, que vem se recuperando. Isso sem falar nos três bares gays que lotam a rua nas noites de sábado.

E o que dizer da Praça Roosevelt? Lá está o ponto alto dessa nova forma de pensar, que entende a rua como espaço público mesmo, de todos, e exercita a diversidade que compõe uma metrópole como São Paulo – um lugar onde a questão de gênero não é uma questão, e encontra convivência harmoniosa. É preciso ressignificar o centro de São Paulo no imaginário do paulistano como um local do encontro e, assim, abrir espaço para uma cidade mais aberta, inovadora e sustentável.

*Clayton Melo e Denize Bacoccina são criadores do projeto A Vida no Centro.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

Fotos históricas de São Paulo