ENTRETENIMENTO

Pedimos para a diretora Greta Gerwig explicar 7 referências culturais de ‘Lady Bird - A Hora de Voar'

Com duas indicações ao Oscar, 'Lady Bird' estreia no Brasil no dia 15 de fevereiro.

26/01/2018 10:00 -02 | Atualizado 26/01/2018 10:34 -02
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Atenção: Este texto contém spoilers:

Como qualquer pessoa conhecida como adulto sabe, a adolescência é definida por referências culturais.

A música que fazia sucesso na época. O programa de TV que todo mundo corria pra casa para assistir. A expressão que as pessoas usavam. Os livros que seus colegas liam para parecer descolados. O álcool, que parecia ser tão sofisticado. As modas bestas que faziam estrondo, porque, quando você é adolescente, tudo é estrondoso.

Lady Bird – A Hora de Voar, é um tesouro de referências culturais. Todos os eventos da personagem principal são definidos por tendências que refletem Sacramento, cidade do norte da Califórnia – e os Estados Unidos em geral --, entre o fim de 2002 e o começo de 2003. Algumas, como a discussão sobre a música Hands in my Pocket, de Alanis Morissette, e a produção da escola do musical Merrily We Go Along, são atemporais. Outras pertencem à época retratada no filme.

Em uma entrevista com Gerwig, pedi que ela comentasse sete referências do filme. (Aviso: a lista contém uma imagem da revista Playgirl. Sim, aparecem pênis.)

Salve um cavalo, monte um caubói

O primeiro bailinho da escola a que Lady Bird vai tem tema do Velho Oeste – um "bailinho caubói", como descreve Gerwig.

"Save a Horse, Ride a Cowboy" (salve um cavalo, monte um caubói), o que está escrito nas camisetas cor-de-rosa usadas por algumas meninas, foi a primeira referência que mencionei para a diretora. "Essa eu não esperava", exclamou Gerwig.

"Essa veio de camisetas que eu realmente vi gente usando num bailinho com tema do Velho Oeste", disse ela. "É chupado da vida real".

Será que muita gente em Sacramento usou camisetas assim em 2002, uns dois anos antes de a frase ficar famosa na letra de uma música country?

"Não, só no baile", disse ela. "Tinha um bailinho em particular no qual as meninas usavam essa camiseta. O resto usava macacão".

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Uma História Popular dos Estados Unidos

Numa festa a que foi com a melhor amiga, Julie (Beanie Feldstein), Lady Bird vê um cara magricelo e de cabelo comprido (Timothée Chalamet) tocando guitarra numa banda de rock – a fantasia das fantasias. Ele é Kyle, estudante do último ano na escola católica só para meninos, cujos alunos vão à missa junto com Lady Bird e suas colegas (que estudam numa escola só para meninas).

Depois de começar a trabalhar num café – ela diz para a menina mais popular da escola que sua mãe quer que ela aprenda a ser responsável, mas ela também precisa do dinheiro --, Lady Bird encontra Kyle lendo numa das mesas do lado de fora. Quando ela se aproxima dele para um flerte vespertino, vemos que ele está lendo A People's History of the United States (Uma História Popular dos Estados Unidos, em tradução livre), o famoso livro de 1980 que reconta a história do país como fruto da opressão do povo pelas mãos da elite.

"A People's History of the United States foi muito importante para mim", disse Gerwig. "Li no ensino médio e foi uma revelação. Acho que li porque ele é mencionado em Gênio Indomável. Matt Damon diz para Robin Williams: 'Você lê todos esses livros, mas sabe o que deveria ler? A People's History of the United States, de Howard Zinn. Vai te virar de cabeça para baixo'. E eu, como boa nerd, pensei: 'Bom, vou pegar esse livro na biblioteca!' É um insight do que eu curtia na época, o tipo de pessoa que eu era."

"That's hella tight"

Quando Lady Bird encontra Kyle pela segunda vez, ele está num estacionamento com a turma dos descolados. A menina popular que Lady Bird quer impressionar diz que Kyle acabou de pichar o carro de uma freira, com as seguintes palavras: "Recém-casada com Jesus".

"Essa foi HELLA TIGHT", responde ele, com ar desinteressado.

HELLA TIGHT é uma gíria cujas origens estão no norte da Califórnia, onde se passa o filme. A expressão era muito importante durante a adolescência de Gerwig, assim como o adjetivo TIGHT.

"Na verdade, a versão mais engraçada, para mim, era quando você estava no ensino básico ou no começo do fundamental e seus pais brigavam com você, porque HELLA era tipo um xingamento", lembrou Gerwig. "Então as pessoas diziam HECKA TIGHT, ou HECK. Muito rebelde".

As Vinhas da Ira

No começo do filme, Lady Bird e sua mãe (Laurie Metcalf) estão no carro, voltando para casa depois de uma visita a faculdades. Estão chorando, ouvindo o final de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck, na versão em áudio. É um dos raros momentos de carinho entre as duas, que passam a maior parte do tempo brigando. Logo depois do fim do livro, começa uma discussão sobre a vontade de Lady Bird de estudar do outro lado do país, ou talvez "num lugar na floresta, onde moram os escritores".

"As Vinhas da Ira, para mim, foi um livro definitivo para entender a Califórnia e para entender como muitas das pessoas que aparecem no filme foram parar lá", disse Gerwig. "É provavelmente como a família de Lady Bird chegou à Califórnia. Sacramento fica na região agrícola, e muita gente que veio trabalhava no campo no interior dos Estados Unidos."

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Playgirl

Quando Lady Bird completa 18 anos, ela compra cigarros, um bilhete de loteria e uma revista Playgirl em uma loja de conveniência. Do lado de fora da loja, ela folheia a revista, cheia de homens pelados. Um cigarro está pendurado nos seus lábios. Ela cresceu, ou pelo menos é isso o que ela acha.

"Na verdade, nunca comprei uma Playgirl", disse Gerwig. "Nunca! Mas toda vez que pensava em Saoirse olhando para um monte de paus ficava rindo. Achei que ela devia comprar tudo o que podia depois de fazer 18 anos. Tipo 'ela pode comprar uma raspadinha, cigarro e uma Playgirl'. Para mim, aquele era o momento."

Crash Into Me, da Dave Matthews Band

"Sempre achei a música mais romântica do mundo", disse Gerwig, sem um pingo de ironia.

Ela estava convencida de que "Crash Into Me" seria a trilha da cena em que Lady Bird e Julie choram depois de sofrerem decepções amorosas. Ela nunca pensou numa alternativa.

"A música está no roteiro", disse ela. "É a música que eu queria. Não tinha ideia do que faria se Dave Matthews dissesse não. Escrevi uma carta para ele dizendo o quanto amava a música. Fiz meu pai me levar a um show dele. Quando estava na escola, ele me levou e ficou comigo o tempo todo, porque não tinha ninguém mais para me levar. [Matthews] disse sim, muito, muito gentilmente."

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O boato de que cigarros têm fibra de vidro

Tentando parecer chique numa festa, Lady Bird diz para Kyle que os primeiros cigarros que ela fumou eram de cravo. Por isso está acostumada com eles, brinca ela. Kyle, que enrola os seus próprios cigarros, pergunta se ela sabe que cigarros de cravo contêm fibra de vidro.

"Tinha uma vaga lembrança da discussão: 'Tem fibra de vidro ou não?'", disse Gerwig. "Não chequei nem nada. Tinha essa lembrança do pessoal falando, e foi muito legal: muita gente disse 'também ouvi esse boato! É verdade?' Ninguém sabia de nada, era puro chute. Alguém falou para alguém e a história se espalhou. É tipo lenda urbana. Vou morrer sem saber a verdade. Não quero saber. Estou mais interessada no boato."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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