MULHERES
09/01/2018 17:04 -02 | Atualizado 10/01/2018 14:24 -02

Onde estavam todos aqueles 'homens fenomenais' no Globo de Ouro?

Eles vestiram preto, mas disseram pouco.

Mario Anzuoni / Reuters
O escritor e diretor Martin McDonagh usa um broche do movimento "Time's Up" no tapete vermelho do Globo de Ouro 2018.

Uma mensagem unificadora saiu do Globo de Ouro 2018: "Time's up". Acabou-se o tempo das indústrias que protegem agressores e de um mundo que tenta silenciar pessoas de todos os gêneros que denunciam assédio e agressão sexual.

Laura Dern apontou para uma cultura que silencia as vítimas e fez um chamado por "justiça restaurativa". Frances McDormand falou do "abalo tectônico na estrutura de poder de nossa indústria". Natalie Portman fez a escolha corajosa de criticar o fato de todos os indicados na categoria de melhor direção serem homens, no momento em que os apresentou, e Barbra Streisand expressou horror por ser a única mulher a já ter ganho nessa categoria – em 1984. Meryl Streep, Michelle Williams, Amy Poehler, Laura Dern, Susan Sarandon, Emma Watson e Emma Stone utilizaram seu poder como estrelas para destacar suas acompanhantes na noite: as ativistas Ai-jen Poo, Tarana Burke, Saru Jayaraman, Monica Ramirez, Rosa Clemente, Marai Larasi e Billie Jean King.

Nem um único homem que foi homenageado no Globo de Ouro usou seu discurso para se solidarizar com suas colegas mulheres nem para sequer mencionar a desigualdade de gênero, o assédio ou agressão sexual.

Numa época em que as cerimônias de premiação em Hollywood às vezes são entediantes, frívolas e parecem sem sentido, o Globo de Ouro enfaticamente não foi nada disso. "Quero que todas as meninas que estão assistindo aqui hoje saibam que um novo dia está no horizonte!", disse Oprah, emocionando a plateia. "E, quando esse novo dia finalmente nascer, será graças a muitas mulheres magníficas, várias das quais estão aqui neste recinto hoje, além de alguns homens fenomenais que estão lutando duro para tornar-se os líderes que nos levem para um tempo em que ninguém mais precisará dizer 'eu também'."

Mas quem se fez notar por sua ausência desse movimento voltado ao público? Os acima citados "homens fenomenais".

Apesar do mar de homens de terno preto usando broches de "Time's up", nem um único homem que foi homenageado no Globo de Ouro usou seu discurso para se solidarizar com suas colegas mulheres nem para sequer mencionar a desigualdade de gênero, o assédio ou agressão sexual. Esse desequilíbrio esteve presente também no tapete vermelho, onde quase todas as mulheres tiveram que responder a perguntas sobre o significado de seus trajes pretos, enquanto aos homens se pediu que divulgassem seus projetos mais recentes. (Vale ressalvar que o apresentador da cerimônia, Seth Meyers, falou sobre o assédio e agressão sexual em Hollywood já em seu monólogo de abertura, citando nominalmente figuras destacadas de Hollywood acusadas de ser predadores sexuais, como Harvey Weinstein, Kevin Spacey e Woody Allen).

Os espectadores tomaram nota do silêncio dos homens. "Podemos reservar um momento para homenagear todos os homens incríveis no Globo de Ouro que usaram seus discursos para solidarizar-se corajosamente com as mulheres hoje", escreveu a usuária do Twitter Brown-Eyed Amazon, com uma foto de um auditório vazio.

A diferença de gênero mostra que alguns homens sentem que violência sexual, assédio sexual e desigualdade de gênero são problemas que não lhes dizem respeito.

"Eles têm a possibilidade de escolher", comentou Kristen Houser, diretora de assuntos públicos do Centro Nacional de Combate à Violência Sexual. "Eles não são obrigados a comentar. E talvez não o façam porque ainda não tenham entendido que a violência sexual impacta o bem-estar deles, também. Deve ser ótimo sentir que você não precisa participar."

O fato de os homens célebres presentes terem se sentido no direito de passar ao largo da discussão sobre machismo e agressão na indústria chamou a atenção especialmente porque alguns dos atores foram premiados por papéis que tratavam especificamente de violência sexual. Sam Rockwell foi premiado por seu papel de policial que investigou o estupro e assassinato de uma adolescente em Três Anúncios para Um Crime. Alexander Skarsgard levou um Globo de Ouro pelo papel do molestador em série Perry Wright em Big Little Lies. Os dois elogiaram as atrizes com quem contracenaram, mas nenhum deles falou de como homens perpetuam uma cultura de violência sexual.

Pode ser complicado homens se aliarem publicamente a uma causa, e alguns deles (e seus agentes) podem ter decidido que seria melhor se limitarem a comparecer vestidos de preto. Quando membros de qualquer comunidade privilegiada decidem elevar a voz em prol de um grupo do qual não fazem parte, sempre existe o risco de cometerem alguma gafe que será flagrada por muitos ou de serem acusados de falta de sinceridade. Os homens que vão a público falar sobre masculinidade tóxica e desigualdade de gênero tendem a ser festejados pela mídia de uma maneira que em última análise pode deixar em segundo plano o trabalho feito por mulheres e pessoas de gênero não conforme. (Veja o caso da discussão interminável sobre o status de "conscientizado" do ator Matt McGorry). Isso faz com que o ativismo seja uma iniciativa de relações públicas um tanto arriscada, algo que uma figura pública precisa analisar previamente para decidir se vale a pena incorrer em potenciais controvérsias e críticas.

E homens que não vivem sob o olhar público tendem mais a seguir o exemplo de homens famosos e poderosos que o exemplo de mulheres.

"Eles têm medo de não entender o problema direito e de dizer alguma coisa que os faça parecer estúpidos ou equivocados. Têm medo de ser ofensivos sem querer", disse Kristen Houser. "Você é uma celebridade na televisão nacional. Se disser alguma coisa estúpida, o Twitter vai multiplicar suas palavras e elas serão perpetuadas para sempre."

Mas é imperativo que os homens tomem a decisão de fazer a coisa certa, apesar do risco. O sexismo e a violência sexual impacta também os homens, com certeza – tanto como vítimas de abuso (Terry Crews e Corey Feldman) como indivíduos obrigados a orientar-se em um mundo que define a masculinidade de modo muito restrito.

E homens que não vivem sob o olhar público tendem mais a seguir o exemplo de homens famosos e poderosos que o exemplo de mulheres. "O sexismo está em toda parte. Temos que reconhecer esse fato", disse Houser. "Se essa é a realidade na América, talvez os homens consigam ouvi-la melhor quando sai da boca de outros homens. Portanto, homens, se apresentem! Precisamos que os homens divulguem as realidades e verdades que as mulheres vêm denunciando."

Existe também a possibilidade desanimadora de que muitos homens que assistiram ao Globo de Ouro, mesmo os que usavam ternos pretos e o broche, não são bons aliados na vida profissional e pessoal. A atriz Zoe Kazan tuitou na noite de domingo que é "super a favor da solidariedade e do protesto visível, mas há pelo menos um homem aqui usando o broche #TIMESUP que é o exato oposto de um aliado." Ela disse mais tarde que não teve a intenção de criticar um indivíduo qualquer especificamente, mas que pretendeu dizer algo que "provavelmente era fato". Há uma razão por que, quando Meyers, no início da cerimônia, disse brincando que "para os indicados homens aqui presentes hoje, esta é a primeira vez que não será assustador ouvir seu nome ser lido em voz alta", alguns homens na plateia aparentaram estar muito pouco à vontade.

Talvez esse desconforto seja uma coisa positiva. Afinal, transformações muitas vezes são profundamente incômodas, especialmente quando exigem que as pessoas admitam e abram mão de privilégios. Mas, em vez de ficar tentando silenciosamente apresentar-se como aliados, os homens deveriam expor seu desconforto, encará-lo abertamente e tomar uma atitude para corrigi-lo.

"Se você não faz parte da solução, é muito fácil acabar sendo retratado como parte do problema", disse Houser.

Seu tempo acabou, cavalheiros.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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