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O discurso de Malu Mader sobre aborto e a criminalização da mulher pobre

"Tem uma galera aí querendo que a gente volte para a idade das trevas."

06/12/2017 14:51 -02 | Atualizado 06/12/2017 14:53 -02
Montagem/Reprodução
Atriz Malu Mader faz apelo contra retrocesso na legislação sobre aborto no País.

No momento em que a Câmara dos Deputados discute uma proposta de emenda à Constituição que pode inviabilizar o aborto no Brasil até nos casos em que hoje é legalizado, a atriz Malu Mader disparou contra os conservadores:

Tem uma galera aí querendo que a gente volte para a idade das trevas.

E enfatizou que criminalizar o aborto é criminalizar apenas a mulher pobre.

"Ninguém é a favor do aborto, não existe uma questão de ser a favor ou não ser. É uma questão de que ele existe. Muitas mulheres fazem aborto, muitas mulheres morrem e sobretudo as mulheres pobres, então mais uma vez é a sociedade criminalizando apenas a mulher pobre. É uma questão de discutir isso, realmente, de fato, porque na verdade a mim me parece que não importa muito a vida dessa mulher, se ela vai morrer ou não."

Afinal:

"Eu quando comecei minha vida sexual, antes mesmo, quando eu previa que aquilo ia começar - mas aí já é uma visão privilegiada - eu tinha um ginecologista me acompanhando, uma mãe conversando em casa podendo me dar atenção, pude falar com ele 'o que é 99%, 100% de chances de não poder engravidar?', porque eu também tinha pavor dessa ideia. Mas a mulher que está nesta situação, ela está em desespero. Acredito que toda a mulher que esteja com essa questão, esteja em desespero. Então ela devia ter sido atendida antes com quem está tão preocupado com a vida alheia. O governo ao invés de abandonar ali à sua sorte, devia prestar atenção, informar, dar camisinha."

A atriz destacou que o aborto é um problema de saúde pública, não de Justiça ou religiões.

"Compreendo que as pessoas se choquem, tirar uma vida... Mas ninguém se empenhou nunca numa campanha de conscientização da gravidez indesejada, de educar. Ninguém está tão preocupado assim com a vida das pessoas como querem fazer parecer. E é a mesma questão em relação a arte... É um conservadorismo também. É uma pauta que é de saúde pública, não é de Justiça, de religiões, de nada."

As declarações, feitas na manhã desta quarta-feira (6) no Encontro com Fátima Bernardes, incluíram ainda uma alfinetada nos homens - únicos que votaram a favor da PEC que criminaliza o aborto.

"A gente não falou de homem, né? Como se o filho nascesse só da mulher. Aquela carga, decisão, fica sempre pra mulher ser penalizada com essa decisão."

A atriz falou o que muita gente gostaria de dizer.

E foi aplaudida.

Mas claro que os críticos não se calaram.

PEC Cavalo de Tróia

Na terça-feira (5), a pesquisa "Percepções sobre o aborto no Brasil", do Instituto Patrícia Galvão, em parceria com a Locomotiva Pesquisa e Estratégia, mostrou que a maioria dos brasileiros é contrária ao aborto, mas a favor do procedimento em casos específicos.

Toda essa discussão ocorre em meio à discussão sobre a criminalização do aborto no Brasil. Em discussão na Câmara dos Deputados, a proposta de emenda à Constituição (PEC) 181 de 2015, apelidada de Cavalo de Tróia, pode inviabilizar o aborto legal no Brasil.

O conteúdo original tratava da extensão a licença-maternidade para mães de prematuros, mas o relator, deputado Tadeu Mudalen (DEM-SP), acrescentou no parecer dois trechos que alteram a Constituição, a fim de estabelecer que a vida começa "desde a concepção".

Se a PEC for aprovada, pode ser interpretada uma contradição entre a Constituição alterada e o Código Penal, que permite o aborto no caso de estupro e de risco de vida da mãe, e o assunto poderia ser questionado no STF. A possível alteração é encarada por entidades que defendem os direitos das mulheres como um retrocesso aos direitos reprodutivos no Brasil.

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