POLÍTICA
10/02/2018 08:00 -02

Coronel Ustra, Lula e Pagu são temas de blocos de carnaval

Tribunal de Justiça de São Paulo barrou bloco que homenageava Carlos Alberto Brilhante Ustra, primeiro militar reconhecido como torturador na ditadura.

Montagem / Reprodução
Blocos de carnaval saldam ex-presidente, ativista feminista e vão parar na Justiça por homenagear a ditadura.

Um bloquinho para compartilhar saudades do ex (presidente, no caso). Um salve a uma ativista feminista. Uma homenagem ao primeiro militar reconhecido como torturador na ditadura. Nos dias de carnaval, a política divide o espaço com o glitter e algumas polêmicas vão parar na Justiça.

Foi o caso do bloco Porão do Dops. Na última quinta-feira (8), o Tribunal de Justiça de São Paulo proibiu o uso de expressões, símbolos e fotografias que possam ser entendidos como "apologia ao crime de tortura", seja nas redes sociais ou em desfile público. O evento foi removido do Facebook.

Na descrição do evento, previsto para sábado (10), na cidade de São Paulo, os organizadores convidam "todos os brasileiros anticomunistas" para um "bloco de direita". E prometem cerveja, carne e marchinhas opressoras.

Em destaque, uma imagem de Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna), órgão de repressão da ditadura. O militar foi oficialmente reconhecido como torturador em 2008 e a decisão foi confirmada em 2012.

Médico na época e hoje vereador de São Paulo pelo PV, Gilberto Natalini relatou que foi torturado pelo próprio Ustra. Ele ficou surdo em em razão dos choques que sofreu. Natalini virou alvo dos militares por ser leitor do jornal da Molipo (Movimento de Libertação Popular).

A restrição foi decidida pelo desembargador José Rubens Queiroz Gomes, da 7ª Câmara de Direito Privado, em resposta a um recurso do Ministério Público. O magistrado destacou que a decisão tem natureza preventiva e não implica em censura prévia. A pena para descumprimento é de multa diária de R$ 50 mil. O Judiciário também questionou a Prefeitura de São Paulo sobre a inscrição do bloco para desfile.

Na interpretação do Ministério Público, o evento seria uma agressão a familiares de vítimas do regime militar. "Se houver incitação à violência ou apologia a crime, o pensamento não pode ser expressado, uma vez que viola direitos de terceiros e a própria lei criminal", argumentam os promotores no recurso.

Na semana anterior, a juíza Daniela Pazzeto Meneghine Conceição, da 39ª Vara Cível, reconheceu que o tema era "lamentável", mas afirmou que a proibição violaria a liberdade de expressão prevista na Constituição.

A magistrada destacou que, de acordo com a legislação brasileira, só poderia haver uma censura prévia se fosse o caso de apologia ao nazismo, de acordo com a Lei nº 7.716, de 1989.

Responsável pelo bloco, o grupo conservador Direita São Paulo divulgou um vídeo em que relata agressão a um de seus integrantes.

Ai que saudade do meu ex!

Se o bloco do Dops é dos foliões de direita, o Ai que saudade do meu ex! convida os carnavalescos que defendem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato à eleição presidencial e condenado em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro.

Organizado pela militância do PT em Belo Horizonte (MG), o desfile está programado para segunda-feira (12). "Traga seu instrumento, sua camiseta vermelha, sua indignação nesse movimento de resistência e de luta!", diz o evento no Facebook.

Tem até frase motivacional do petista.

Não desistam nunca. Não esmoreçam nunca. Não desanimem nunca. Porque eles estão tirando de nós o direito de ser feliz, o direito de sonhar e o direito de ter esperança.Luiz Inácio Lula da Silva

O ex-presidente também é muso de outras folias. Na última quarta-feira (7), foi a vez do Cadê as Provas, em João Pessoa (PB), uma referência à condenação no caso do triplex do Guarujá. Lula e aliados dizem que ele foi condenado injustamente.

"Vamos gritar Lula ladrão roubou meu coração, vamos levantar nossas bandeiras, vestir vermelho, vamos comer pão com mortadela, tomar cerveja barata e mostrar a força do povo", diz a organização.

No dia seguinte, foi a vez do Ladrão de Corações, no Rio de Janeiro. Enquanto os cariocas se divertem, os mineiros organizam o Que Golpe Foi Esse, no mesmo dia. Na sexta-feira (9), o bloco Mulheres CUTucando, formado pelas sindicalistas da Central Única dos Trabalhadores de Pernambuco (CUT-PE), marca presença em Recife. No Maranhão, os foliões lulistas aproveitam o Tô com Lula.

Reprodução/Facebook

'Mais macho que muito homem'

Em seu segundo ano nas ruas, o paulistano Bloco Pagu chama a mulheres a "engrossar esse caldo e pular muito pela mudança de lugar das placas tectônicas que colocarão a mulher onde ela merece estar".

No repertório, as divas Elis Regina, Margareth Menezes, Gal Costa, Clara Nunes, Elza Soares, Marisa Monte, Maria Bethania, Rita Lee, Marina Lima, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Cassia Eller, Elba Ramalho, Beth Carvalho, entre outras.

Nascida Patrícia Rehder Galvão, Pagu foi defensora da participação ativa da mulher na vida pública e a primeira brasileira do século 20 a ser presa política.

Aos 18 anos, a escritora e jornalista se integrou ao movimento antropofágico. Dois anos depois, casou-se com o artista Oswald de Andrade e se filiou ao Partido Comunista.

Na vida de militante, foi presa 23 vezes. A primeira, por estar no comando de uma greve de estivadores em Santos (SP).Em 1933, publicou o Parque Industrial, sob o pseudônimo de Mara Lobo. O livro é considerado o primeiro romance proletário brasileiro.

Em 1933 publica o romance Parque Industrial, sob o pseudônimo de Mara Lobo, considerado o primeiro romance proletário brasileiro.

Pagu foi homenageada por Rita Lee na música que leva seu nome.

Nem toda feiticeira é corcunda

Nem toda brasileira é bunda

Meu peito não é de silicone

Sou mais macho que muito homem

Eu acho é pouco

Se a homenagem a ditadores levou o Porão do Dops à Justiça, em Olinda (PE), o bloco Eu acho é pouco foi fundado em 1976, em uma crítica à ditadura militar.

"Não se pode dissociar a política do Eu Acho é Pouco. Tem que ter as duas coisas juntas. Na realidade, embora tenham pessoas que não participaram da luta contra a ditadura, grande parte estava envolvida. Foram agregados pelo movimento", conta Ivaldevan Calheiros, um dos integrantes do grupo, na pesquisa "Como o carnaval se vestiu de vermelho e amarelo".

Arquivo/Eu acho é pouco
Bloco Eu Acho é pouco em frente à sede, em 1982.

Sobre a origem das cores do bloco, Geraldo Gomes, um dos integrante tem a sua versão: "O vermelho vinha da Rússia e o amarelo, da China. O bloco nasceu revolucionário". Ao longo dos aos, o estandarte ganhou outros elementos: uma cobra e um dragão. Surgiu ainda o Eu Acho é Pouquinho, uma versão infantil.

No grupo inicial, estavam arquitetos, advogados e engenheiros. Antes do cortejo que se tornou um dos mais tradicionais do carnaval pernambucano, eles já se divertiam com a Língua Ferina, um pequeno bloco.

No final de 1976, um grupo entre trinta e quarenta pessoas se reuniu para escolher o novo nome. "Nunca fomos partidários, mas no movimento estudantil éramos envolvidos, de uma certa forma, com o partido. Fizemos a opção de participar das coisas. O bloco era isso também. O nome foi um pouco por aí, de falar da ditadura, de dizer algo como 'Tá vendo? Viu no que deu?'", afirma Berenice Lins, uma das integrantes do bloco, na pesquisa.

Retomando o tom político de suas origens, em novembro de 2002, a festa denominada O Encontro da Estrela com o Dragão declarou o apoio do bloco à eleição de Lula para presidente. Em 2010, a agremiação apoiou a candidatura de Dilma Rousseff. Entre as festas para arrecadar dinheiro para os desfiles, até o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, foi homenageado.

Arquivo/Eu acho é pouco
Cartaz de festa do Eu acho é pouco com Barack Obama em 2008.

"A gente tem uma posição política de esquerda. Apoiamos as iniciativas de esquerda que a gente acredita que são importantes para o país. E algumas ações importantes para a cidade como o Ocupe Estelita, que a gente apoiou também, que a gente sabe que são impactantes para a cidade, que são impactantes para nossas vidas agora e no futuro e que grupos e pessoas precisam se posicionar", afirmou o bloco em comunicado, à época.

Tradicional no carnaval pernambucano, a agremiação foi homenageada por Alceu Valença e já virou letra de música de Lenine. "Bloco liberal, existencial, etcétera e tal", diz um dos versos da canção com o nome do bloco.

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