MULHERES
14/12/2017 12:03 -02 | Atualizado 14/12/2017 14:30 -02

'Harvey Weinstein foi meu monstro': O assombroso relato do assédio sofrido por Salma Hayek

O diretor de Hollywood chegou a ameaçar a atriz de morte.

Carlo Allegri / Reuters
Em artigo publicado no jornal americano The New York Times nesta terça-feira (12), a atriz revela os detalhes da perseguição sofrida.
Harvey Weinstein um cinéfilo apaixonado, um patrono de talento no cinema, um pai amoroso e um monstro. Durante anos, ele foi meu monstro.

Assim a atriz Salma Hayek começou a tornar público o que a aterrizou secretamente por anos: o assédio e a ameaça de morte que sofreu do diretor de cinema Harvey Weinstein. Em artigo publicado no jornal americano The New York Times nesta terça-feira (12), a atriz revela os detalhes da perseguição.

Seu inferno começou enquanto perseguia seu sonho: transformar em filme a história da artista plástica mexicana Frida Kahlo. A coragem e a resistência de Frida eram inspirações para a atriz e, para honrar sua estrela, ela não queria menos do que uma obra sofisticada.

A sofisticação era um "sinônimo" das produções do diretor Harvey Weinstein na época. E por isso Hayek lutou para que sua história também fosse produzida por ele. O peso de ser mulher e mexicana em Hollywood era grande nos anos 1990. Assim, aceitou as más condições que Weinstein lhe ofereceu para produzir Frida.

A partir de então, passou a viver uma série de investidas:

"Era a minha vez de dizer não.

Não para abrir a porta a ele a todas horas da noite, hotel após hotel, locação após a locação, onde ele se aparecia inesperadamente, incluindo uma locação onde eu estava fazendo um filme com o qual ele nem estava envolvido.

Não para tomar banho com ele.

Não para deixá-lo me ver tomar banho.

Não para deixá-lo me dar uma massagem.

Não para deixar um amigo nu dele me dar uma massagem.

Não para deixá-lo me dar sexo oral.

Não para ficar nua com outra mulher.

Não não não não não ...

A raiva de Weinstein cresceu e a violência se intensificou. Salma Hayek foi acordada com uma ligação furiosa no meio da noite; foi fisicamente arrastada para fora de um baile de gala e lavada à força para uma festa com prostitutas,; foi, por fim, ameaçada de morte: "Eu vou te matar, não pense que eu não posso".

Hayek era cada vez mais desumanizada pelo produtor: "a seus olhos, eu não era uma artista. Eu sequer uma uma pessoa. Eu era uma coisa: não alguém, mas um corpo". Para o produtor, a sensualidade era o único atributo de Hayek e ele insistiu o quanto pode para que ela usasse "sex appeal" em sua Frida. Segundo Hayek relata, ele chegou a exigir que ela protagonizasse uma cena de sexo com outra mulher como condição única para continuar interpretando a personagem.

"Cheguei no set no dia em que gravaríamos a cena que eu acreditava que salvaria o filme. E pela primeira e última vez na minha carreira, tive uma crise nervosa: meu corpo começou a tremer incontrolavelmente, minha respiração era curta e comecei a chorar e chorar, incapaz de parar, como se estivesse atirando lágrimas. [...] Naquele ponto, comecei a vomitar. Tive que tomar um tranquilizante, o que eventualmente parou o choro, mas piorou o vômito."

Foi em 2003 que Salma viveu este inferno. E foi apenas em 2017 que ela encontrou a coragem de torná-lo público, inspirada por todas as mulheres que denunciaram Harvey Weinstein por assédio sexual e alegações de estupro nos últimos dois meses, a partir de reportagens do jornal The New York Times e da revista The New Yorker.

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