MULHERES

Sobre Aziz Ansari e sexo consentido que é violento, mesmo que não seja criminoso

Se quisermos que o movimento de denúncias dure, precisamos rever as narrativas sexuais que aceitamos desde sempre.

17/01/2018 15:38 -02 | Atualizado 17/01/2018 15:38 -02
Illustration: Gabriela Landazuri Saltos/HuffPost; Photo: Getty

Dois anos atrás uma amiga combinou um encontro para mim. Eu já tinha visto o sujeito numa festa e tínhamos trocado olhares, mas não conversado. Na semana seguinte ele conseguiu meu telefone e começamos a trocar torpedos. Acabamos indo a um bar juntos. O papo rolou fácil e o vinho era bom. Quando ele me convidou para ir à casa dele, eu topei.

No apartamento dele as coisas esquentaram rapidamente. Antes de eu ter tido tempo de processar as coisas realmente ele já tinha arrancado a roupa e me puxado para a cama. Começamos a transar – as preliminares não faziam parte da pauta da noite --, e "ruim" é a única palavra que tenho para descrever o que aconteceu. Me senti como um Fleshlight humano enquanto ele metia com força, fazendo minha cabeça bater repetidas vezes na parede de seu quarto. Ele não percebeu até que eu ergui minha mão para servir de barreira, quando ele então resmungou "desculpa" e continuou. Meu corpo amoleceu e eu fiquei olhando fixamente para o teto até ele terminar, rolar para o lado e fechar os olhos, sem me tocar ou falar comigo. Após alguns instantes de silêncio eu me levantei, me vesti e fui embora, praticamente sem trocar uma palavra com ele.

Uma semana mais tarde, recebi uma mensagem dele explicando que "o papo (e um pouco mais)" comigo tinha sido ótimo, mas ele procurava algo "de mais longo prazo". Mas eu não precisava me preocupar, ele não deixaria de ouvir meu podcast.

Um ano antes disso eu saí para um segundo encontro com um editor de livros, um sujeito respeitado. Ele era inteligente e um pouco nerd, e eu estava muito interessada nele. O lugar onde fomos era pertinho de meu apartamento, coisa que ele sabia, e depois de comermos ele se convidou para minha casa. Eu falei que sim, mas fiz questão de lhe dizer que ainda não queria transar. Ele concordou que ainda era cedo para isso, mas subiu mesmo assim para um último drinque.

Começamos com uns beijos e amassos, e chegou um momento que eu não estava curtindo mais, então eu lhe disse que estava cansada e queria encerrar a coisa ali. Ele se levantou e foi para o banheiro, e eu achei que tinha ficado claro que a noite acabaria ali. Quando ele voltou para meu quarto, eu ainda estava deitada na cama, sem parte da roupa. Ele ficou em pé diante de mim e começou a se masturbar. Depois de uns dez segundos – que me pareceram uma eternidade --, ele perguntou: "Tudo bem?" Eu estava congelada. Não queria fazer uma cena, deixá-lo constrangido ou ficar com cara de maluca. Me pareceu mais fácil simplesmente dizer "tudo", então foi o que eu fiz. Fiquei fazendo exercícios de aritmética na cabeça até ele gozar em cima da minha barriga, pegar um papel-toalha, limpar minha barriga e ir embora.

Que fique claro: acho que esses dois encontros não podem ser qualificados como agressão sexual e também não acho que os homens envolvidos tenham sido intencionalmente indiferentes e rudes. Mas nos dois casos a noite terminou comigo me sentindo suja e um pouco violada. Me perguntei por que tinha deixado esses homens entrarem em meu espaço pessoal ou por que tinha entrado no deles. Me perguntei por que eu não tinha declarado meus limites com mais clareza. Me perguntei por que eles prestaram tão pouca atenção ou se importaram tão pouco com meus sinais verbais e não verbais de desconforto e desinteresse. Me perguntei se esses homens também estariam repassando essas preocupações na cabeça, ou não.

Voltei a pensar nesses dois encontros quando li o relato feito por uma fotógrafa de 22 anos sobre seu encontro e subsequente transa com o ator e humorista Aziz Ansari. A fotógrafa, que se identifica apenas como Grace, descreveu uma noite em que Ansari – um homem famoso que faz TV bacana e conscientizada e que escreveu um livro inteiro sobre namoro e romance modernos – intensificou uma situação sexual repetidas vezes, dizendo que ele teria ignorado os sinais verbais e não verbais de Grace indicando que ela não estava à vontade. Ela descreve como em dado momento lhe disse: "Não quero me sentir forçada [a transar com você], porque então vou odiar você e prefiro não odiá-lo". Ela diz que alguns minutos depois ele lhe mandou se virar e fazer sexo oral nele. E ela fez. (Ansari disse que o encontro sexual "foi segundo todos os indícios completamente consensual".)

Se quisermos que o movimento #MeToo produza uma mudança cultural duradoura – e não apenas derrube alguns dos atores piores de um sistema falido --, precisamos rever as narrativas sexuais que aceitamos desde sempre. E isso requer ter conversas complicadas sobre sexo que nos incomoda, que nos faz sentir violadas, mas que não é criminoso.

Seria fácil olhar a história sobre Aziz Ansari e dizer que não passa de um exagero do movimento #MeToo. (A autora Caitlin Flanagan já tachou o sentimento de Grace de ter sido violada como mero arrependimento e descreveu o relato publicado do que aconteceu como "3.000 palavras de pornografia de vingança".) De fato, a história é menos nítida e mais confusa do que a maioria que ouvimos desde que a "grande hora da verdade" começou, em outubro. A conduta alegadamente imprópria de Ansari não é a mesma de Harvey Weinstein – nem de Matt Lauer, Charlie Rose, Kevin Spacey, Roy Moore ou Louis C.K. Mas se quisermos que o movimento #MeToo produza uma mudança cultural duradoura – e não apenas derrube alguns dos atores piores de um sistema falido --, precisamos rever as narrativas sexuais que aceitamos desde sempre. E isso requer ter conversas complicadas sobre sexo que nos incomoda, nos faz sentir violadas, mas que não é criminoso.

O encontro sexual que Grace descreveu se enquadra no que eu vejo como uma área cinzenta de sexo que nos ofende e incomoda, mas que não é criminal – o tipo de sexo que Rebecca Traister descreveu em 2015 como sendo "ruim de maneiras que merecem ser discutidas" ou que Jessica Valenti descreveu no Twitter como uma interação que "a sociedade vê como 'normal', mas que frequentemente é nociva".

É o tipo de sexo sobre o qual não apenas vale a pena falar, mas do qual é necessário falar. Não é preciso que comportamentos se enquadrem na definição legal de agressão sexual ou estupro para serem errados, ofensivos ou violadores. E, considerando que quase todas as mulheres com quem falei sobre a história envolvendo Aziz Ansari contaram um caso semelhante que aconteceu com elas, vale a pena refletir sobre por que isso acontece.

A julgar pelas declarações de Ansari e pelos torpedos que ele trocou com Grace após o encontro deles, que foram publicados no Babe.net, o ator ficou genuinamente chocado ao ouvir que Grace não interpretou as interações deles do mesmo modo que ele interpretou. "Ontem à noite pode ter sido bom para você, mas para mim não foi", Grace lhe escreveu. "Você ignorou sinais não verbais claros, você continuou com suas investidas."

"Lamento ouvir isso", Ansari escreveu de volta. "Evidentemente eu interpretei mal o que estava acontecendo no momento. Sinto muitíssimo."

(Esta é a mensagem que Grace enviou a Aziz Ansari após o encontro que a deixou se sentindo "violada". Ela diz a Ansari que ele a deixou muito incomodada, falando "você ignorou sinais não verbais claros" e "continuou com as investidas".)

Acredito que Ansari não percebeu naquele momento que estava ignorando os sinais de Grace, não verbais ou verbais. E isso é parte do problema. "Quando temos um comportamento sexualmente nocivo, partimos do pressuposto de que as pessoas encaram esses comportamentos sob a mesma ótica", disse ao HuffPost no ano passado Maia Christopher, diretora executiva da Associação de Tratamento de Agressores Sexuais. Mas frequentemente esse não é o caso. Iniciamos interações, sexuais ou não, com ideias diferentes sobre o que constitui uma violação.

Enquanto nossa sociedade começa a reconhecer os tipos de violações que as mulheres até agora tiveram medo de denunciar ou se sentiram desencorajadas a denunciar, precisamos não apenas abrir espaço para mais discussão – também precisamos atualizar nossos roteiros sexuais compartilhados. Precisamos introduzir uma nova linguagem e maneiras de falar nas áreas cinzentas, coisas que nos ajudem a levar a público as conversas desajeitadas e incômodas que somos obrigados a ter entre quatro paredes.

A linguagem que empregamos hoje para falar sobre consentimento é reconhecidamente complexa. Pesquisas mostram que homens e mulheres empregam sinais verbais em seu cotidiano para indicar "não" que não contêm explicitamente a palavra "não". Por exemplo, se uma pessoa lhe faz um convite social que você não quer aceitar, em lugar de responder "não, não quero", você pode dizer "parece ótimo, mas já tenho planos com uma amiga para esse dia" ou "não sei se vou conseguir". O mesmo tipo de táticas de comunicação aparece em situações sexuais. Em lugar de um "não" categórico as pessoas muitas vezes dizem coisas como "está ficando tarde", "outro dia, quem sabe" ou "da próxima vez".

Mas em um estudo de Celia Kitzinger e Hannah Frith publicado em 1999, as autoras concluíram que "homens e mulheres possuem uma capacidade sofisticada de transmitir e compreender recusas, incluindo recusas que não incluam a palavra 'não'", postulando que, quando homens alegam não entender esse tipo de recusa, podem estar, na realidade, dizendo isso para justificar seu comportamento coercivo. Uma análise de 2008 chegou a uma conclusão semelhante – que "os homens jovens compartilham o entendimento de que recusas verbais explícitas a fazer sexo são desnecessárias para transmitir efetivamente o não consentimento em fazer sexo".

Então o que está acontecendo aqui?

As mulheres são ensinadas desde a infância a zelar pelo bem-estar das pessoas em volta, especialmente se as pessoas em volta são homens. Como disse Maia Christopher, as meninas são ensinadas "desde a infância a estarem mais atentas para o ambiente que as cerca, a prestar atenção a potenciais ameaças". Muitos homens, pelo contrário, são ensinados que têm direito ao tempo, atenção e afeto físico das mulheres – e que, se essas coisas não lhes forem oferecidas voluntariamente, eles devem agir com agressividade e agarrá-las. Isso cria uma dinâmica em que as mulheres frequentemente cedem às necessidades dos homens em um esforço para evitar constrangimento, conflito verbal ou violência física, e em que pode nem sequer passar pela cabeça do homem checar o que a mulher precisa.

Reconhecer a existência dessa dinâmica não significa que devemos rotular todo os homens de monstros e todas as mulheres de pessoas fracas e impotentes. Significa que todos crescemos seguindo um roteiro sexual errado – dominado por perguntas como "ele/ela/eles disseram 'sim?" – que, em última análise, não funciona bem para ninguém.

Há uma razão por que muitas feministas defendem os modelos de consentimento afirmativos, também conhecidos como "sim quer dizer sim". Não conheço nenhum homem (ou mulher!) que queira sair de um encontro sexual na dúvida se foi ou não além do que a outra pessoa queria ou se deixou sua parceira sexual incomodada. A maioria de nós tem mais prazer no sexo quando a pessoa com quem transamos nos curte e curte a interação sexual. Consentimento entusiasmado não é preciso apenas para evitar um ato criminoso. É uma questão de fazer o sexo ser melhor para todo o mundo.

"Ninguém está dizendo que o sexo não possa ser complicado e perverso, que o prazer que ele nos dá não envolva, para algumas pessoas, um jogo com as velhas desigualdades de poder", escreveu Traister no mesmo texto de 2015. "Mas suas complicações podem e devem ser suportadas mutuamente, oferecendo graus comparáveis de satisfação e autodeterminação a mulheres e homens."

Algumas mulheres, muitas delas mulheres das gerações X ou baby-boomer que combateram a "negatividade sexual" na década de 1990, receiam que usar a história de Grace como ponto de partida para lançar essas discussões mais complexas e menos nítidas vai render um desserviço às vítimas "reais" de agressões sexuais "reais". Se você já passou por algumas dessas pequenas violações profissionais e pessoais e emergiu delas relativamente ilesa, com apenas alguns casos de "sexo ruim" para contar, talvez se espante com as mulheres que têm a audácia de questionar esses encontros ditos "normais". Mas, em lugar de correr para denunciar os excessos do #MeToo e do bando imaginário de feministas do milênio loucas para colocar Aziz Ansari na prisão, talvez este seja um momento para ouvir.

A reação contra a história de Grace já começou, com órgãos de mídia correndo para dar espaço no horário nobre para mulheres que se dispõem a denunciar outras mulheres. Vamos admitir que iniciar essas discussões não é fácil. Vamos precisar de mais do que apenas alguns textos de reflexão com títulos chamativos.

Precisamos ganhar a adesão de mulheres e homens de várias idades sem saltar para argumentos feitos de má-fé ou para generalizações simplificadoras. Precisamos que homens se envolvam e engajem outros homens na discussão, como Justin Baldoni começou a fazer com sua série "Man Enough". Precisamos fazer campanha para que discussões complexas sobre dinâmicas sexuais e consentimento afirmativo sejam incluídas nos programas de educação sexual. Como Maia Christopher me explicou, precisamos incentivar pais e professores de alunos da pré-escola a ensinar a seus filhos sobre consentimento, fazendo com que isso seja tão básico quanto ensinar criancinhas a olhar para os dois lados antes de atravessar a rua.

(Está claro que precisamos de uma linguagem melhor e mais definitiva para ter discussões nuançadas sobre o espectro do mal causado ao corpo e psique de mulheres em encontros sexuais ruins. Podemos construir essa linguagem juntos se continuarmos a conversar sobre isso.)

As mulheres jovens, como Grace, têm a liberdade de lutar por uma renegociação dos termos em sua vida sexual e profissional, porque essa vida está apenas começando. É assim que a cultura funciona: ela se transforma, se desloca e é empurrada para frente, frequentemente pelos mais jovens e imaginativos entre nós.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.