MULHERES
11/01/2018 17:30 -02 | Atualizado 11/01/2018 17:33 -02

Exclusivo: A carta aberta de Mira Sorvino a Dylan Farrow

“Eu lhe mando amor, inclusão e admiração por sua coragem durante este tempo todo.”

Cara Dylan,

Alô. Peço desculpas por esta ser a primeira vez que eu me dirijo a você por escrito. Será o primeiro de vários pedidos de desculpas que farei hoje. Escrevo para manifestar que acredito em você e lhe dou meu apoio.

Confesso que na época em que trabalhei para Woody Allen eu era uma atriz jovem e ingênua. Aceitei sem questionar a versão da mídia segundo a qual sua acusação de que seu pai a molestou teria sido fruto de uma briga intransigente entre Mia Farrow e ele em torno da guarda dos filhos deles. E não me aprofundei mais na situação, coisa que lamento muitíssimo. Por isso também devo um pedido de desculpas a Mia.

O que vou dizer a seguir não é uma tentativa de me justificar, apenas uma descrição de minha interação com Woody na época e desde então. Adolescente, eu guardava com carinho meu exemplar do livro de Woody "Without Feathers". Fiz o papel de Diane Keaton numa produção de "Sonhos de Um Sedutor" feita no meu colégio, e, como tantas pessoas de minha geração, cresci admirando os filmes de Woody. Quando eu era atriz jovem ganhei um papel dos sonhos, o de Linda Ash em "Poderosa Afrodite", e a liberdade artística que ele me deu para criar a personagem foi emocionante. Tínhamos uma relação amigável, mas não íntima, e ele nunca passou dos limites comigo de nenhuma maneira; eu, pessoalmente, nunca vivenciei o que agora vem sendo descrito como seu comportamento inapropriado com meninas. Mas isso não justifica que eu ignore o que aconteceu com você, apenas porque eu queria tanto que não tivesse acontecido.

É difícil cortar laços e denunciar nossos heróis, nossos benfeitores, que admiramos com carinho e a quem sentimos uma dívida de gratidão pela existência de toda nossa carreira. Decidir que, embora eles possam ser fantasticamente talentosos e possam nos ter ajudado tremendamente, acreditamos que eles cometeram atos indesculpáveis. Mas é nesse ponto que estamos hoje.

Em dezembro telefonei a seu irmão Ronan, compartilhando com ele o que aconteceu desde que eu fui a público para falar de Harvey Weinstein. Contei a ele que foi uma experiência às vezes empoderadora, às vezes amarga e de partir o coração, à medida que mais e mais detalhes foram saindo sobre o mal oculto que esse homem me fez. Contei a Ronan que eu me senti por algum motivo mais vulnerável (se bem que grata, com certeza) quando milhões de pessoas me demonstraram apoio online, como se minha vida tivesse sido reduzida àquela vitimização. Falei a Ronan que eu queria saber mais sobre você e sua situação. Ele me indicou informações publicamente disponíveis sobre o caso, informações que eu lamento que nunca tinha visto e que fizeram começar a sentir que as evidências comprovavam fortemente seu relato. Que você tinha dito a verdade desde o começo.

Sinto muitíssimo, Dylan! Nem consigo começar a imaginar como você se sentiu esses anos todos, vendo alguém que você denunciou por tê-la ferido quando você era criança, quando era uma garotinha vulnerável sob os cuidados dele, sendo elogiado reiteradamente, inclusive por mim e inúmeros outros em Hollywood que o elogiaram e ignoraram você. Como mulher e como mãe isso me deixou com o coração partido por você. Sinto tanto, tanto!

Estamos numa época e num momento em que tudo precisa ser revisto. Não podemos deixar que esse tipo de violência continue. Se para isso for preciso derrubar todos os velhos deuses, que seja. A dissonância cognitiva, a negação e a covardia que nos poupam de encarar verdades dolorosas e nos impedem de agir em defesa de vítimas inocentes, ao mesmo tempo deixando que indivíduos "amados" continuem a praticar comportamentos hediondos, precisam ser rejeitados do fundo de nossos corações. Mesmo que você ame alguém, se descobrir que a pessoa cometeu esses atos desprezíveis a pessoa precisa ser exposta e condenada, e essa exposição precisa ter consequências. Nunca mais vou trabalhar com Woody Allen.

Eu lhe mando amor, inclusão e admiração por sua coragem durante este tempo todo. Acredito em você! Estou grata a você e admiro sua coragem e integridade, você, uma mulher que foi obrigada a ficar virtualmente sozinha todos estes anos proclamando sua verdade dolorosa. Você é uma heroína de verdade, e eu estou com você.

Com gratidão e solidariedade,

Mira Sorvino

Mira Sorvino é atriz, ativista e mãe. Desde 2009 ela é Embaixadora da Boa Vontade do UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime) para o Combate ao Tráfico Humano.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.