MULHERES
05/02/2018 12:06 -02 | Atualizado 05/02/2018 12:40 -02

O silêncio da atriz Uma Thurman sobre Harvey Weinstein e Quentin Tarantino chegou ao fim

Em entrevista ao jornal New York Times, atriz revelou ser uma das vítimas do produtor de Hollywood e que sofreu com 'retaliações' durante as filmagens de 'Kill Bill'.

WireImage
A atriz Uma Thurman em evento para fãs do Broadway's 'The Parisian Woman' no New 42nd Street Studios, em Nova York.
Harvey me atacou mas não me matou.

A frase acima é da atriz Uma Thurman. Quatro meses após as denúncias de assédio sexual contra o produtor Harvey Weinsten virem à público, a atriz de 47 anos explicou "porque está zangada". Em uma entrevista à coluna da jornalista Maureen Dowd, no New York Times, publicada neste domingo (4), ela revelou que foi assediada sexualmente por Weinstein na época de Pulp Fiction e que Quentin Tarantino 'quase a matou' durante as filmagens da franquia Kill Bill.

Em outubro de 2017, em meio ao escândalo de denúncias contra Weinstein, Thurman disse, em entrevista a um programa de televisão norte-americano que não falaria nada sobre naquele momento porque "estava muito 'zangada'" e quando estivesse menos irritada, falaria sobre. E o momento chegou. "Eu disse 'zangada', mas a verdade é que eu tinha medo de chorar enquanto te conto a verdade", disse a atriz ao NYT.

"Uma Thurman foi estuprada. Ela foi assediada sexualmente. Ela foi traida por pessoas que ela conhecia e iludida por aqueles em quem ela confiava. Ela foi pressionada e levada a um evento que deixou sequelas físicas até hoje", diz o texto de Dowd. "Embora isso lembre o enredo de Kill Bill, filme de Quentin Tarantino estrelado por ela e produzido por Harvey Weinstein, estamos falando da história real de Uma. E os dois homens citados têm tudo a ver com esse sofrimento", continua o texto.

A começar por Weinstein. Segundo Thurman, ela foi apresentada ao produtor nos anos 90 após o clássico Pulp Fiction se transformar em uma das bilheterias de mais sucesso de Hollywood. "Eu o conheci bem antes dele me atacar. Ele passava horas me falando sobre possíveis projetos, ele me elogiava e me validava. Mas eu nunca fui uma queridinha do estúdio. Ele me mantinha numa coleira com os filmes e diretores que ele achava que eram os certos para mim", conta.

Thurman conta que, nesse mesmo período de tempo, Weinstein a convidou para uma reunião em um hotel. A ideia era discutir novos papeis para ela, mas não foi exatamente isso que aconteceu. Como já denunciado por outras mulheres, Weinstein apareceu só de roupão. "Eu não me senti intimidada. Achei que ele estava sendo só rotineiro, como um tio doidinho e excêntrico", disse a atriz. Mas Harvey a levou para uma sala parecida com uma sauna e se insinuou para ela.

Mais tarde, em uma reunião ele a assediou novamente. "Ele me empurrava pra baixo e tentou se esfregar em mim. Ele tentou ficar pelado na minha frente. Ele tentou todo tipo de situação desagradável. Eu me sentia um animal me contorcendo para fugir, como uma lagarta", revela.

Kevin Winter via Getty Images
Da esquerda para a direita: O diretor e músico Robert Rodriguez, o diretor Quentin Tarantino, a atriz Uma Thurman e Harvey Weinstein na festa de lançamento de Kill Bill Vol. 2, em abril de 2004.

Harvey enviou um buquê de flores e seus assistentes ligavam para Thurman, de forma insistente, para falar sobre novos projetos. Até que um dia ela decidiu encontrá-lo. A reportagem conta que Thurman foi acompanhada da maquiadora Ilona Herman, que a esperou do lado de fora. As palavras da estrela de Pulp Ficton para Weinstein foram:

"Se você fizer o que fez comigo com outras pessoas, você vai perder sua carreira, sua reputação e sua família. Eu te prometo isso". Em contra partida, a reportagem afirma que Weinstein prometeu acabar com a carreira dela. E os dois passaram a se encontrar apenas em reuniões supervisionadas.

A relação entre Uma Thurman e Quentin Tarantino

Stephane Cardinale - Corbis via Getty Images
Quentin Tarantino e Uma Thurman, que estava grávida, no tapete vermelho do Festival de Cannes, na França, em 2004.

A entrevista de Uma Thurman ainda traz revelações sobre a postura de Quentin Tarantino em relação à atitude do produtor e revela que, no Festival de Cannes de 2004, Thurman insistiu para que Tarantino não trabalhasse com Weinstein em Kill Bill (que nasceu de uma ideia que a atriz e o diretor tiveram ainda na época de Pulp Fiction). Tarantino, que sabia do histórico com Thurman, desconversou e, segundo ela, disse que "Harvey estava sempre tentando ter as garotas que ele não pode ter".

Mas, mesmo assim, o diretor confrontou Weinstein sobre a história de Thurman. O produtor disse que ela "estava louca e que ele estava ressentido pelas acusações". Foi aí que a atriz confrontou Weinstein mais uma vez e ele foi obrigado a pedir desculpas a ela.

Após a publicação da entrevista no último domingo (4), segundo a Reuters, o advogado de Weinstein, Ben Brafman, afirmou que o produtor ficou atordoado e entristecido pelo que ele considerou "falsas alegações de alguém com quem trabalhou em mais de duas décadas".

Segundo a reportagem, a relação de Thurman e Tarantino mudou desde então. A atriz contou a Maureen Dowd que sofreu retaliações dele durante as filmagens de Kill Bill nos anos seguintes. Algumas delas aconteceram em cenas em que Beatrix Kido, a "noiva" do filme interpretada por ela sofre violência: na cena em que Budd, personagem de Michael Madsen cospe em seu rosto, segundo Thurman, quem cuspiu foi Tarantino. Assista abaixo:

À jornalista, Thurman cedeu um vídeo dos bastidores de Kill Bill, em que mostra que ela teve que filmar sem dublê a cena em que ela sofre um acidente de carro no filme. Ela precisou dirigir a 65km/h para que seu cabelo voasse da forma planejada pelo direitor, a estrada era de areia e tinha alguns obstáculos, o que fez o carro bater em uma árvore e a atriz deu entrada em um hospiral com uma concussão.

A reportagem informa que a Miramax, produtora do filme, proibiu o acesso da atriz à filmagem do acidente, a menos que ela assinasse um documento confirmando que não processaria o estúdio. Ela não assinou, mas a acusação não foi para a frente. O acidente deixou sequelas até hoje no pescoço e nos dois joelhos da atriz, que chama o ocorrido de "minha desumanização ao ponto de morte".

Thurman ainda conta que, a partir desse momento, ela e Tarantino não conseguiam se encontrar sem brigar e nunca mais fizeram um filme juntos. Quinze anos depois, Tarantino a entregou a filmagem do acidente a ela. "Quentin finalmente se redimiu, certo? Mas agora não importa mais, depois do meu pescoço machucado permanentemente e meus joelhos ferrados [...] Harvey me atacou mas não me matou. O que mais me doeu no acidente foi que tudo aconteceu por uma cena barata. Eu já tinha passado por tanta coisa até aquele momento. Eu sempre senti uma conexão muito forte com o meu trabalho com Quentin e muito do que eu deixei acontecer comigo e fiz parte eram, para mim, como brigar com um irmão mais velho. Mas eu achava que eu estava colaborando, sabe?", disse em entrevista.

E finaliza:

"Eu levei 47 anos para parar de chamar de 'apaixonadas por mim' pessoas que são simplesmente más comigo. Levei um tempo enorme porque, quando somos garotas, nós somos condicionadas a acreditar que crueldade e amor estão interligados. Isso vem de uma época que nós precisamos nos distanciar urgentemente."

É por isso que Uma Thurman está zangada.