MULHERES

O recado de Sheryl Sandberg, executiva do Facebook, para os homens no mercado de trabalho

Sheryl tem ouvido que o #MeToo é um motivo para que mulheres não sejam contratadas. Para ela, o movimento é justamente um sinal de que elas devem ser contratadas.

06/12/2017 17:49 -02 | Atualizado 06/12/2017 18:15 -02
Antoine Antoniol via Getty Images
Há quatro anos, Sheryl Sandberg publicou um livro sobre as mulheres no trabalho.

A executiva do Facebook Sheryl Sandberg alertou na manhã de domingo (3) para a possibilidade de que as mulheres saiam perdendo com o momento divisor de águas que ocorre no feminismo.

A autora de Faça Acontecer está comemorando, mas escreveu em um longo post no Facebook: "Já ouvi os rumores de uma reação".

Nos últimos dois meses, novas acusações de conduta inadequada contra homens poderosos parecem surgir diariamente. Eles estão enfrentando consequências reais por causa de suas ações passadas. E as pessoas já estão dizendo: "É por isso que você não deve contratar mulheres", escreve Sandberg.

"Na verdade, é por isso que você deveria contratá-las", continua Sandberg. Contratar, orientar e promover as mulheres é a única solução a longo prazo para o assédio sexual, que tem tudo a ver com poder, afirma ela. No post, ela também descreve algumas diretrizes básicas que as empresas devem seguir se forem sérias quanto à prevenção do assédio sexual no trabalho.

A solução certamente não é a chamada "regra Pence" – segundo relatos, o vice-presidente dos Estados Unidos não jantaria sozinho com outra mulher sem a presença da sua esposa. Em vez disso, escreve Sandberg, os homens devem se esforçar para tratar colegas e funcionários igualmente. Se você não vai jantar ou beber sozinho com uma mulher, então você também não deve fazê-lo com um homem.

"Tratar direito as mulheres no ambiente de trabalho não significa apenas tratá-las com respeito. Também significa não isolá-las ou ignorá-las", escreve Sandberg. "Significa dar acesso igual. Você pode levar todos os seus funcionários diretos para jantar ou nenhum deles, a chave é dar a homens e mulheres oportunidades iguais de sucesso."

Faça Acontecer, que tornou-se uma espécie de manifesto instantâneo do feminismo corporativo quando foi publicado, em 2013, parece um pouco enferrujado hoje em dia. No livro, Sandberg pede que as mulheres sejam mais ambiciosas no trabalho. A recente onda de casos de assédio e ataques sexuais deixa claro que a ambição e o "fazer acontecer" não são suficientes.

Mulheres que sofrem assédio sexual são mais propensas a abandonar seus empregos e deixar os setores em que trabalham – em vez de lutar pela próxima promoção, mostram pesquisas.

Em seu post, Sandberg não aborda o problema de frente, embora aponte que Faça Acontecer trouxe à tona a questão dos homens que não dão oportunidades às mulheres por medo das acusações de assédio.

"Escrevi em Faça Acontecer que 64% dos executivos têm medo de estar sozinhos com uma colega mulher, em parte por medo de serem acusados ​​de assédio sexual", escreve ela. "O problema é que orientação de carreira sempre ocorre entre duas pessoas. Uma das respostas mais gratificantes que recebi sobre o livro foi quando os homens sêniores reconheceram que de fato estavam dando menos oportunidades às mulheres, muitas vezes sem realmente pensar nisso. Recebi inúmeras ligações nas quais CEOs e executivos sêniores de vários setores me disseram: 'Nunca pensei nisso antes, mas você está certa [ao dizer que] levo homens em viagens e para jantares, em vez de mulheres, e isso é injusto'."

Talvez, então, os homens é que precisam "fazer acontecer". Em vez de sucumbir ao medo, eles devem dar o salto e ajudar as mulheres a avançar no trabalho. Essa é a chave para finalmente resolver o problema dos homens que abusam do poder, escreve Sandberg.

"Em última análise, o que fará o máximo em termos de mudar nossa cultura é o que eu escrevo e falo há muito tempo: ter mais mulheres com mais poder", escreve ela.

Ao longo do caminho, Sandberg diz que passou por diversas experiências com homens mais poderosos que tentaram se aproveitar dela -- uma mão na perna, conselhos de carreira oferecidos tarde da noite, a sós.

Mas agora, Sandberg é uma das executivas mais poderosas do mundo -- no topo de uma empresa de vários bilhões de dólares, com 2 bilhões de usuários e que provavelmente teve papel decisivo nas eleições presidenciais americanas.

Hoje em dia ela raramente é assediada. "Somente com homens que, naquele momento, sentem que têm mais poder do que eu."

Veja a publicação de Sandberg na íntegra:

A corrida presidencial de 1992 foi resumida em uma frase: "É a economia, estúpido".

Hoje, com as manchetes dominadas por histórias sobre assédio sexual e agressão sexual no trabalho, uma frase semelhante vem à mente: "É o poder, estúpido".

Aos 48 anos, tenho a sorte de nunca ter sido vítima de assédio ou ataque sexual por pessoas com quem trabalhei. O fato de isso ser considerado sorte é um problema em si, mas, com base nos números, tenho sorte. Sempre trabalhei para homens, e todos os meus chefes não foram apenas respeitosos, mas sempre me apoiaram.

Ainda assim, como quase todas as mulheres -- e alguns homens – que conheço, sofri assédio sexual na forma de avanços sexuais indesejados no trabalho. Uma mão na minha perna debaixo da mesa, durante uma reunião. Homens casados ​-​- todos décadas mais velhos que eu -- oferecendo "conselhos de carreira" e depois sugerindo que a conversa poderia acontecer tarde da noite, a sós. Um homem com quem me recusei a ir embora após um jantar e que depois veio bater na porta do meu quarto de hotel tarde da noite e só parou quando chamei a segurança.

Não trabalhava para nenhum desses homens. Mas em cada uma dessas situações eles tinham mais poder do que eu. Isso não é coincidência. É por isso que eles se sentiram livres para fazer o que fizeram.

À medida que me tornei mais sênior e conquistei mais poder, essas situações ocorreram com cada vez menos frequência. Mas elas ainda acontecem de vez em quando, mesmo no meu trabalho atual -- mas apenas com homens que, naquele momento, sentem que têm mais poder do que eu. É por isso que estou absolutamente convencida de que é o poder, estúpido.

Este é um momento crítico para quem enfrenta avanços sexuais indesejados no trabalho. O assédio sexual tem sido tolerado há muito tempo nos corredores do governo e nas empresas, grandes ou pequenas. Pela primeira vez na minha vida profissional, parece que as pessoas estão finalmente preparadas para responsabilizar os culpados. Estou comemorando -- tanto meu eu atual quanto aquele eu mais jovem que correu para trancar a porta do quarto de hotel.

Mas comemorar não é suficiente. Embora este seja um divisor de águas em termos de empoderamento para as manifestações das vítimas – o que por si só exige uma coragem imensa –, isso também não é suficiente. Precisamos de mudanças sistêmicas e duradouras que impeçam esse tipo de comportamento e protejam a todos, de profissionais que estão subindo a escada corporativa a funcionários em posições de baixa remuneração e que muitas vezes têm pouco poder. Precisamos acabar com o abuso das diferenças de poder ligadas ao gênero -- e à raça e à etnia, também. Não podemos perder essa oportunidade.

Muitos locais de trabalho não contam com políticas claras para lidar com acusações de assédio sexual. Não há dúvida de que isso pode ser complicado e desafiador. Algumas investigações acabam com a palavra de uma pessoa contra a de outra. Certos relacionamentos consensuais deixam os outros pouco à vontade ou terminam mal, e também há o assédio que não envolve sexo, mas envolve sexismo. Como as empresas não têm acesso a ferramentas como perícia forense ou mandados de busca, elas dependem da ação da polícia – o que nem sempre acontece. Considere as centenas de milhares de kits de estupro que permanecem intocados nas delegacias de polícia dos Estados Unidos – passando a mensagem de que, se você atacar alguém sexualmente, há boas chances de se safar.

Todas as empresas devem começar com princípios claros e, em seguida, instituir políticas para sustentá-los. Em primeiro lugar, desenvolver treinamento no local de trabalho que estabeleça padrões de comportamento respeitoso, para que as pessoas entendam desde o início o que se espera delas. Em segundo lugar, tratar todas as queixas -- e as pessoas que as fazem -- com seriedade, urgência e respeito. Em terceiro lugar, criar um processo de investigação que proteja os funcionários do estigma e das retaliações. Em quarto lugar, garantir que o processo seja seguido de forma justa e consistente em todos os casos, tanto para as vítimas como para os acusados. Em quinto lugar, tomar medidas rápidas e decisivas quando algo acontecer. E, em sexto lugar, deixar claro que todos os funcionários têm um papel a desempenhar a fim de manter seguros os locais de trabalho -- e que os facilitadores ou aqueles que não ofereceram a proteção necessária são cúmplices se ficarem em silêncio ou se fizerem vista grossa.

Espero que, à medida que mais empregadores criem políticas adequadas e eficazes -- e quanto mais se fizer para punir os culpados --, mais pessoas se manifestem sem medo. Durante muito tempo, elas achavam que não fazia sentido denunciar o assédio -- que nada aconteceria, ou pior, que isso teria impacto negativo em suas carreiras. Do outro lado, algumas pessoas têm medo de que suas reputações sejam arruinadas de forma injusta. Ter um processo consistente e justo que se aplique a todos ajuda a proteger contra esses dois cenários e restaura a confiança no sistema.

Acima de tudo, espero que este momento leve a uma cultura de trabalho mais forte e mais equitativa, que trate as mulheres com mais respeito e lhes ofereça mais oportunidades.

Temos de estar atentos para garantir que isso aconteça. Já ouvi os rumores de uma reação: "É por isso que você não deve contratar mulheres". Na verdade, é por isso que você deveria contratá-las.

E você não deve apenas contratar mulheres -- você deve orientá-las, aconselhá-las e promovê-las. Há quatro anos, escrevi em Faça Acontecer que 64% dos executivos têm medo de estar sozinhos com uma colega mulher, em parte por medo de serem acusados ​​de assédio sexual. O problema é que orientação de carreira sempre ocorre entre duas pessoas. Uma das respostas mais gratificantes que recebi sobre o livro foi quando os homens sêniores reconheceram que de fato estavam dando menos oportunidades às mulheres, muitas vezes sem realmente pensar nisso. Recebi inúmeras ligações nas quais CEOs e executivos sêniores de vários setores me disseram: 'Nunca pensei nisso antes, mas você está certa [ao dizer que] levo homens em viagens e para jantares, em vez de mulheres, e isso é injusto'."

A porcentagem de homens com medo de estar sozinhos com uma colega mulher deve ser altíssima agora. Tratar direito as mulheres no ambiente de trabalho não significa apenas tratá-las com respeito. Também significa não isolá-las ou ignorá-las. Significa dar acesso igual. Você pode levar todos os seus funcionários diretos para jantar ou nenhum deles, a chave é dar a homens e mulheres oportunidades iguais de sucesso. Este é um momento crítico para nos lembrarmos de como isso é importante. Muitas coisas boas estão acontecendo agora. Temos de nos certificar de que não haja consequências não-intencionais no sentido de impedir o avanço das mulheres.

Em última análise, o que fará o máximo em termos de mudar nossa cultura é o que eu escrevo e falo há muito tempo: ter mais mulheres com mais poder

O mundo sempre foi dirigido por homens, e ainda é assim hoje. Apenas 13 países e 6% das empresas da lista Fortune 500 são administrados por mulheres. Apenas 13% dos policiais são mulheres, e apenas algumas centenas são chefes de polícia. E menos de 20% do Congresso americano é composto por mulheres.

Esses números revelam uma estrutura de poder que marginalizou as mulheres e outras pessoas por muito tempo. Precisamos ver mais mulheres nesses papéis -- e mais pessoas de cor, indivíduos LGBT e membros de minorias religiosas e grupos subrepresentados de todos os tipos. Estamos vendo o que acontece quando o poder está quase exclusivamente nas mãos dos homens. Isso gera um ambiente em que, na pior das hipóteses, as mulheres são tratadas como corpos para serem observados ou agarrados, em vez de pares que merecem respeito.

Se houvesse mais mulheres no poder, não se resolveriam todos os problemas -- embora eu acredite que muita coisa boa sairia daí. Mas uma coisa é certa: muito menos mulheres seriam apalpadas – ou pior -- enquanto tentam fazer seu trabalho. E esse seria um grande passo na direção certa.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

O caso de assédio de Zé Mayer