MULHERES

'Nossa arma é a opinião pública': Os cartazes históricos da luta das mulheres pelo direito ao voto

A Biblioteca da Universidade de Cambridge exibe pela primeira vez coleção histórica de posteres do início do século 20 na Inglaterra.

08/02/2018 18:19 -02 | Atualizado 08/02/2018 18:35 -02

Cambridge University Library
Com questionamentos sociais, um dos cartazes mostra uma mulher com trajes acadêmicos encarcerada ao lado de um

Elas saíram do ambiente doméstico. Elas tomaram as ruas por meio de ações e não de palavras. Elas lutaram pelo direito de ir às urnas. E conquistaram o direito de existir politicamente. Há 100 anos, após incansável campanha que provocou efeito cascata em outros países, as mulheres britânicas conquistaram o direito ao voto e a vanguarda da "primeira onda do feminismo" chegou ao seu ápice.

Para comemorar os 100 anos da Lei "Representation of The People Act", de 1918, no mês de fevereiro, a Biblioteca da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, exibe pela primeira vez uma seleção de pôsteres que fizeram parte da luta das mulheres pelo direito ao voto no século 20. Em 6 de fevereiro de 1918, a Lei garantiu que uma parcela das inglesas pudessem ir às urnas.

"Esses cartazes são exemplos fantásticos da máquina de publicidade que foi o movimento sufragista do início do século XX. Eles foram criados para serem coladas nas paredes, arrancadas pelo meu tempo ou por oponentes políticos, então é bastante incomum para esse material estar conservado por mais de cem anos", afirma Chris Burgess, responsável pela exposição, em comunicado.

Parte de um registro histórico, o material chegou à biblioteca em 1910, mas foi descoberto só em 2016. O conteúdo foi encontrado nos arquivos da Universidade com endereço certo: "ao bibliotecário". Uma das teorias é que eles tenham sido entregues pela sufragista Marion Phillips.

E não por acaso. Em texto de apresentação da mostra, Lucy Delap, especialista em história feminista da Universidade de Cambridge, lembra que as primeiras faculdades feitas exclusivamente para mulheres, em Cambridge, foram uma espécie de "âncora" do movimento.

Cambridge University Library
"Nossa arma é a opinião pública", diz carta divulgado pela Bilbioteca da Universidade de Cambridge.

Cambridge University Library
"Voto para as trabalhadoras", diz cartaz de 1918, em que mostra uma mulher trabalhando na indústria têxtil da época.

O texto destaca que uma das teorias é de que Phillips teria sido encorajada por Caroline Mary Ridding, a primeira mulher funcionária da instituição e aluna da Girton College, que faz parte de Cambridge e é pioneira na educação de mulheres. "Esses colégios receberam uma das ativistas mais ativas no movimento sufragista", diz.

Cambridge University Library
Os veículos de imprensa estavam em seu auge e as mulheres se inspiravam em cartazes da chamada "imprensa marrom" para construir os cartazes.

Com questionamentos sociais, um dos cartazes mostra uma mulher com trajes acadêmicos encarcerada ao lado de um "condenado" e de um "lunático", com a intenção de fazer uma provocação sobre como eram tratadas pelo meio acadêmico e por seus maridos. A imagem de mulheres trabalhando em fábricas, como costureiras e que expunham a inversão de papéis domésticos também eram comuns.

Cambridge University Library

As obras eram de autoria de coletivos de artistas e amadores que trabalharam como apoio ao movimento sufragista e eram direcionadas a mulheres universitárias e também às que integravam a classe trabalhadora à época. "A campanha foi mais longe do que a mensagem de igualdade para pontura como o voto poderia fazer diferença dentro dos lares, no trabalho, nas ruas - questões que preocupam todas as mulheres", explica a especialista no texto.

Cambridge University Library

A especialista ainda destaca que, à época, os veículos de imprensa estavam em seu auge e as mulheres se inspiravam em cartazes da chamada "imprensa marrom" para construir os cartazes. Alguns deles usam letras grandes e chamadas de impacto como "nossa arma é a opinião pública".

"Algumas miliantes estavam dispostas a infringir a lei: esmagaram janelas, destruíram campos de golfe, queimaram edifícios", aponta a especialista. "Mas havia também comunicações não-violentas e que, mesmo assim, desrespeitavam a Lei. Elas sempre foram muito criativas", conclui a especialista.

Cambridge University Library

Com o lema "ações e não palavras" a reivindicação das mulheres em 1918 foi um primeiro passo que transformou o mundo. Após esta data, o direito ao voto foi garantido para mulheres com mais de 30 anos no país, mas ainda haviam entraves: elas precisavam ter uma propriedade ou ser casada com o detentor de uma. A mesma Lei também trouxe a permissão para que homens com mais de 21 anos pudessem votar. Apesar do grande esforço do movimento sufragista, foi só em 1928, dez anos depois, que o voto foi entendido no país como um direito universal.

Veja mais imagens dos cartazes usados pelas revolucionárias da época:

Cambridge University Library

Cambridge University Library

Cambridge University Library

Cambridge University Library

Cambridge University Library

18 mulheres fascinantes que tentaram candidatar-se à Presidência desde 1872