OPINIÃO

O triste fim da geração de ouro do MMA brasileiro

20/08/2015 20:45 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Josh Hedges/Zuffa LLC via Getty Images
LAS VEGAS, NV - JANUARY 30: Former UFC middleweight champion Anderson Silva steps on the scale during the UFC 183 weigh-in at the MGM Grand Garden Arena on January 30, 2015 in Las Vegas, Nevada. (Photo by Josh Hedges/Zuffa LLC/Zuffa LLC via Getty Images)

Por Diego Ribas, da AgFight

Houve um tempo, não muito distante, em que o nível do MMA brasileiro era disparado o melhor do mundo e com larga vantagem sobre os demais. Fosse no UFC ou principalmente no extinto evento japonês Pride, nomes como Rodrigo 'Minotauro', Wanderlei Silva e Anderson Silva eram show garantido e qualquer resultado que não fosse a vitória era tão raro que tal possibilidade sequer era cogitada.

Mas em processo escancarado nos últimos dez anos, nosso plantel de competidores não se renovou em número e qualidade suficientes para fazer frente ao poder de investimento dos EUA e, em processo natural, passamos a ocupar a vice-liderança do esporte. Ao mesmo tempo, nossa geração de ouro, forjada mais no talento ímpar de seus expoentes do que em um cenário construído à base de infraestrutura e investimento, envelheceu. E, basicamente formada por quarentões, cada um à sua maneira agora ensaia o adeus ao octógono. E o panorama não é dos mais animadores.

Mais famoso dentre os citados, Anderson Silva vive um inferno astral que, após seis anos de superioridade inigualável no MMA, manchou não apenas seu legado como atleta, mas também sua imagem com fãs e, possivelmente, com empresas interessadas em atrelar sua marca ao ex-campeão peso médio (84 kg) do UFC.

Sem vencer uma disputa desde outubro de 2012, o Spider agora soma três revezes - sendo o último uma "derrota moral" quando teve um triunfo anulado judicialmente. No primeiro deles, um descuido técnico aliado à soberba diante do então pouco conhecido Chris Weidman lhe custou o cinturão, o deixou semi-apagado no octógono e gerou avalanche de críticas dos torcedores, ainda no ginásio MGM Grand Arena, em Las Vegas.

Na revanche, meses depois, um chute então corriqueiro o pegou de surpresa e a fratura na perna esquerda, imagem repetida à exaustão e facilmente encontrável na internet, dava como claro o início de um roteiro de despedida do maior lutador de todos os tempos. Lesionado de forma inédita na carreira, Anderson não precisaria provar mais nada e, com a conta bancária mais do que no azul, poderia se dar ao luxo de fazer apenas mais uma apresentação (não necessariamente contra um lutador renomado) para sair por cima.

E, talvez com isso em mente, Nick Diaz, lutador da categoria de baixo, menor e mais leve, embora super popular (o que garantiu boa venda de pacotes de transmissão na TV americana), foi convocado para a missão em janeiro deste ano. Tudo perfeito, inclusive com a vitória por pontos, não fosse o flagra em dois exames antidoping por parte do brasileiro, que optou por peitar os laboratórios e declarar inocência absoluta no caso quando, após três adiamentos, foi condenado à pena máxima pela Comissão Atlética de Nevada.

Vergonha que não poderia ser maior, graças ao papelão que sua defesa (composta por um advogado e dois médicos) apresentou na corte, onde erros, contradições e falta de argumentação básica, como a lista com o nome dos suplementos usados pelo competidor, terminaram por garantir não apenas a punição, mas a postura do atleta naquela dia. De cabeça baixa, Anderson se negou a falar com a imprensa, entrou no elevador e de lá para o seu carro. Desde então, ele nunca mais tocou no assunto.

Com ares tragicômicos, Wanderlei, que assim como Anderson carrega o sobrenome Silva e o passado de treinamentos na academia curitibana Chute Boxe, fez de seu legado um alvo para questionamentos ao fugir pelas portas dos fundos de sua academia nos EUA. O motivo? Um exame antidoping surpresa o pegaria desprevenido, e a solução encontrada, e posteriormente admitida pelo atleta, foi correr.

Confissão que nem de longe amenizou sua situação com a Justiça Americana. Condenado, o brasileiro foi banido do esporte nos EUA, entrou com recurso e segue no aguardo da definição de seu status, que ainda pode complicar. Desde que foi afastado do MMA, o 'Cachorro Louco' optou por travar guerra pública com o UFC e, após acusar o evento de promover lutas com resultados combinados, foi processado pelos ex-patrões (que ainda possuem contrato com o curitibano, fato o que o impossibilita de se apresentar em outro país).

Por fim, o peso-pesado Rodrigo 'Minotauro', exemplo de superação ao longo da carreira, parece sempre disposto a escrever o último capítulo de suas reviravoltas - que começaram com o atropelamento, quando ainda era uma criança, e que o deixou hospitalizado por um ano. Já como profissional, o ex-campeão do Pride superou limitações físicas, ignorou as mais de dez cirurgias e seguiu encarando rivais mais pesados e fortes do que ele.

Mas, aos 39 anos e com 46 lutas como profissional, período regado a contusões, o baiano já não é mais o mesmo e, embora sua aposentadoria seja cogitada por Dana White, presidente do UFC, pelos últimos quatro anos, Minotauro afastou a possibilidade para agora. Talvez ele queira encerrar a carreira com uma vitória. Nada mais justo, mas apenas se essa for a sua motivação. Com limitações de flexibilidade (ainda fruto do acidente na infância) e de mobilidade (má calcificação em uma de suas vértebras na coluna), o ex-campeão não acompanha o ritmo da nova geração, mas teima em se colocar à mercê dos rivais, tanto que perdeu quatro das cinco últimas lutas que disputou, naquela que é, de longe, a pior fase de sua vida como profissional.

Por mais triste que possa parecer, é hora de conter os danos, sacudir a poeira e levantar a cabeça. Dar adeus ao esporte que os consagrou e deixar o octógono da melhor maneira possível, e da forma mais honrada. O legado foi feito e não merece ser manchado e contestado. Chegou a hora de passar o bastão. O MMA agradece!

*texto originalmente publicado em AgFight


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