MULHERES
24/01/2018 19:43 -02 | Atualizado 26/01/2018 10:28 -02

Por que crianças norte-americanas estão escrevendo livros sobre suas heroínas preferidas

"Meninas fortes precisam escrever textos fortes sobre outras mulheres fortes em nossas comunidades".

Sophia Hanson
National Youth Foundation co-founder Sophia Hanson (center, back row) with students who participated in a book-writing project earlier this year.

Numa época em que o noticiário traz histórias intermináveis sobre homens poderosos que agridem mulheres, uma iniciativa quer destacar histórias de mulheres fortes. Para isso, está incentivando crianças a escrever sobre elas.

A National Youth Foundation (Fundação Nacional da Juventude), uma pequena ONG que três mulheres da Pensilvânia fundaram no ano passado para promover a leitura e escrita e educar as crianças sobre justiça social, organiza concursos de redação de livros, abertos a crianças. O primeiro projeto teve como tema a tolerância. O tema do concurso mais recente foi "heroínas locais", algo que as crianças podem interpretar como quiserem.

Uma garota da Filadélfia escreveu um livro sobre Lady B, uma das primeiras rappers mulheres. No Wyoming, outra participante entrevistou a prefeita de Gillette, Louise Carter-King, a primeira mulher a ocupar a prefeitura da cidade.

Sophia Hanson, uma das fundadoras da National Youth Foundation, disse ao HuffPost em novembro que as notícias recentes sobre assédio sexual tornaram o tema do concurso ainda mais pontual e urgente.

"Este é um momento difícil para criar filhas meninas", disse Hanson, que tem duas filhas, de 7 e 11 anos. "Acho que o que estamos testemunhando em nossa sociedade é um desrespeito fundamental pela mulher. A mulher não é valorizada por seu trabalho, ela é vista como objeto. As estudantes que escrevem estes livros vão sentir respeito pelas mulheres."

Sophia Hanson
Students from a school in Kennett Square, Pennsylvania, working on a book about immigration and gender equality last summer.

Hanson e as co-fundadoras da ONG, Jamee Joppy e Carolyn Crawford, disseram que o concurso de redação foi lançado no ano passado, depois de a editora Scholastic ter encerrado um concurso nacional de redação de livro que promoveu por 30 anos. Hanson tinha sido voluntária, ajudando crianças a participar no concurso da Scholastic, do qual suas filhas tinham participado. Ela achou que o fim do concurso deixou "um vazio enorme".

A National Youth Foundation promove workshops de redação para crianças e adolescentes em comunidades de baixa renda, participando em salas de aula para ajudar estudantes a escrever um livro coletivamente e levá-lo à impressão.

Hanson, Joppy e Crawford trabalham como voluntárias na ONG sem fins lucrativos. A ONG depende de doações individuais e de alguns patrocínios de empresas.

"Promovemos a diversidade e igualdade por meio da leitura e escrita infantil", disse Hanson. "Ajudamos as crianças a contar histórias sobre maior tolerância no mundo. Isso mostra a elas como podem promover ações concretas."

Ajudamos as crianças a contar histórias sobre maior tolerância no mundo.Sophia Hanson, co-fundadora da National Youth Foundation.

Hanson, Joppy e Crawford disseram que decidiram chamar a atenção às líderes mulheres porque acham que poucas mulheres ganham reconhecimento por suas conquistas e contribuições para a sociedade.

Hanson se lembra de ter mandado suas filhas à biblioteca de uma grande escola tradicional americana este ano, pedindo que procurassem biografias de mulheres. Elas só conseguiram encontrar livros sobre Harriet Tubman (abolicionista americana) e a rainha Vitória.

Numa análise dos livros de história publicados em 2017, a "Slate" concluiu que mais de 70% das biografias escritas foram biografias de homens.

"Como você pode sonhar em ser alguma coisa que nunca viu? Se você nem sabe que isso existe?", explicou Hanson. "Geralmente lemos sobre as mesmas mulheres que já são famosas. Mas existe muito mais material sobre homens. Precisamos de histórias de mulheres para inspirar a próxima geração."

Sophia Hanson
A book written for this year's competition about tolerance.

O tema das heroínas locais, em especial, calou fundo com duas educadoras cujas alunas estão tomando parte do novo concurso. As educadoras disseram que, quando lhes pedem que citem mulheres notáveis, as alunas geralmente citam o nome de celebridades.

"Esta iniciativa é importante porque meninas fortes precisam escrever textos fortes sobre mulheres fortes em nossas comunidades", disse Maggie Unterseher, bibliotecária de uma escola primária de Gillette, Wyoming.

A imigrante holandesa Sandrien De Brujuin disse que o simples fato de tomar parte no concurso já é uma vitória tremenda para sua filha, Carlijn.

Quando sua família chegou aos Estados Unidos, três anos atrás, Carlijn tinha dificuldade em falar e ler inglês. No outono passado a garota, que está na quarta série, colou um aviso à sua porta: "Estou escrevendo um livro, favor não entrar!"

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Sandrien De Brujuin says this sign appears on her fourth-grader's bedroom door. 

As crianças que participam do concurso tiveram o prazo de até 4 de janeiro para escrever e ilustrar um livro de 20 a 30 páginas sobre uma mulher que admiram. O vencedor será anunciado em 26 de março e receberá um prêmio de US$500, além de ter seu livro impresso e distribuído a escolas e bibliotecas de todo o país. Dezenas de crianças de todo o país pretendiam enviar seus trabalhos até dezembro, e bibliotecas e escolas de pelo menos dez Estados anunciaram que darão destaque ao livro vencedor.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.