ENTRETENIMENTO
08/12/2017 14:57 -02 | Atualizado 08/12/2017 15:06 -02

O caso de 'yellowface' envolvendo editor-chefe da Marvel e a reação de roteiristas asiáticos

“Tantos asiáticos de verdade não têm acesso a esse tipo de oportunidade."

Jun Sato via Getty Images
C.B. Cebulski 

Roteiristas asiáticos estão reagindo à revelação de que o novo editor-chefe da Marvel, C.B. Cebulski, se fez passar por um roteirista de origem asiática durante um ano.

Joshua Luna e Trung Le Nguyen, ambos envolvidos em projetos ligados à experiência dos asiáticos-americanos, conversaram com o The Huffington Post depois da admissão de Cebulski. O novo editor-chefe confirmou que escreveu durante um ano sob o pseudônimo "Akira Yoshida" no começo dos anos 2000. Cebulski criou até mesmo uma história de vida falsa para Yoshida, e foi criticado por descendentes de asiáticos por usar o "Yellowface" (cara amarela, literalmente, em referência aos atores brancos que pintavam a cara de negro no século 19).

Em comunicado, Cebulski afirmou que era "jovem e inocente" na época e que a questão é "notícia velha, que já foi resolvida". Mas tanto Luna quanto Nguyen acreditam que ela causou danos.

"É em partes iguais chocante, decepcionante e desanimador", disse Luna ao HuffPost. "Não é necessariamente estranho usar um pseudônimo, mas escolher um que soe asiático quando a pessoa não é descendente de asiáticos é loucura para mim, especialmente quando tantos asiáticos de verdade não têm acesso a esse tipo de oportunidade."

Luna explicou que as ações de Cebulski machucam em parte por causa do problema da caracterização de asiáticos em seus quadrinhos. A série "Punho de Ferro" foi criticada por perpetuar a narrativa do salvador branco. O "Demolidor" foi alvo de críticas porque os ninjas tinham histórias bidimensionais e cheias de estereótipos. E o Ancião do "Doutor Estranho" seria mais uma encarnação do estereótipo do "asiático velho e sábio". A lista não para por aí, como indica o Gizmodo. Todos esses títulos foram adaptados para as telas, e pouco se fez para remediar os problemas. Na realidade, a atriz Tilda Swinton acabou embranquecendo ainda mais o papel do Ancião.

Além disso, a companhia culpou a diversidade por uma queda nas vendas depois de uma tentativa de ser mais inclusiva – uma afirmação desmentida pelo Independent, pois várias histórias, incluindo "Miss Marvel" e "Pantera Negra" ambas venderam bem.

Essa história do 'Akira Yoshida' manda mais uma mensagem sobre a cultura asiática, que é desejada, mas o mesmo não vale para os asiáticos.Joshua Luna

Luna se pergunta se, com essa atitude em relação à inclusão na Marvel, Cebulski tenha prejudicado os roteiristas de ascendência asiática.

"Você se pergunta quantos roteiristas de quadrinhos asiáticos foram rejeitados porque um 'Akira Yoshida' já estava preenchendo a 'cota dos asiáticos'."

Com a promoção de Cebulski, Luna diz que parece que a Marvel não aprendeu a lição. Ele acredita que é "oca" a insistência da empresa de que inclusão e sensibilidade racial são importantes.

"Essa história do 'Akira Yoshida' manda mais uma mensagem sobre a cultura asiática, que é desejada, mas o mesmo não vale para os asiáticos", afirmou Luna.

Para Nguyen, conhecido profissionalmente como "Trungles", as ações de Cebulski têm implicações que vão além do mundo dos quadrinhos. A escolha de Cebulski por um nome asiático é um exemplo de um privilégio inexistente para famílias de imigrantes.

"Asiáticos-americanos tiveram de adotar nomes em inglês em grande parte para garantir sua sobrevivência econômica para nós e nossas famílias. É uma necessidade para nosso acesso a oportunidades de crescimento profissional, a empregos", afirmou Nguyen. "No caso de Cebulski, ele é um branco que adotou um pseudônimo japonês, [driblando] as regras da sua empresa e ao mesmo tempo dando um verniz de credibilidade para seu trabalho, que tinha muita influência japonesa."

Nguyen disse que ajustar o nome com objetivo de ter mais lucros ou de buscar uma estética, não a sobrevivência, é "preocupante".

Além disso, a declaração de Cebulski de que a situação foi "resolvida" fez parecer que o novo editor-chefe não tem mais nada a aprender com o episódio, afirmou Nguyen.

Luna acredita que Cebulski deveria renunciar ao cargo, à luz da polêmica envolvendo a revelação de que um poema escrito por "Yi-Fen Chou", na edição de 2015 de Best American Poetry, na realidade foi escrito por Michael Derrick Hudson, um americano branco.

Só o tempo dirá se a Marvel está disposta a ser realmente diversa.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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