MULHERES

Por que ninguém parece se importar com as 140 mulheres abusadas por Larry Nassar

Sobreviventes dos abusos do médico que antes trabalhava para a Federação de Ginástica dos EUA ainda se esforçam para serem ouvidas.

16/01/2018 19:28 -02 | Atualizado 16/01/2018 19:47 -02

JEFF KOWALSKY/AFP/Getty Images
Former USA Gymnastics team doctor Larry Nassar has pleaded guilty to multiple counts of criminal sexual conduct.

Cento e quarenta mulheres, acusaram Larry Nassar, ex-médico da Michigan State University e da equipe de ginástica olímpica da USA Gymnastics (a Federação de Ginástica dos EUA), de agressão sexual. É quase o total das vítimas nos escândalos de Jerry Sandusky, Bill Cosby e Harvey Weinstein, somadas.

Simone Biles, 20 anos, multimedalhista olímpica, também revelou nesta terça-feira (16) que é uma das "muitas sobreviventes" que foram abusadas por Nassar. No entanto, o nome de Nassar não domina os noticiários nacionais e internacionais. Não há pessoas fazendo protestos diante de sua casa. Nassar não virou tema dos talk shows noturnos.

A sentença foi anunciada para hoje, dia 16 de janeiro, e muitas das vítimas de Nassar ainda se perguntam a mesma coisa: por que ninguém parece se importar com a história delas?

"Me recordo do escândalo da Universidade Penn State, que foi comentado durante meses e meses, até anos. Este escândalo envolve quase cinco vezes mais pessoas, mas ninguém está sabendo dele", disse ao HuffPost a sobrevivente de agressão sexual Morgan McCaul.

Dançarina e aluna do primeiro ano da universidade, McCaul é uma de dezenas de querelantes citadas de modo anônimo em ações judiciais movidas contra Larry Nassar, a MSU e a USA Gymnastics. A estudante de 18 anos contou que Nassar começou a agredi-la sexualmente em 2012, quando ela tinha 12 anos, e que as agressões continuaram por três anos.

McCaul conta que em muitas ocasiões tem que explicar a professores por que é obrigada a faltar a uma aula ou um exame porque tem que comparecer ao tribunal. Em muitos casos, ela contou, os professores não têm conhecimento do caso de Nassar.

"É difícil encarar isso, especialmente porque são pessoas que eu esperava que estivessem informadas sobre esses assuntos", disse McCaul, aluna da Universidade do Michigan em Ann Arbor, a apenas uma hora de distância da MSU. "Mesmo pessoas que dão aula em universidades não tinham conhecimento do que estava acontecendo."

'Não percebi nenhum sentimento de ultraje público'

O HuffPost conversou com seis sobreviventes que estão processando Larry Nassar, a MSU e/ou a USA Gymnastics: McCaul, Alexis Alvarado, Jessica Smith, Christine Harrison, Larissa Boyce (todas as quais vieram a público falar do que aconteceu depois que as ações judiciais foram registradas) e "Jane Doe" ("Fulana de Tal", nome fictício dado a uma mulher que quer ficar anônima). As seis mulheres – três ginastas, duas dançarinas e uma jogadora de futebol – compartilham a impressão de que o país parece não se importar com o que aconteceu com elas.

"Não percebi nenhum sentimento de ultraje público", disse Boyce. Ela alega que Larry Nassar começou a agredi-la sexualmente quando ela tinha 16 anos e continuou de 1997 a 2001.

Muita gente parece pensar que esses abusos sexuais foram cometidos apenas com ginastas olímpicas. Não é verdade. Alexis Alvarado, uma das atletas que acusa Larry Nassar.

Alvarado acha que o país essencialmente ignorou o trauma imposto a ela e às outras mulheres e que o fez porque elas não são atletas famosas. Ela, que está com 19 anos, disse que Nassar a agrediu por seis anos, começando quando ela tinha 12 anos de idade.

"Muita gente parece pensar que esses abusos sexuais foram cometidos apenas com ginastas olímpicas. Não é verdade", ela.

Ela não deixa de ter razão. Graças ao ótimo trabalho de veículos de mídia locais, o escândalo envolvendo Nassar abalou a MSU e a comunidade de East Lansing, onde a universidade se situa. Mas parece que as únicas ocasiões em que o nome de Nassar chegou aos noticiários nacionais foram quando ginastas olímpicas – incluindo Aly Raisman, Gabby Douglas e McKayla Maroney – vieram a público denunciar o antigo médico da equipe.

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Nassar survivors Larissa Boyce, Alexis Alvarado, Christine Harrison and Jessica Smith (left to right) pose for a picture in court after the Nov. 22, 2017, hearing in which Nassar pleaded guilty to criminal sexual conduct.

Outas sobreviventes acham que suas histórias não chegaram às manchetes das primeiras páginas pelo fato de elas serem atletas mulheres.

"Acho que a questão é a importância que damos aos atletas homens, versus as mulheres", disse McCaul. "Este caso envolve ginastas, dançarinas e patinadoras artísticas, não jogadores de basquete ou futebol americano. Francamente, acho que é um problema de sexismo. Não existe outra explicação possível para o fato de tantas mulheres terem denunciado Nassar e o caso não ter sido muito divulgado."

Smith disse que Nassar a agrediu por alguns meses quando ela tinha 17 anos. Ela também enxerga uma ligação entre a identidade das vítimas de Nassar e a falta de atenção pública para o caso.

"É difícil pensar que, se eu fosse uma ginasta olímpica, a situação talvez fosse diferente. Se eu fosse jogador de futebol americano ou jogador de basquete na MSU, talvez o público e a MSU, como instituição, se preocupassem mais", ela comentou.

Décadas de abusos cometidos por médico de confiança

Nassar, 54 anos, abusou sexualmente de jovens atletas – muitas delas ginastas e dançarinas de alto nível – durante décadas, sob o disfarce de lhes prestar atendimento médico. Segundo documentos do tribunal, ele conquistava a confiança das meninas e suas famílias. Sob o disfarce de estar fazendo exames médicos das atletas, ele as apalpava e penetrava digitalmente na vagina e no ânus.

Nassar atendeu muitas das atletas durante anos, pelo fato de ser médico da equipe de ginástica da USA Gymnastics, de várias equipes esportivas da MSU e praticar medicina esportiva no ginásio de treinamento Twistars, da equipe de ginástica do Michigan.

As primeiras acusações contra Nassar vieram à tona em setembro de 2016, um ano antes da ascensão explosiva do movimento #MeToo. A USA Gymnastics já o havia demitido em 2015, e depois disso ele foi demitido de seu cargo de docente na MSU. Em dezembro de 2016 ele foi preso pela posse de pelo menos 37 mil imagens de pornografia infantil, e em julho de 2017 se confessou culpado de pelo menos três acusações federais relacionados à pornografia infantil. Em dezembro passado Nassar foi condenado a 60 anos de prisão.

Brian Snyder / Reuters
Larry Nassar and members of the U.S. national gymnastics team prepare the day before the London 2012 Olympic Games began.

Em novembro do ano passado Nassar também se confessou culpado de dez acusações de erro de conduta sexual em primeiro grau. Ele aguarda ser sentenciado por esses crimes. Em declaração ao tribunal, ele se disse "terrivelmente arrependido" do que fez e falou que espera que as vítimas e a comunidade possam se recuperar.

Pelas acusações de erro de conduta sexual, ele receberá sentença mínima de 25 anos de prisão. Consta que a promotoria pública do Michigan pediu ao juiz que o condene a entre 40 e 125 anos de prisão.

"Estou farta de ver a MSU tentando sair bem na foto, em lugar de fazer o que era certo"

Nassar foi condenado como agressor sexual tanto pela justiça quanto pela opinião pública, e é provável que morra na prisão. Mas o que dizer das instituições que fizeram vista grossa para seus crimes, permitindo que ele continuasse a cometê-los por tanto tempo?

Muitas das vítimas do médico dizem que contaram a seus pais, treinadores, treinadores da MSU e até à polícia sobre o que acontecia a portas fechadas. Inúmeras vezes as denúncias das meninas foram alegadamente descartadas ou varridas para debaixo do tapete.

"Estou farta de ver a MSU tentando sair bem na foto em vez de fazer o que era certo", disse Jessica Smith.

Vários funcionários da universidade não teriam obedecido às normas compulsórias sobre denúncias, quando foram informados sobre as agressões. A médica da MSU Brooke Lemmen e a treinadora de ginástica da MSU Kathie Klages, confrontadas com acusações crescentes, pediram demissão. Em dezembro o diretor da Faculdade de Osteopatia da MSU, William D. Strampel, tirou licença médica de seu cargo. O presidente da USA Gymnastics, Steve Penny, renunciou a seu cargo em março de 2017, após um inquérito público sobre o caso.

Jessica Smith e as outras mulheres que falaram com o HuffPost acham que nenhum deles recebeu punição condizente com seus erros.

"Acho que todo o mundo a quem as vítimas denunciaram o que estavam sofrendo ou que tinham conhecimento do que estava acontecendo e não fizeram nada deveria ter sido demitido imediatamente, e isso não aconteceu", disse McCaul. "Acho que isso transmite às vítimas a mensagem de que as pessoas que fizeram o que essas pessoas fizeram não vão sofrer consequências."

É um insulto o fato de as vítimas precisarem implorar por respostas para explicar por que Nassar foi autorizado a continuar durante tanto tempo a fazer o que fazia. Christine Harrison, acusadora de Nassar

Boyce sabe em primeira mão o que acontece quando pessoas em posições de poder não cumprem normas sobre denúncias. Ela disse que contou a Klages sobre o comportamento de Larry Nassar em 1997 e que a treinadora lhe disse que ela com certeza interpretou erroneamente um procedimento médico. Boyce, que tinha 16 anos na época, ficou tão confusa e envergonhada que continuou a ser atendida por Nassar durante anos, tempo durante o qual ele continuou a agredi-la.

Klages não respondeu imediatamente ao pedido de declarações feito pelo HuffPost.

"Parece que a MSU, a USAG e o Twistars nos enxergam apenas como um ônus financeiro, pessoas que precisam ser silenciadas, reprimidas, desvalorizadas e desacreditadas, ao mesmo tempo em que eles dizem que lamentam o que aconteceu conosco e estão do nosso lado", valou Boyce. "Eles negam qualquer responsabilidade; dizem que não sabiam que havia um predador entre eles. Isso é um tapa na cara das sete meninas que nos últimos 20 anos disseram a vários funcionários da MSU o que estava acontecendo, e os funcionários não fizeram nada. Isso por acaso não é uma demonstração de negligência absoluta?"

Para Harrison, a resposta da universidade às alegações fez um processo que já era doloroso ficar muito mais difícil.

"É um insulto o fato de as vítimas precisarem implorar por respostas para explicar por que Nassar foi autorizado a continuar durante tanto tempo a fazer o que fazia", disse Harrison. "A MSU não assumiu responsabilidade pelo que deixou que acontecesse. Essas pessoas que permitiram que os abusos continuassem deveriam ser acusadas criminalmente, e uma investigação completa devia ser aberta, mas ainda não vimos nada disso acontecer."

A MSU negou que tenha acobertado o comportamento de Larry Nassar de qualquer maneira.

"Qualquer sugestão de que a universidade tenha acobertado a conduta hedionda de Nassar é falsa, simplesmente", disse ao HuffPost o porta-voz da MSU Jason Cody. "Nassar atacava suas vítimas e transformou a vida delas de maneiras terríveis. Como disse o diretor Simon, da MSU, a universidade lamenta profundamente as agressões que as vítimas sofreram, a dor que isso causou e a dor que continua a causar."

Na sexta-feira a MSU e a Twistars registraram moções separadas pedindo o arquivamento das ações movidas contra suas organizações. A USA Gymnastics fez o mesmo no mês passado, alegando o estatuto de limitações.

"A conduta de Nassar é hedionda. A USAG deplora seus crimes. Mas é Nassar, e não a USA Gymnastics, o responsável por seus atos criminosos", escreveu o advogado da USA Gymnastics, Andrew Portinga.

"Não somos simples Fulanas de Tal – somos indivíduos com sentimentos"

McCaul e dezenas de outras vítimas de Nassar pretendem ler declarações de impacto na audiência de anúncio de sentença do médico, que começa nesta terça-feira. Na declaração de McCaul, ela fala de seu sonho de tornar-se médica.

"Estou cursando pré-medicina. Às vezes questiono se ainda acredito que médicos podem ser boas pessoas", ela escreveu.

As seis mulheres que falaram com o HuffPost comentaram como tem sido difícil vir a público com seus relatos. Mais de uma delas descreveu a experiência como "uma montanha-russa emocional". Muitas delas pretendem usar suas declarações de impacto para falar dos efeitos que a violência de Nassar teve sobre elas: depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, enxaquecas extremas, ataques de pânico, problemas de estômago, sentimentos de vergonha, insônia, pensamentos suicidas – a lista é interminável.

Mas todas disseram que encontraram conforto e consolo em estar juntas.

Harrison espera que o público entenda que por trás de cada "Fulana de Tal" citada nessas ações judiciais há uma mulher jovem que combate anos de trauma.

"A violência cometida contra nós, sobreviventes, é algo que vai nos afetar pelo resto da vida", disse Harrison. "Eu vim a público compartilhar minha história e identidade porque outras pessoas precisam saber que não somos simples Fulanas de Tal – somos indivíduos com sentimentos."

Smith, que hoje é professora de dança, contou que em novembro ela olhou para suas alunas, muitas das quais são meninas pequenas, e entendeu que precisava ir a público com sua história. No dia em que suas acusações foram divulgadas publicamente, uma aluna de 7 anos lhe deu um cartão enfeitado com glitter e corações. O cartão dizia "Você é minha heroína".

"Olhei para ela e segurei as lágrimas. Ela estava sorrindo, um sorriso enorme", disse Smith. "Ela não fazia ideia que seu pequeno gesto me tinha dado tanta confiança."

Não silencie!

"Foi só um empurrãozinho", "Ele só estava irritado com alguma coisa do trabalho e descontou em mim", "Já levei um tapa, mas faz parte do relacionamento". Você já disse alguma dessas frases ou já ouviu alguma mulher dizer? Por medo ou vergonha, muitas mulheres que sofrem algum tipo de violência, seja física, sexual ou psicológica, continuam caladas.

Desde 2005, a Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, funciona em todo o Brasil e auxilia mulheres em situação de violência 24 horas por dia, sete dias por semana. O próximo passo é procurar uma Delegacia da Mulher ou Delegacia de Defesa da Mulher. O Instituto Patrícia Galvão, referência na defesa da mulher, tem uma página completa com endereços no Brasil. Clique aqui.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.