ENTRETENIMENTO
09/02/2018 12:18 -02 | Atualizado 09/02/2018 12:28 -02

Jean-Claude Van Damme explica por que seu 'soco nas bolas' sempre funciona na vida real

Mas o astro da série agora cancelada 'Jean-Claude Van Johnson' procura um novo golpe para ser sua marca registrada. Se você tiver ideias...

Getty/HPMG

Esta reportagem não pretendia ser uma autópsia do trabalho mais recente de Jean-Claude Van Damme. Mas cá estamos. Segundo o Hollywood Reporter, a Amazon está "fazendo uma faxina da casa". E isso implica em cancelar algumas de suas séries, sendo uma delas Jean-Claude Van Johnson.

Na série produzida por Ridley Scott, Van Damme representa Van Johnson, uma versão caricata dele mesmo que usa sua carreira bombástica no cinema para mascarar sua vida secreta de espião. Aposentado e entediado, Van Johnson tenta reencontrar seu amor do passado e ao mesmo tempo voltar a trabalhar com espionagem; enquanto isso, ironiza alguns dos elementos sempre presentes em filmes de ação. De O Grande Dragão Branco a Timecop – O Guardião do Tempo, nenhum dos filmes de Van Damme fica fora da mira da série irônica.

O HuffPost conversou com o ator e mestre de artes marciais belga de 57 anos antes da decisão tomada pela Amazon de cancelar a série dele. Agora, sem segunda temporada à vista, Jean-Claude Van Johnson terá que acabar, mas as palavras de Van Damme sobre dar socos nas bolas de pessoas, dar porradas no rosto de cobras e não dar porradas em cem cavalos do tamanho de patos, tudo isso vai continuar vivo.

Considerando que Jean-Claude Van Johnson está tecnicamente falando uma paródia de sua própria vida, sou obrigado a perguntar: você é agente secreto de verdade?

É claro que não. Nunca fui agente. Mas estive com muitas personalidades de todo o mundo, desde o Oriente Médio até a Rússia, passando pela Bósnia, a Tchetchênia e a Indonésia. Todas essas pessoas comandavam seus países. Não sei por que, elas gostam de mim. Elas curtem esportes, curtem artes marciais, e, por conta disso, eu pude conhecer gente famosa e também gente normal. Por isso tenho certeza que meu telefone está grampeado.

Putz.

É claro. Pense bem. Quando um ator percorre o mundo por toda parte desse jeito, eles não têm outra opção senão ficar ouvindo. E eu não pretendo ficar em casa. Então é uma ideia bacana ser ator e espião na vida real.

Você tira sarro de você mesmo na série, inclusive de seu famoso golpe que combina um espacate com um soco na virilha. Quando você começou a fazer isso?

Dar um soco nas bolas do adversário?

Isso mesmo, soco nas bolas.

Sempre funciona bem na vida real. Especialmente contra pessoas grandes, porque eu sou baixinho. Não, não, quero dizer que nas artes marciais existe um chute na têmpora, no esterno, debaixo do queixo, na garganta, nos testículos. E isso dói. Mas usaram no programa porque é cool.

Você se lembra de Leão Branco – O Lutador Sem Lei? O sujeito está me chutando. Eu imobilizo as pernas dele no ar e faço [Van Damme faz um som de soco e gemido]. Em Jean-Claude Van Johnson é diferente, é quase assim [mais sons de socos], e o cara vai caindo devagar.

O personagem Johnny Cage, de Mortal Kombat, foi inspirado em você. Você chegou a jogar o jogo?

Sabe, os golpes, as roupas e tudo. Nunca conversei com esses caras, mas normalmente eles não poderiam usar o nome, o rosto e o sósia. Se eu quisesse... mas nunca vou fazer isso. Nunca processo ninguém. É contra minhas regras. Mesmo que um sujeito me desse um tapa na cara. Não estou nem aí. Mas quem se importa? O Grande Dragão Branco – aquelas coisas todas de Mortal Kombat vieram de O Grande Dragão Branco.

Você deixou O Predador para fazer O Grande Dragão Branco, verdade? Como você acha que sua carreira teria sido se não tivesse deixado Predador?

Em primeiro lugar, dei adeus a Predador porque queriam começar O Grande Dragão Branco algumas semanas apenas depois de Predador. Mas graças a deus o figurino que eu estava experimentando para usar em "Predador" não funcionou, então fizeram um novo. Isso é verdade.

[Abaixo, o figurino original do predador.]

Mas, quer saber como foi a história? Quando conheci o produtor de Grande Dragão Branco, Menahem Golan, não importa o que eu fizesse – fiz o espacate entre duas cadeiras, mostrei meu corpo, tirei a camisa --, ele dizia "meu amigo, você sabe que não é ator de cinema. Chuck Norris é ator. Você é apenas mais um sujeito qualquer."

E eu falei: "Verdade, mas Arnold Schwarzenegger gosta de mim. E eu sou o vilão de 'Predador'. Ele: "Ok, ligue para a Fox'. Então telefonou à 21st Century Fox e perguntou: "Van Damme está fazendo o 'Predador'?" Eles disseram: "Sim, está". Então ele disse: "Ok, então você vai fazer 'Grande Dragão Branco'. Ele não sabia que em 'Predador' eu usava um figurino que me cobria completamente.

Tudo isso aconteceu de verdade. É uma vida surpreendente.

Uns 30 anos já se passaram desde O Grande Dragão Branco.

Mark Wahlberg está querendo fazer um Grande Dragão Branco 2. Não sei se vai conseguir, mas Mark Wahlberg, quando veio de Boston, veio para minha casa. Bateu na minha porta. Mas não fui eu quem abriu a porta. Foi meu empregado Pepe, um grande sujeito. Ele me disse: "Há um rapaz lá fora. Ele quer fazer um documentário sobre você. É um grande fã seu desde 'Grande Dragão Branco'." Eu falei: "Não estou com tempo de fazer um documentário sobre 'Grande Dragão Branco'. Nem é um filme tão bom assim, é só caratê e coisas do tipo." Então o cara foi embora.

Era Mark Wahlberg. Pode mencionar isso, porque é verdade. Ele veio para a Saks Avenue. Foi uns 25, 30 anos atrás. Ele veio à minha casa. Encontrou minha casa. Para você ver como ele estava com vontade de fazer o trabalho, ele encontrou minha casa. Tocou a campainha. Deve ser por isso que ele é tão bem-sucedido hoje, acho.

[Uma fonte próxima a Wahlberg contou ao HuffPost que a possibilidade de uma sequência de 'Grande Dragão Branco' foi aventada 25 ou 30 anos atrás, mas não confirmou outros detalhes do que Van Damme disse.]

Em O Alvo, você deu um soco numa cobra. Alguma vez você já deu um soco numa cobra na vida real?

Nunca dei um soco numa cobra. Mas você se lembra daquela cena em Operação Dragão em que Bruce Lee tira uma cobra de um saco, depois bate na cabeça da cobra – para atiçar o animal – e então joga a cobra dentro? Você precisa ver um filme chamado Operação Dragão.

Eu vi Operação Dragão.

Bruce Lee é muito sexy, acho que mesmo com a cobra, o jeito que ele fez a cena foi sexy. E depois disso ele enviou a cobra a seus inimigos. Então eu não pensei em fazer isso. Mas você conhece Tom Pollock, que na época era presidente do grupo de cinema da Universal Studios? Um bom amigo meu. Um grande sujeito. Tom Pollock é uma pessoa incrível. Ele falou: "Ei, Jean-Claude, eu gostaria que você pegasse uma cobra e desse um soco nela".

Foi ideia dele. Eu disse: "Isso não vai funcionar. Você enlouqueceu? Quer que eu dê um soco numa cobra? Você acha que ela vai ficar nocauteada?" Ele disse "escute, Jean-Claude, faça isso como favor para mim. Sinto que vai funcionar." E sabe de uma coisa? Esses caras, eles sabem coisas que a gente não sabe. Eles sabem o que fazer. Às vezes eles têm ideias incríveis.

Sim, aquele momento ficou na história.

Eu fiz com muita seriedade. Quando esmurrei a cobra, imaginei que eu estava dando um soco na cara de um sujeito ruim, então fiquei muito concentrado na ação. Ficou bom.

É um soco icônico numa cobra.

Na première do filme, quando vi uma cobra aparecendo na tela, e eu apareci segurando a cobra e então a cobra foi nocauteada, as pessoas começaram a gargalhar. Pensei "pronto, acabou. Deu errado." Mas estavam rindo de um jeito positivo.

Já que você é conhecido por suas cenas de luta, há uma pergunta popular na internet: o que você preferiria combater, cem cavalos do tamanho de patos ou um pato do tamanho de um cavalo?

Se eu preferiria lutar com o quê??

[Agente publicitário intervém: "Você preferiria enfrentar cem cavalos do tamanho de patos – ou seja, cavalinhos minúsculos, mas cem deles? Ou um pato gigante do tamanho de um cavalo?"]

Os cem cavalinhos pequenos, porque conheço a natureza. Se tivéssemos um pato do tamanho de um cavalo, ele seria fortíssimo, sabe? Ficaria maluco na água e ficaria ótimo. Mas acho que o pato não me machucaria, porque sou um cara tão bonitinho. Talvez ele me mantivesse prisioneiro por uns dois anos. Não seria bom para a Amazon ou para Ridley Scott. Mas eu não poderia fazer nada.

Então você preferiria enfrentar os cavalos?

Não posso chutar um cavalo. Não posso chutar um pato. Talvez eu ficasse amigo deles, porque os animais nunca brigam. É isso que os humanos não entendem. Algumas pessoas entendem. Se os animais fossem pessoas, teríamos mais gente boa do que gente esquisita. Precisamos proteger os animais, isso é muito importante para nossos filhos.

O que você acha de todas as paródias do espacate que você fez no comercial da Volvo?

É uma coisa maluca, maluca mesmo. Sim, aquele espacate virou cult. Mas precisamos encontrar um golpe novo, certo? Alguma coisa diferente para eu voltar com ela. Preciso encontrar um golpe novo, alguma coisa surpreendente. Acho que é bacana. Vai aparecer em todo lugar. Será como aquela frase de Arnold: "I'll be back". Mas acho que o espacate é mais forte, porque é uma imagem.

Falou-se na possibilidade de uma segunda temporada de Jean-Claude Van Johnson?

Espero que a série seja boa. Se a audiência for grande, quem sabe a gente tenha a chance de fazer uma segunda temporada. Se não, terá sido o destino. É isso. A vida não é complicada.

Esta entrevista foi editada e condensada.

Descanse em paz, Jean-Claude Van Johnson.

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Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.