OPINIÃO

Heroína foi a pior coisa que aconteceu comigo, e eu nunca cheguei perto dela

01/02/2016 18:00 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

cook

Cook (acima) é de Nova Jersey

A heroína foi a pior coisa que me aconteceu.

A heroína mantém refém a pessoa que eu era. Eu ria mais. Eu era mais leve e divertida. Sorria mais, e não só nas fotos.

Tento lembrar em que momento meu mundo passou a girar em torno dela.

Ela é mencionada em quase todas minhas conversas, mesmo que a palavra não seja pronunciada: em olhares, suspiros, expressões de pena.

Desde que a heroína entrou na minha vida, abandonei a maioria dos meus hobbies.

Eu escrevia sobre outros assuntos. Lia sobre outros assuntos.

Sou uma farsa. Minha normalidade é uma mentira. A heroína me força a guardar segredos das pessoas mais importantes da minha vida. Não posso contar para a minha família o quanto estou sofrendo porque imagino que eles também sintam muita dor. Não quero piorar as coisas.

A heroína arruinou algumas das melhores partes da minha vida, como acontece com tantas famílias que a encontram pelo caminho. Brigamos, sentimos raiva. Dissemos coisas que não podemos retirar.

A heroína é o penetra que estragou festas, aniversários e casamentos. A heroína é o elefante de toda sala em que estou. Se estou lá, a heroína também está. Ela está sempre presente.

A heroína me tirou o sono. As noites tranquilas ficaram no passado. A heroína me assombra mesmo quando estou de olhos fechados. Vou dormir pensando nela; acordo pensando nela.

Minha rotina diária:

Acordo e penso em heroína.

Vou trabalhar e penso em heroína.

Falo no telefone e menciono heroína.

Quando as coisas estão muito ruins, passo dias enjoada, sem força e sem motivação para sair da cama.

Envelheci. Me vejo no espelho, sei que pareço cansada, esquelética e desarrumada.

A heroína acabou com minha paz de espírito. Hoje vivo preocupada. Perdi minha inocência há muito tempo - admito que sinto saudade da ignorância, de não saber nada sobre essa droga.

Quanto mais entro nesse mundo, mais tenho medo. Sei que essa droga mata, mas não consigo impedir seu apelo. Está fora do meu alcance.

A heroína roubou tanto da minha vida. Tempo que jamais vou recuperar. Pessoas que nunca mais vou encontrar. Lembranças que nunca tive a chance de criar.

E a maior loucura? Nunca cheguei perto da droga.

Nunca usei heroína, mas amo uma pessoa que usava. O vício tem muitos efeitos colaterais. Quem sofre mais com os estilhaços é a família.

cook e a prima

Cook perdeu sua prima Jessica (à direita) por causa de uma overdose de heroína em 2006.

O vício é uma "doença familiar". Esse pesadelo virou minha realidade. Nunca pedi, e é isso que me deixa com tanta raiva. Acordo, e minha vida inteira mudou.

Ela pode nunca mais ser a mesma. Apesar de não ser viciada, sofro igual, mas de maneira diferente, porque a família é testemunha da perda de discernimento, das decisões erradas, da dependência química.

Sim, a heroína roubou muita coisa de mim - mas não minha voz. Ela não vai roubar minha voz.

Minha esperança é usar minha voz para conscientizar as pessoas sobre o vício e seu efeito direto não só no viciado, mas também na família.

Comecei a compartilhar minha experiência não com o objetivo de encontrar respostas, mas sim de ter paz de espírito, ainda que momentânea. Foi assustador no começo - mas acredito que a história de uma pessoa pode mudar a de outra e dar forças para que o indivíduo ou sua família atravessem períodos difíceis.

Acho que foi Bob Marley quem disse: "Você não sabe como é forte até o momento em que ser forte é sua única opção".

E você nunca sabe quem precisa ouvir exatamente o que você está dizendo.

Força, famílias. Nunca percam a esperança.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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