MULHERES
14/02/2018 19:31 -02 | Atualizado 14/02/2018 19:31 -02

O que os terapeutas querem que saibamos sobre Aziz Ansari, ‘sexo ruim’ e #Eutambém

“Para as mulheres, espero que a lição aqui seja que o prazer é nosso direito de nascença”.

Illustration: Damon Dahlen/HuffPost Photos: Getty

Muito antes de as pessoas começarem a falar de "sexo ruim mas não criminoso" na esteira do movimento #Eutambém, os terapeutas já ouviam sobre isso no consultório: a psicóloga Marissa Nelson, de Washington, disse que suas pacientes muitas vezes contavam histórias envolvendo um sexo que para elas era estranho, quando não predatório.

"Muitas me disseram ter estado em situações sexuais que as faziam sentir incomodadas ou constrangidas, mas não diziam nada porque não queriam 'ferir os sentimentos dele'", recorda. "Nesse processo, elas 'estiraram' suas zonas de conforto mais do que gostariam."

Assim como Grace (nome fictício) – a fotógrafa de 23 anos que descreveu recentemente um encontro perturbador e uma posterior relação sexual com o ator Aziz Ansari –, as clientes de Marissa Nelson deram sinais verbais e não verbais de que seus parceiros não reconheceram ou simplesmente ignoraram.

"Sexualidade e namoro devem ser divertidos e excitantes. Mas quando a pessoa não se sente segura, ou [sente] que o outro não lhe dá ouvidos, muitas vezes sua reação é se retrair e parar de comunicar claramente suas necessidades", diz a psicóloga.

Ansari, que é descrito na matéria do site Babe.net como alguém que ignorou repetidamente o constrangimento da parceira – e que, no final, pediu que ela fizesse sexo oral nele –, disse que o encontro foi, "segundo todos os indícios, completamente consensual".

Os terapeutas afirmam que essa história abre caminho para outro ponto igualmente vital: o consentimento nos encontros sexuais (e nos relacionamentos) precisa ser entusiasmado, e o valor especial que damos ao orgasmo do homem também deve ser dado ao da mulher.

"Esse é realmente um ponto de inflexão no modo como homens e mulheres falam sobre sexo consentido e navegam pelas águas do poder, dos limites pessoais, do namoro e do sexo", diz Nelson.

Essa conversa começa com mulheres – e homens – sentindo-se à vontade para falar sobre o sexo centrado no homem, o que se tornou habitual em 2018. Como descreveu a repórter sênior do HuffPost Emma Gray, esses encontros, embora não sejam claramente abusos sexuais, são tão unilaterais e agressivos que você não pode deixar de se "sentir suja e um pouco violada" quando terminam.

É como se as mulheres tivessem uma empatia tóxica pela libido e desejos sexuais masculinos. Aline Zoldbrod, psicóloga e terapeuta sexual de Boston, Massachusetts

"Não é preciso que comportamentos se enquadrem na definição legal de agressão sexual ou estupro para serem errados, ofensivos ou violadores", escreveu Gray. "E, considerando que quase todas as mulheres com quem falei sobre a história envolvendo Aziz Ansari contaram um caso semelhante que aconteceu com elas, vale a pena refletir sobre por que isso ocorre."

Parte disso tem a ver com a noção cultural de que os homens estão sempre prontos para o sexo e são relativamente rápidos para atingir o clímax. A ejaculação de um homem é o desfecho da maioria das transas. Já as mulheres, com seus orgasmos muitas vezes fugidios, gozam depois – ou não gozam. Pesquisas mostram que essa discrepância no orgasmo é tristemente real: segundo as estatísticas, mulheres heterossexuais gozam menos que qualquer outro grupo, incluindo as lésbicas.

Isso não se restringe ao mundo dos solteiros ou do sexo casual, diz a psicóloga e terapeuta sexual Aline Zoldbrod, de Boston. "Priorizar o prazer masculino é um problema até mesmo nos relacionamentos estabelecidos", disse ZoldBrod ao HuffPost. "Descrevo isso como 'a tirania do pênis ereto': é difícil para as mulheres dizer 'não' a um homem com ereção, mesmo nos relacionamentos. Eles precisam aprender a dar prazer às mulheres primeiro, mas as mulheres têm essa dificuldade de contrariar seus parceiros."

Como diz Zoldbrod, é como se as mulheres tivessem uma "empatia tóxica pela libido e pelos desejos sexuais do homem".

E, com frequência, o risco para as mulheres vai além de ofender o ego de um homem ao dizerem "não, não me sinto à vontade com isso" ou – como Grace supostamente pediu para Ansari no primeiro encontro – "da próxima vez".

"A grande maioria desses encontros modernos acontece entre dois estranhos que se acham sexualmente atraentes", diz Zoldbrod. "Na cultura do sexo casual, muitas vezes você ainda não sabe quem o sujeito é. Não tem motivo para confiar nele."

O plano pode ser se proteger e se manter em alerta máximo, mas é fácil ficar paralisada quando você se vê diante de alguém fisicamente maior e ansioso por ter um orgasmo.

O sexo superficial que resulta de tudo isso não é excitante nem satisfatório para nenhum dos dois, mas é especialmente pouco inspirador para as mulheres, diz a terapeuta sexual Sarah Watson, de Detroit.

"Converso bastante com indivíduos e casais sobre o sexo consensual focado no interesse masculino", diz ela. "Minhas clientes o descrevem como uma tarefa rotineira e desagradável. Na maior parte do tempo, elas simplesmente desejam que aquilo termine. Não têm prazer nem chegam ao orgasmo – caso esse seja seu objetivo."

O prazer para ambas as partes deveria ser a meta, e o consentimento entusiasmado precisa ser obrigatório. Esperemos que esses ideais se tornem quase universais em nossos quartos, diz Watson. (E se os homens de fato vinculam seu ego à capacidade de fazer as parceiras gozarem, como indica um estudo recente, então seria bom que eles melhorassem nesse sentido.)

"Realmente espero que isso ensine aos homens que o consentimento é necessário e deve ser obtido durante cada encontro", diz Watson. "Para as mulheres, espero que a lição aqui seja que o prazer é nosso direito de nascença e que o sexo não é uma questão apenas de um parceiro, a menos que isso seja negociado de antemão."

O consentimento é sempre um processo contínuo. Marissa Nelson, terapeuta de Washington D.C.

Marissa Nelson instrui suas clientes a usar as palavras durante o sexo e a reconhecer seu próprio poder. Nada é mais sexy do que ter um parceiro entusiasmado e que se expressa verbalmente, seja você homem ou mulher. Se esse não for o caso, é fundamental conversar com o companheiro para saber como ele(a) está se sentindo. E se isso for difícil, uma solução pode ser adotar o que a terapeuta chama de um estilo de comunicação "pare e peça".

"Com cada beijo e cada toque, saiba até onde você quer ir", diz a psicóloga. "Conheça também os limites de seu parceiro."

Quando um ato – sexual ou de outra natureza – começa a ser desagradável ou violador, não se cale.

"Diga à pessoa que você não se sente à vontade indo além disso. Ao mesmo tempo, peça o que faz você se sentir bem", explica. "O consentimento é sempre um processo contínuo."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.