OPINIÃO

Em nova bola fora, Zé Aldo prefere culpar imprensa ao assumir erro

28/08/2015 21:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:33 -02
Zuffa LLC via Getty Images
LONDON, ENGLAND - MARCH 30: UFC Featherweight Champion Jose Aldo looks on during the UFC 189 World Championship Press Tour on March 30, 2015 in London, England. (Photo by Tom Dulat/Zuffa LLC via Getty Images)

Mais uma vez, o abismo de comunicação proporcionado pela falta de domínio dos idiomas envolvidos serviu de muleta para as derrapadas de José Aldo. Como o lutador não fala inglês e a alta cúpula do UFC passa longe de dominar o nosso português, sempre que uma faísca surge entre as partes a culpa recai em quem traduz as declarações. E, no último capítulo desta novela sem graça e sem sentido, o atleta brasileiro beirou ao ridículo.

Digo isso porque Aldo declarou nesta semana, em alto e bom som, que a culpa da polêmica na qual foi envolvido - sobre as declarações sobre o fim da reposição intravenosa no MMA - é da má interpretação dos jornalistas brasileiros e dá má tradução dos repórteres que escreveram em inglês. No entanto, não é preciso me alongar muito no assunto para questionar tal postura.

Um mês atrás, Aldo liderou uma coletiva de imprensa na cidade do Rio de Janeiro quando, como de costume, foi questionado sobre sua relação sempre turbulenta com o maior evento de lutas do mundo. Seja rebatendo as cutucadas de Dana White, pedindo aumento de salário, criticando o excesso de viagens para promoção de lutas ou, como no caso em questão, garantindo que não iria seguir as novas normas impostas pelos órgãos que regem o MMA nos EUA, Aldo (quando está disposto a dar entrevistas) sai da zona de conforto e foge do discurso padronizado de um lutador. Mas, uma vez adotada tal postura, que a mantenha e siga com ela.

Quando suas frases de efeito chegaram aos EUA, não apenas pareceram incomodar os gestores do torneio, mas também fizeram eco nos responsáveis pelo novo programa de testes antidoping que, em entrevista ao Combate.com, garantiram ter como detectar quando o uso de soro intravenoso for feito pelo competidor, assim como garantiram o banimento do método.

Desinformado, com excesso de ironia, alheio às novas práticas antidopagem ou apenas disposto a bater de frente com o UFC mais uma vez, o fato é que Aldo escolheu a pior - e mais fácil - tática após ser confrontado: culpou alguém. Bola fora do campeão, que também afirmou que na parte em que pegou pesado estava apenas brincando, dando a entender que todos os presentes deveriam inferir tal fato (apesar de ter sido dito durante coletiva de imprensa em pronunciamento oficial aos principais veículos de notícia do país) e que isso fosse levado em consideração a hora de serem redigidas as notícias. Em sua lógica própria, Aldo se esqueceu do simples fato de que os repórteres são jornalistas, e não seus assessores de imprensa.

Se estiver em dúvida, confira a seguir a entrevista que ele deu com o auxílio do treinador Dedé Pederneiras nesta semana ao site MMA Junkie e, na sequência, sua resposta dada na fatídica coletiva no Rio de Janeiro (ambos contam com vídeos na internet):

Depoimento dado em entrevista ao site MMA Junkie (26/08/2015): "Às vezes eu digo algo aos jornalistas no Brasil e no momento que eles traduzem essas entrevistas, está quase totalmente errado. Mas eu entendo. Eu estava apenas brincando na coletiva de imprensa, estava rindo o tempo inteiro sobre isso. Todo mundo sabe que eu vou seguir as regras. O presidente do UFC no Brasil, Giovani Decker, estava lá e viu que eu estava apenas brincando, ele sabe disso. Nem faço uso do soro na veia em todas as lutas. Às vezes eu uso, às vezes não".

Depoimento dado em coletiva no Rio de Janeiro (16/07/2015): "Para mim, lógico que prejudica. Não só eu, mas como todos os atletas, principalmente aqueles que perdem muito peso. Mas isso e um estudo, não sei se decretaram ainda ou não. Ele vieram aqui e a gente demonstrou várias técnicas para eles. Qualquer coisa, meu irmão, fala que está mal, vai para o hospital e os caras vão tacar soro de qualquer jeito. Não tem como eles falarem: "Depois você volta". Mas isso eu nem sei, quando eles vieram quem estava aqui mais era o Dedé e os meninos, eu estava por fora. Falando como atleta, é muito difícil não colocar intravenoso, pelo fato de ser a manira mais fácil de recuperar. Eles vieram falando falando que via oral era melhor e não sei mais o que, não sei de onde tiraram isso. Qualquer pessoa debilitada quando vai ao hospital, a primeira coisa que fazem é colocar [soro] na veia. Vou continuar colocando na veia. Pouco me importa, falo que vou comer ali e vazo. Eles não vão me tirar da luta. Não estou nem aí para eles. Podem falar o que for, isso é o melhor, é cientificamente comprovado. Não tem como... Só se colocarem um segurança 24 horas comigo. Não estou nem aí, é isso que vai acontecer mesmo. Vou colocar na veia, ou eu ou alguém. Vou no quarto de cima do amigo, vou na casa de alguém. Não estou nem aí para eles. Eles não vão me tirar da luta, não tem porque tirar. Não é uma coisa má, não é doping. Como falam que vão fazer exame para pegar um soro na urina? Só se os caras são ninjas".

UFC 2015