ENTRETENIMENTO

Os próximos passos do grupo que levou rosas brancas em prol das mulheres ao Grammy

Um movimento #TimesUp floresce na música. Mas está indo longe o suficiente?

09/02/2018 22:31 -02 | Atualizado 09/02/2018 22:34 -02

Illustration: Damon Dahlen/HuffPost Photos: Getty

As rosas brancas estavam em todas as partes na cerimônia do Grammy 2018 – presas singelamente ao vestido de Lady Gaga; nas lapelas de Ne-Yo, Ryan Seacrest e Sam Smith; e até na mão delicadamente pintada de Cardi B.

As flores foram o aceno da indústria da música ao movimento Time's Up contra o abuso e o assédio sexual em Hollywood. Um grupo chamado Voices in Entertainment, criado por integrantes da indústria musical, incentivou os artistas a exibirem rosas na "maior noite da música", dizendo que essas flores são símbolos de "esperança, paz, compaixão e resistência".

O Voices in Entertainment conseguiu chamar nossa atenção, mas os críticos se perguntavam: o que virá? Agora que o Grammy terminou, finalmente veremos mudanças numa indústria com uma longa história de acusações de má conduta sexual?

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No Globo de Ouro, quase todas as personalidades se vestiram de preto em solidariedade ao Time's Up. Como consequência, os debates sobre o assédio sexual, as diferenças nos salários e "o poder das mulheres" na indústria dominaram a noite. Quando o fim de semana terminou, o fundo de defesa jurídica do Time's Up havia arrecadado mais de 15 milhões de dólares (cerca de 50 milhões de reais) para buscar justiça por atos de assédio sexual no ambiente de trabalho e para defender a paridade de gênero na indústria.

O grupo Voices in Entertainment inicialmente esperava que as rosas "manteriam vivo o debate iniciado no Globo de Ouro... sobre segurança e igualdade no trabalho para todas as pessoas, especialmente para as mulheres", disse ao HuffPost a cofundadora do grupo Karen Rait, da Interscope/Geffen/A&M Records.

Rait organizou o Voices in Entertainment com Meg Harkins, vice-presidente da Roc Nation, além de outras mulheres, logo antes do Grammy. Ela diz que o grupo cumpriu seu objetivo, citando o grande número de pessoas que passaram pelo tapete vermelho e falaram sobre "a iniciativa e a solidariedade do Time's Up e das rosas brancas".

Rait lembra também que artistas mulheres como Kesha, Lady Gaga, SZA, Pink e Janelle Monae usaram suas performances e discursos para abordar, discutir e conscientizar sobre o novo movimento.

Além disso, Rait afirma que tem recebido um apoio crescente por parte de mulheres e homens da indústria da música que querem se engajar nessa causa.

Agora que o show acabou, Rait explica que o foco principal do Voices in Entertainment é conseguir que mais mulheres ocupem cargos de poder no mundo da música. Os "números [de mulheres] devem melhorar" no setor da música, ressalta.

Um estudo recente de Stacy L. Smith, Marc Choueiti e Katherine Pieper, da Annenberg Inclusion Initiative, mostrou o quanto essas cifras são desanimadoras. A equipe analisou 600 canções populares da Billboard Hot 100 [lista das 100 músicas mais vendidas] entre 2012 e 2017. As mulheres representavam apenas 22,4% dos intérpretes e 12,3% dos compositores desses hits. E somente 2% dos produtores das 300 canções de maior sucesso eram mulheres.

"É preocupante a falta de mulheres na direção de criação do entretenimento audiovisual", escreveram os pesquisadores. "Isso parece refletir os preconceitos profundamente arraigados em relação às mulheres e à liderança, alguns dos quais deixamos em evidência na indústria do cinema – e que podem se estender também ao setor da música."

O Prêmio Grammy costuma refletir a mesma desigualdade de gênero da indústria como um todo. Nos últimos seis anos, apenas 9,3% dos indicados foram mulheres, segundo o estudo. Mais especificamente, entre 2013 e 2018, as mulheres foram:

  • 7,9% dos indicados para Gravação do Ano
  • 6,1% dos indicados para Álbum do Ano
  • 21% dos indicados para Canção do Ano
  • 36,4% dos indicados a Artista Revelação
  • 0% dos indicados a Produtor do Ano

Sim, você leu bem: zero.

Em 2018, 11 dos 84 prêmios foram entregues a mulheres na cerimônia.

O HuffPost entrou em contato com 18 indicados ao Grammy nas semanas anteriores à premiação, além do apresentador James Corden, e perguntou se queriam falar sobre a paridade de gênero na indústria da música. Ninguém quis. Quando a Variety perguntou a Neil Portnow, presidente da Academia Nacional de Gravação, Artes e Ciência (que organiza o prêmio) sobre por que o Grammy parece ser tão consistentemente masculino, ele não teve problema em colocar a responsabilidade nas mulheres.

"Isso deve começar com... mulheres que tenham a criatividade em seus corações e mentes, que queriam ser musicistas, que queiram ser engenheiras, produtoras, e que desejem fazer parte da indústria no âmbito executivo", disse Portow à Variety. "[Elas precisam] avançar nesse sentido, pois acredito que seriam bem-vindas."

(Portnow pediu desculpa desde então, depois que diversas artistas criticaram sua declaração inicial. Rait, por exemplo, tem "certeza de que líderes mulheres da indústria da música adorariam sentar e ter uma conversa construtiva com Neil Portnow sobre 'avançar nesse sentido'")

Precisamos ter mais mulheres nesse banco de talentos. E, uma vez que estiverem lá, elas precisarão contar com a orientação de outras mulheres que possam prepará-las para um processo de entrevista ou cenário. Karen Rait, chefe de promoções rítmicas da Interscope/Geffen/A&M Records

Quanto aos futuros passos, Rait diz que o Voices in Entertainment planeja se reunir de novo em breve para discutir estratégias. O mais provável é que o grupo concentre seus esforços num programa de orientação para mulheres jovens que queiram trabalhar na indústria da música, além de continuar incentivando a doação de recursos para o fundo de defesa jurídica do Time's Up.

Rait gostaria de criar um programa de aconselhamento para unir jovens talentos a orientadores que já trabalhassem na indústria. Ela está entusiasmada com a ideia de criar um projeto para mulheres produtoras – e revelou seu desejo de contar com Missy Elliott e Timbaland.

"Precisamos conseguir que a próxima geração de mulheres entenda que há um lugar para elas", diz Rait. "Precisamos educar todo mundo e deixar claro que existem jovens mulheres talentosas que merecem estar no negócio... Devemos ter mulheres nesse banco de talentos. E, uma vez que estiverem lá, elas precisarão contar com a orientação de outras mulheres que possam prepará-las num processo de entrevista ou cenário. A realidade é que [como mulheres] temos que nos esforçar mais."

Rait diz que é importante "lembrar" aos homens da indústria que as mulheres são uma força poderosa. Mas também espera que os homens do setor apoiem a mensagem do Voices in Entertainment – uma mensagem que o grupo deseja manter como "extremamente positiva".

"[Os homens da indústria da música] veem o que está ocorrendo. Eles percebem as mudanças", disse ela ao HuffPost. "Isso não vai acontecer da noite para o dia... E acredito que, se continuarmos fazendo esse trabalho com a nova geração e dermos educação, educação, educação, os homens adotarão esses valores. Existem homens incrivelmente educados e sofisticados que entendem o que está acontecendo."

Dimitrios Kambouris via Getty Images
Recording artist Cyndi Lauper shows off her white rose at the Grammy Awards.

Mas será que esse programa de orientação será suficiente para promover a igualdade numa indústria com tanta desigualdade de gênero e que sempre parece encontrar uma forma de perdoar até seus supostos predadores mais populares? (Vide Dr. Luke e R. Kelly, entre outros. Russell Simmons é o homem mais visível da indústria que enfrenta consequências tangíveis desde outubro, quando vieram à tona as primeiras acusações de assédio e agressão sexual contra o produtor de Hollywood Harvey Weinstein).

Conseguir que mulheres ocupem postos em todo o processo de recrutamento da indústria da música é um objetivo louvável. No entanto, se essa indústria continuar hostil às mulheres, se os homens ainda tiverem as maiores chances de promoção na carreira, e se os abusadores puderem seguir progredindo profissionalmente sem nenhuma consequência, então a orientação pode não ser suficiente.

Smith, fundadora e diretora da Annenberg Inclusion Initiative, disse ao HuffPost que, "para que a mudança sistêmica aconteça, todos os artistas, criadores de conteúdo e executivos das gravadoras precisam trabalhar em conjunto para garantir que o acesso e as oportunidades estejam abertos a todos os talentos – não apenas aos que pertencem a certos grupos".

É exatamente por isso que a declaração de Portnow (mulheres têm a responsabilidade de desenvolver a diversidade e a igualdade de gênero dentro da indústria da música) é tão ofensiva. E é por isso que o Voices in Entertainment provavelmente terá que aprofundar mais o seu programa de orientação, abordando seriamente os departamentos de recursos humanos, descrevendo claramente os recursos disponíveis para as pessoas que sejam alvos de discriminação ou assédio no local de trabalho e responsabilizando seriamente os abusadores do passado e do presente por seus atos indevidos.

Quando Kesha tornou públicas as acusações de abuso contra Dr. Luke, teve início uma batalha judicial de três anos com o produtor. Sua carreira ficou praticamente paralisada durante o processo, e o contrato que ela passou anos tentando rescindir continua intacto. Seu mais novo álbum, "Rainbow", foi lançado sob o mesmo contrato. Se a indústria quiser mudar, organizações como Voices in Entertainment devem estar dispostas a abordar os mecanismos de poder que permitiram que isso acontecesse.

Nas palavras de Fiona Apple: para a indústria da música, "não é de hoje que 'time's been up' [o tempo acabou]".

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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