POLÍTICA

João Amoêdo, pré-candidato do Novo à Presidência: ‘A economia é determinante’

Em entrevista ao HuffPost Brasil, ex-banqueiro defende pauta econômica para reformular o sistema político brasileiro.

04/12/2017 08:00 -02 | Atualizado 04/12/2017 11:22 -02
Reprodução/Facebook
"Quando a conta não fecha, o que o governo faz é no fundo taxar mais as pessoas, especialmente as mais pobres, via aumento de juros, aumento de imposto, via inflação", diz João Amoêdo.

Para o pré-candidato do partido Novo à Presidência da República, o ex-banqueiro João Amoêdo, o Estado deveria ser o menor possível para que as pessoas pudessem, por conta própria, gerar riqueza.

Nas palavras de Amoêdo, em entrevista ao HuffPost Brasil, "a economia mexe muito na vida das pessoas".

É a economia que faz as pessoas terem uma escola ruim, não ter um plano de saúde. As pessoas sentem o impacto da economia no dia a dia, isso que a gente vai mostrar.

Com foco total nas contas do País, ele acrescenta: "A economia acaba sendo determinante para a vida das pessoas e acaba influenciando a própria política".

Nisso, as pautas comportamentais perdem espaço no discurso do pré-candidato. Para ele, o importante é a liberdade com responsabilidade.

Questionado sobre o fato de nem todas as pessoas serem iguais e terem as mesmas oportunidades, Amoêdo pontua:

"É impossível todas as pessoas terem a mesma oportunidade porque as pessoas nascem diferente. O importante é que elas tenham oportunidade. Não tem como dar a mesma largada para todo mundo nem tem como, pelo Estado, equalizar as largadas. No fundo, a gente deveria estar preocupado é dar as pessoas um preparo maior pela educação básica."

Leia a íntegra da entrevista.

HuffPost Brasil: O que há de novo no Novo?

João Amoêdo: É um projeto foi iniciado por membros da sociedade civil. Não tinha nenhum político, nenhum integrante de agremiação religiosa, nenhum sindicato. Porque se a gente olha para trás, nos últimos 15 anos no Brasil, é raro. São só membros da sociedade civil que nunca tinham se envolvido com política.

A segunda coisa que eu acho que é um diferencial do Novo também é um pouco da proposta. A gente sempre montou o partido para melhorar a vida das pessoas, mas a gente entende que essa melhora vem por dar mais poder às pessoas, deixar o Estado mais leve e as pessoas com mais poder para que ele atue nas áreas essenciais.

O terceiro é que o Novo é um partido que faz um processo seletivo para os seus candidatos. E quarto é que o Novo é o único partido que não usa dinheiro público para sua manutenção, dos 35 existentes. Tem muito essa cara de ser uma instituição na defesa de princípios e valores.

Vimos que o processo seletivo do partido teve baixa adesão. Como estimular as pessoas a participarem do processo político em um momento de descrédito, que podemos ver pelos índices de votos brancos e nulos?

Eu penso um pouco diferente. Acho que o fato de ter tanto voto branco e nulo é que a população está mostrando que "não tem ninguém que a gente queira na política". Só que a gestão do Estado é necessária, querendo ou não. As pessoas estão entrando [na política] ou incentivando os amigos e familiares a participar. Há um desejo grande de renovação, de ter gente nova para votar. Acho que todo processo de crise, Lava Jato, e desejo de renovação vai acabar resultando em algumas pessoas novas na política. Talvez não seja na velocidade e no montante que gostaríamos, mas está acontecendo e acho que é irreversível.

Essa mudança passa por uma transformação no sistema eleitoral?

Acho que isso virá no segundo momento. Para a gente fazer essa mudança, é primeiro necessário que as pessoas se sintam de fato representadas. Ou a gente corre o risco de acontecer como agora, em que fizeram uma reforma política que o principal objetivo foi tirar mais dinheiro da população para levar para os partidos para financiar a campanha política daqueles partidos. Infelizmente, as reformas feitas por quem não nos representa vão ser contra o interesse da população e vão ter o objetivo de perpetuá-los lá. O ciclo mais correto e que funciona melhor é colocar de fato representantes que tenham sido eleitos de forma consciente, e essas pessoas fazerem alguma reforma no segundo momento.

Em geral, brasileiros detestam bancos, porque juros são extorsivos, taxas são altas, filas a perder de vista. Como atrair a confiança de um eleitor se o candidato é ex-banqueiro?

Isso claramente, para mim, é uma besteira porque não se mede o caráter das pessoas e a competência nem os propósitos delas pela profissão. Acho que até um conceito que a gente tem que ter cuidado é que precisamos de empresários, precisamos de banqueiros ou de executivos do mercado financeiro - como eu me situo - porque, se acabarem os bancos, nossa vida vai ser melhor ou pior? Eu acho que vai ser pior. Se acabarem as empresas, quantas pessoas ficarão desempregadas? Então, não me preocupo com isso porque não acho que é uma mensuração de propósito ou de caráter. E até, se a gente olhar para trás, o próprio Partido dos Trabalhadores, que tem esse nome, foi na gestão dele que os bancos tiveram maiores lucros. A realidade é diferente, mas é óbvio que os políticos têm procurado vender alguns conceitos para a população como o próprio conceito de que empresa estatal é algo estratégico. São conceitos que vamos desmontar com os fatos.

O Novo defende privatizações em todos os setores. Nesta semana, Gustavo Franco, que está no comando do programa econômico do Novo, disse que o ideal é usar o dinheiro de privatizações para pagar juros da dívida pública. De que maneira isso seria positivo para o Brasil e como explicar para a população como isso funcionaria?

Acho que a população já está tendo essa percepção porque a população está vendo tudo que está acontecendo na Petrobras, está vendo a ineficiência dos Correios, os bancos públicos também não são os melhores exemplos de prestadores de serviço. Na prática, no dia a dia, a população já sente que não tem qualidade no serviço. Pelo contrário, quando elas quebram, a gente tem que contribuir com mais recursos. Mesmo essas ideias mais liberais na economia, existem candidatos bem posicionados nas pesquisas, que começam a defender e adotar essas bandeiras, que nunca adotaram no passado. Isso é um bom indicador, que é uma percepção de que a população já está convencida desses conceitos. Acho que não será um grande problema e mostrando os exemplos que tem pelo mundo.

Isso também acaba atingindo os direitos sociais, benefícios que as pessoas têm hoje, com resistência muito grande a mexer no FGTS, por exemplo...

O principal é mostrar para a população que o que estamos defendendo é para o bem dela. Por exemplo, fundo de garantia. A gente defende que deveria ser opcional. Hoje o FGTS das pessoas é aplicado na Caixa Econômica e rende menos que a inflação. O que a gente gostaria é que você pudesse pegar esse dinheiro e aplicar onde você achar que deveria, com melhor rentabilidade. Não tem nenhuma perda de direito, pelo contrário. O fundo de garantia nada mais é que um empréstimo que as pessoas fazem para o governo emprestar para grandes empresas.

Tem outro dado importante, o benefícios sociais são sempre bons que a população os tenha, desde que a conta feche. Quando a conta não fecha, o que o governo faz é no fundo taxar mais as pessoas, especialmente as mais pobres, via aumento de juros, aumento de imposto, via inflação. Muitas vezes a gente tem a sensação de que está recebendo de um lado e o governo está tirando muito mais de outro e o resultado acaba sendo negativo.

Se de fato esse modelo que vem sendo adotado há muitos anos funcionasse bem, o Brasil era para ter uma economia mais pujante. Não tem nada a ver com a economia mundial, que anda bem. Esse é um problema do Brasil mesmo, do problema de Estado hoje. É algo que as pessoas estão vivendo na pele.

Isso implicaria manter a política de teto de gastos?

Claro. [Revogar] no meu entendimento é uma medida populista, demagoga, ou de total despreparo de quem propõe isso. Em qualquer lugar, na nossa casa mesmo, se você gasta mais do que você tem, como você sobrevive. Ou estamos dizendo que não tem problema e vamos deixar essa conta para as próximas gerações. Não me parece algo ético. Na verdade, o teto de gastos é para que você elimine despesas que não precisa ter e possa direcionar os recursos para as despesas que são essenciais e não ficar dando benefícios. Isso faz que as taxas de juros sejam cada vez mais altas e gere mais concentração de renda. Tudo que a gente não quer é mais concentração de renda no Brasil.

Por que políticos do Novo defendem que a pobreza é pior que a desigualdade?

Porque a pobreza é pior que a desigualdade. A gente pode acabar com a desigualdade, por exemplo. O Cazaquistão é menos desigual que o Japão e o Japão é, certamente, um país melhor de se morar que o Cazaquistão. É fácil acabar com a desigualdade, basta tornar todo mundo pobre. Ao combater a desigualdade você simplesmente não está preocupado em criar riqueza. Você está só preocupado em tornar todo mundo igual.

A reforma da Previdência proposta pelo governo Temer é positiva? Se eleito, o senhor fará uma nova reforma? Quais ajustes faria à proposta de Michel Temer?

É positiva, a gente precisa fazer uma reforma da Previdência porque as contas não fecham. A gente não vai esgotar esse processo em uma única reforma, tem muito detalhe, muita coisa para ser aprimorada. É positivo fazer algo, ou Bolsa Família ou educação serão comprometidas se a conta não fechar. Eventualmente, acho que poderíamos ter uma idade um pouco mais elevada, acho que poderia ser 65 para homens e mulheres. Tem uma série de pontos, mas só para citar, tem uma coisa que eles [governantes] pensavam em mexer e não mexeram: é a Previdência rural. E hoje do rombo R$ 100 milhões é da Previdência rural, enquanto da urbana são R$ 40 milhões. É algo que chama atenção porque tem cerca de 6,5 milhões de pessoas que se declaram como residentes rurais com mais de 55 anos e tem pouco mais de nove milhões de pessoas que recebem o benefício. Quase 50% a mais do que se diz parte dessa população está recebendo o benefício, então é preciso entender, aparentemente tem algum problema aí. E essa parte rural praticamente não faz contribuição nenhuma. E claro, a questão dos privilégios de algumas categorias do serviço público no Legislativo e Judiciário, no qual os valores são elevados.

Como combater o privilégio?

Não tem muito jeito, a gente tem que colocar pessoas que têm uma visão do Brasil como nação e não só no seu mandato. E para isso as pessoas que estão votando têm que entender essa dinâmica, que muitas ações que estão sendo feitas e vendidas de uma forma, na verdade, têm outro objetivo. O que acontece nesses exemplos que você deu é que essas minorias se organizam para manter seus privilégios e a grande massa que vai pagar a conta vê aquilo como algo tão pequeno no dia a dia que acaba não se mobilizando para ir contra enquanto para quem está perdendo aquilo é muito relevante e elas se mobilizam. A forma de lutar contra isso é eleger pessoas que tenham princípios e valores que possam implementar essas coisas e proteger o cidadão. É preciso diminuir a ingerência do Estado em uma série de coisas.

O senhor fala como se todas as pessoas fossem iguais e tivessem a mesma oportunidade...

Não é assim e eu nem acredito que todos têm a mesma oportunidade. É impossível todas as pessoas terem a mesma oportunidade porque as pessoas nascem diferente. O importante é que elas tenham oportunidade. É isso que a gente defende. [Ter] As mesmas oportunidades é muito difícil. É importante que o Estado dê às pessoas oportunidade através de uma educação básica e de um livre mercado. Certamente, vão atingir posições diferentes por vários motivos, pela qualificação, pelas ambições, pela largada diferente. Não tem como dar a mesma largada para todo mundo nem tem como, pelo Estado, equalizar as largadas. No fundo, a gente deveria estar preocupado é dar as pessoas um preparo maior pela educação básica.

Quais os acertos e erros da gestão Temer?

Do ponto de vista do acerto, está muito ligado à pauta econômica, não sei se por convicção ou necessidade... As contas não fecham, então teto dos gastos, flexibilização na reforma trabalhista, não é razoável que uma pessoa não possa tirar meia hora de almoço porque o Estado determinou que ela tem que tirar uma hora. Acho que tem ganhos aí. Tem medidas positivas, mas negativo é que isso está sendo feito dentro da velha política, com as pessoas envolvidas em denúncia, com ministros que tiveram problemas de denúncia de corrupção, envolvidos em investigação, com negociações com o Congresso e troca de favores. Isso é pernicioso e acaba tirando a credibilidade e o efeito positivo de algumas medidas.

Qual a estratégia do partido para fazer parte dos quadros políticos do País?

Primeiro é ter princípios e valores que vão nos nortear, além de ser muito autêntico e falar o que a gente acha, falar a verdade. Vamos usar as mídias sociais de forma muito intensa e fazer muitas visitas e eventos. Neste ano, o Novo já fez 900 eventos em todo Brasil. Também mostrar para a população que está ansiosa e demandando renovação que o Novo é de fato diferente, não só no discurso, mas na prática e nas posturas. A população está cansada.

Em lados opostos, Lula e Bolsonaro são os principais nomes nas pesquisas eleitorais. Como o senhor avalia o comportamento do eleitorado?

Acho que ainda estamos longe das eleições. As pessoas falam do Lula pelo recall dele, pela lembrança. Acho que o Bolsonaro se colocou muito contrário ao Lula e como alguém que vai defender os valores morais e a questão da segurança. Essas coisas em um primeiro momento e a rede grande de seguidores que ele tem acabaram criando um ambiente propício para uma coisa mais antagônica ao Lula, apesar de no campo das ideias, quando a gente olha o passado, não eram tão antagônicas assim. Acho que está tudo muito em aberto. O Brasil tem essa tendência de procurar um salvador da Pátria e talvez ele tenha encarnado esse personagem. Meio que um super-herói brasileiro. Mas acredito que nos próximos meses, à medida que as pessoas se aprofundarem no assunto e forem avaliar, esse quadro vai mudar.

Como o Novo, que é um partido liberal, enxerga os temas sociais, como dos direitos das minorias?

A gente gosta muito das ideias de liberdades com responsabilidade. A gente adotou a pauta liberal mais relacionada à economia e quanto as outras pautas comportamentais, a gente tem dito que o candidato do Novo tem total liberdade para definir a agenda deles. Questões como aborto, teremos candidatos favoráveis e contrários. Na parte de drogas, a mesma coisa.

Algumas outras pautas, como casamento de pessoas do mesmo sexo, o partido já se posicionou a favor. Na questão do desarmamento, o partido já se posicionou contra. A gente acha que as pessoas devem ter liberdade de portar arma se for de seu interesse, claro que com responsabilidade. A gente vai deixar que essa solução venha da população. Teremos candidatos com esses dois perfis e a população vai colocar no Congresso aquele que a maioria demandar.

O que a gente acha em algumas questões, como aborto, é que essa questão fosse levada para os estados, para que cada um pudesse ter a sua pauta e se aquilo for algo muito relevante para uma pessoa, que ela esteja incomodada, que ela tenha a opção de mudar de estado e você não obrigaria toda uma população ou determinada minoria a seguir a determinação da maioria. Realmente é um tema com argumento para os dois lados.

Partindo do pressuposto de que a economia é o principal braço da política, o senhor acredita que a ex-presidente Dilma Rousseff teria sofrido processo de impeachment se as contas do País estivessem bem?

Acho que sim porque o processo de impeachment, na minha avaliação, foi técnico. Basicamente em cima da lei de responsabilidade fiscal. Óbvio que o impeachment tem um processo político, difícil prever como teria sido em um cenário de o Brasil indo bem. A minha recomendação se eu fosse parlamentar teria votado pelo impeachment independentemente do cenário político.

Se eleito, como governar com o Congresso diverso?

A gente pretende eleger 35 deputados federais, é uma meta ambiciosa, mas a gente acha que é possível. E o que a gente vai fazer basicamente é colocar projetos que são do interesse do povo e aqueles que a gente disse que ia fazer durante o discurso de campanha para não ter nenhuma incoerência. Sempre terão atividades políticas de explicação, mas, se em algum momento tivermos resistência por integrantes do Congresso que vierem com interesses fisiológicos, vamos expor isso para a população de forma muito clara. Acho que a vantagem que o Novo tem de não ter nenhum passivo é poder fazer isso.

O Novo bate muito na tecla da economia, mas como mostrar para a parcela da população que não tem muita noção de educação financeira a importância dessa pauta?

Apesar do debate ser econômico, a economia mexe muito na vida das pessoas. É a economia que faz as pessoas terem uma escola ruim, não ter um plano de saúde. As pessoas sentem o impacto da economia no dia a dia, isso que a gente vai mostrar. Não tem muito como ser diferente vivendo em um sistema capitalista, como o nosso. A economia acaba sendo determinante para a vida das pessoas, e acaba influenciando a própria política.

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