OPINIÃO

Conor McGregor: A arte de apostar em grande risco

12/01/2016 14:29 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Steve Marcus via Getty Images
LAS VEGAS, NV - DECEMBER 12: Conor McGregor is shown in the Octagon before his featherweight title fight against Jose Aldo during UFC 194 at MGM Grand Garden Arena on December 12, 2015 in Las Vegas, Nevada. (Photo by Steve Marcus/Getty Images)

Arrogância, ironia, destempero e, claro, muita coragem. Esses são os principais ingredientes que um bom 'trash talker' precisa carregar para, como o nome em inglês sugere, falar bobagens a ponto de chamar a atenção do grande público para uma determinada modalidade esportiva. E, se 2014 foi o ano do surgimento deste fenômeno midiático irlandês e 2015 o de sua consagração, a temporada que se inicia pode ser a de definição de seu legado. Muito cedo para dizer isso? Sem dúvida, claro, mas o nome Conor McGregor merece mais do que nunca todos os olhares do MMA.

Sem medo de arriscar, o peso-pena (66 kg) se colocou à disposição para encarar todos os riscos que lhe aparecessem dentro e principalmente fora do octógono, e, no lugar certo e na hora exata, se fez valer mais do que deveria, ou poderia. Especulou como poucos, mas bancou todos os resultados, mesmo que sempre em uma espécie de all in - termo do poker que remete a uma aposta em que todas as fichas são colocadas em jogo. E com essa eloquência em mãos, Conor despertou interesse não apenas dos fãs deste esporte, mas também dos que mal entendem do esporte, o que lhe deu o controle de uma máquina de barganha nunca antes vista.

Com números de vendas de pay-per-view incríveis para a época atual (estou falando em dias que contam com Anderson Silva pego no doping, Jon Jones afastado do UFC, GSP aposentado e Brock Lesnar de volta à WWE), o irlandês é uma máquina de fazer dinheiro. Arrastando multidões de fãs para seus combates, garantindo exposição midiática com suas fanfarronices e se tornando o grande ícone do MMA na Europa (mercado que teima em abraçar de vez o esporte), Conor interessa e muita à Zuffa, empresa presidida por Dana White e que, indo direto ao ponto, é uma companhia privada. Ou seja, visa o lucro.

E com essas cartas na mesa, o campeão dos penas segue apostando alto, sempre em busca do pote maior. Nem que para isso o risco seja cada vez mais alto, como pôde ser visto em suas últimas apresentações. Tanto que os nocautes sobre Chad Mendes em julho e José Aldo em dezembro, que lhe garantiu os títulos interino e linear, colocaram o irlandês em uma posição difícil de se analisar. Enquanto se falava em uma revanche imediata contra o brasileiro, ex-dono do título, McGregor surpreendeu e se adiantou em pedir (ou garantir) pelo direito de fazer história.

"Vou ter dois cinturões, um em cada ombro. Quando eu subir e tomar o cinturão dos leves, ainda serei o campeão dos penas. Os cinturões ficarão ativos, porque eu sou ativo. Não vou abandonar nenhum deles", bradou na última coletiva de imprensa que participou nos EUA, e a qual ele liderou sozinho, sem a ajuda ou presença de nenhum membro do staff do UFC.

Pouca marra?

E, ao que tudo indica, o evento está disposto a lhe dar esta chance, que já foi negada a outros campeões. tudo em nome do apelo conquistado e inflacionado a toca de caixa. Caso o duelo contra o brasileiro Rafael dos Anjos se confirme para março, em duelo válido pelo título dos pesos-leves (70 kg), Conor terá rompido uma barreira significativa para o que ele chama de busca por seu legado. Mas, ao mesmo tempo, ele aumentará o sentimento de desconfiança e descontentamento por partes de lutadores que o enxergam com privilégios não merecidos na organização.

E como todo bom jogador de poker sabe, o risco tem que ser calculado e por vezes um passo menor tem que ser dado para que, mais adiante, um objetivo maior seja alcançado. Afinal, o lucro de todo all in vencido é o dobro do apostado. Mas em caso de perda, como o próprio nome sugere para o bem ou para o mal, tudo se vai.

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