MULHERES
24/01/2018 12:49 -02 | Atualizado 26/01/2018 17:32 -02

Quem foi Naomi Parker Fraley, a mulher que inspirou o cartaz feminista 'We Can Do It'

Fraley foi uma das milhões de norte-americanas que somaram à força de trabalho durante a Segunda Guerra Mundial.

Getty Images

As mulheres deste país precisam de ícones.

A frase acima é de Naomi Parker Fraley, em entrevista à revista People. À época, ela falou para a publicação sobre o fato de, logo jovem, ter estampado um cartaz para incentivar mulheres a trabalhar no lugar dos homens que tinham ido para a guerra. Anos depois, tornou-se símbolo do movimento feminista. Mas nem sempre ela foi identificada assim. Demorou mais de 70 anos para que viesse a público a verdadeira identidade da "Rosie the Riveter" ("Rosie, a rebitadeira", em tradução livre):

"Eu não conseguia acreditar porque era eu na foto, mas havia o nome de outra pessoa na legenda. Eu só queria a minha identidade. Eu não queria fama nem fortuna, só a minha identidade", destacou Fraley à revista quando posou para uma foto semelhante à de 1941, em setembro de 2016. "As mulheres deste país precisam de ícones. Se elas acham que eu sou um, fico feliz", ressaltou.

Fraley morreu aos 98 anos, no último sábado (20), em Longview (Washington) mas, segundo o New York Times, ela poderia facilmente ter morrido na obscuridade. "Ao longo dos anos, várias mulheres americanas foram identificadas como Rosie, a guerreira de 1940 (...). Mas por ser ofuscada por outras mulheres, a verdadeira Rosie demorou mais de 70 anos para ser conhecida", diz seu obituário no jornal.

A busca pela Rosie real é a "história de uma caçada ao tesouro intelectual", aponta o NYT. Mas é também a história da construção - e desconstrução - de uma lenda norte-americana iniciada por James J. Kimble, professor da Universidade Seton Hall. Durante seis anos, ele criou uma "verdadeira obsessão" por encontrar a mulher que estampou o cartaz até que, em 2015, chegou a Fraley.

Mais de 60 anos após a imagem ser divulgada, Fraley participou de uma convenção de mulheres que trabalharam durante a Segunda Guerra Mundial. Lá, ela viu a foto que pensou ter inspirado "Rosie the Riveter" e se reconheceu, segundo o NYT. Na legenda, no entanto, lia-se "Geraldine Doyle" que, durante muito tempo, foi erroneamente reconhecida como a trabalhadora.

A pesquisa de Kimble chegou ao fim quando ele encontrou a fotografia original que inspirou a ilustração e, nela, não havia o nome de Doyle, mas sim, o de Naomi Parker. Nela, estavam seu endereço e a data: 24 de março de 1942. Após um primeiro contato, Kimble visitou Fraley em 2015 e confirmou sua tese: ela era a verdadeira Rosie.

Em 2016, o professor publicou um artigo na Rhetoric & Public Affairs intitulado "Rosie's Secret Identity" (A identidade secreta de Rosie) que ganhou toda a imprensa norte-americana ao revelar a verdadeira identidade do ícone histórico. As imagens e toda a documentação estão disponíveis no site oficial criado para honrar a memória de Fraley.

A história de um símbolo

BETTMANN VIA GETTY IMAGES

Em 1942, Naomi Parker Fraley tinha apenas 20 anos quando, junto de sua irmã mais nova, Ada, começou a trabalhar na estação de aérea naval em Alameda, na Califórnia, como garçonete. O Japão havia acabado de atacar a base de Pearl Harbor, em 1941, e as mulheres eram recrutadas para serviços novos e instrumentais que, anteriormente, eram ocupados por homens. Entre eles estavam a produção de peças para aviões, a produção de armas, munições e também de suprimentos.

Foi nesta época que um fotógrafo que visitava a base californiana tirou uma foto de Fraley com a icônica bandana de bolinhas vermelhas e brancas enquanto trabalhava (foto acima). Mais tarde, o artista J. Howard Miller, a serviço do governo, viu a foto da jovem em jornais e decidiu desenhá-la como um cartaz de guerra.

Diferente de como é tomado hoje, a ideia do cartaz não era valorizar as mulheres. Tratava-se de um cartaz motivacional que, com a icônica frase "We Can Do It" (Nós Podemos Fazer Isso, em tradução livre) visava a estimular as mulheres a trabalhar intensamente no período da guerra. Somente no início da década de 1980 é que o cartaz foi redescoberto e passou a ter outro significado.

Ao longo dos anos, a imagem foi copiada e reproduzida inúmeras vezes -- ao passo que também se tornou símbolo do movimento feminista. No ano passado, uma das capas da revista The New Yorker foi exatamente o pôster reeditado, no qual uma mulher negra aparece fazendo a mesma pose, com a bandana substituída por um "pussy hat", usado na Marcha da Mulheres contra Donald Trump.

Reprodução/The New Yorker

Em março de 2017, o Senado norte-americano aprovou um projeto de lei que instaurou o "Dia Nacional da Rosie the Riveter", para honrar os esforços das trabalhadoras durante a guerra.

Parece que Fraley estava certa.

As mulheres precisavam de um ícone e criaram um.