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A Rússia queria Trump na presidência. E conseguiu. Agora, o que os EUA devem fazer?

Apesar de Donald Trump estar negando há um ano, as evidências de conluio entre sua campanha e o serviço de inteligência russo estão cada vez mais claras.

05/12/2017 10:04 -02 | Atualizado 05/12/2017 10:08 -02

Sputnik Photo Agency/Reuters
Donald Trump e Vladimir Putin, durante uma reunião no Vietnã, em 10 de novembro.

O tirano da Rússia trabalha para ajudar o candidato do Partido Republicano a vencer as eleições presidenciais dos Estados Unidos.

Membros da campanha do candidato têm conhecimento do esforço e tentam se coordenar com a iniciativa.

O candidato vence as eleições e, quando percebe que o FBI está examinando a bagunça, demite a pessoa que está liderando a investigação, com a expectativa de colocar um ponto final no processo.

Por mais improvável que pareça esse cenário, mesmo para um roteiro de Hollywood, esta é a situação da nação à medida que Donald Trump entra nas últimas semanas de seu primeiro ano de mandato: com um promotor especial do Departamento de Justiça a todo vapor, duas denúncias e uma confissão de culpa na mesa.

"O padrão do fato que continua a emergir é impressionante", disse Rick Wilson, um consultor republicano e um dos primeiros a questionar a relação de Trump com Moscou durante a campanha das primárias do Partido Republicano [ou GOP, "Grand Old Party", como é conhecido nos EUA]. "Quando eu era um frio jovem guerreiro, no início dos tempos, tínhamos uma suspeita saudável sobre a Rússia."

O advogado da Casa Branca contratado para coordenar a resposta do governo à investigação do promotor especial Robert Muller descartou a ideia de conluio, dizendo que espera que o inquérito seja encerrado em questão de semanas. "Acredito que possa ser concluída [a investigação] no começo do ano que vem", Ty Cobb disse ao HuffPost.

Trump, por sua vez, continua a ridicularizar a investigação, classificando-a de "notícia falsa" e desperdício de recursos. Em uma série de tuítes em 29 de outubro, o presidente queixou-se de que o inquérito de Muller está buscando um "falso 'conluio' Trump/Rússia que não existe. Os democratas estão usando esta terrível (e ruim para nosso país) caça às bruxas para a política do mal".

Fatos que emergiram ao longo do último ano, no entanto, sugerem o contrário:

  • Em 6 de janeiro de 2017, a comunidade de inteligência dos EUA divulgou uma versão desclassificada [pública] de sua análise, revelando que o presidente russo, Vladimir Putin, não só havia interferido nas eleições de 2016, como também tinha tentado ativamente ajudar Trump. Entre as ferramentas usadas pela Rússia estavam o roubo de e-mails da oponente de Trump, Hillary Clinton, e sua divulgação por meio do WikiLeaks, simpatizante dos russos.

  • O assessor de política externa da campanha de Trump, George Papadoulous, detalhou nos documentos associados com seu acordo de confissão de culpa como os russos, em abril de 2016, estavam oferecendo os e-mails de campanha que prejudicavam Clinton. E-mails entre o filho de Trump, Donald Trump Jr., e um ex-sócio mostram que Trump Jr. estava ansioso para ver a informação supostamente incriminadora antes de um encontro na Trump Tower. O filho do presidente americano então trocou mensagens com o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, sobre a utilização, por seu pai, de e-mails roubados do coordenador da campanha de Clinton, John Podesta. Em 12 de outubro de 2016, após Assange sugerir ao candidato republicano que este ajudasse a divulgar o lote mais recente de e-mails roubados, o próprio Trump envia um tuíte, 15 minutos depois, elogiando o WikiLeaks.

  • Em 9 de maio de 2017, três meses depois de se queixar da investigação do FBI sobre a Rússia, Trump demitiu o diretor da agência, James Comey. O declarado inicialmente era que Comey havia conduzido mal uma investigação sobre o uso, por Clinton, de um servidor privado de e-mail quando era secretária de Estado. Mas, já no dia seguinte, Trump teria dito ao ministro de Relações Exteriores russo e ao embaixador dos EUA para a Rússia, durante um encontro no Salão Oval, que havia demitido Comey para bloquear o inquérito. Trump novamente citou a investigação sobre a Rússia como o motivo por demitido Comey em uma entrevista à NBC News, em 11 de maio. A demissão levou à rápida nomeação de Muller para liderar a investigação.

Cobb, advogado de Trump, continuou negando que os contatos entre a campanha de Trump e autoridades russas constituíram "conluio" e disse que a reação à demissão de Comey havia sido um exagero.

"A imprensa transformou a demissão de Comey na pedra angular da investigação", disse Cobb. "Ele tinha todo o direito de demiti-lo e, quando de fato o demitiu, o fez por razões muito apropriadas."

Mas o conluio em si já não é a questão, segundo Wilson. "Não há lei contra o conluio", disse. "Mas, quer saber? Há um monte de outras leis que cobrem conspiração, lavagem de dinheiro, e aceitar ajuda de valor material para campanha de um poder estrangeiro para vencer uma eleição."

As negativas de Trump sobre a Rússia começaram em 27 de julho de 2016, na mesma conferência de imprensa onde ele convidou a Rússia a "hackear" os computadores de Clinton para encontrar milhares de e-mails que ela havia deletado de seu servidor privado. "Quero dizer, direi a vocês agora, zero, não tenho nada a ver com a Rússia", declarou Trump.

Nos meses que se seguiram, Trump continuou a negar qualquer contato com a Rússia. Depois de um comunicado do Departamento de Segurança Interna, divulgado em 7 de outubro de 2016, informando que a Rússia estava interferindo nas eleições, ele questionou a análise.

No debate presidencial realizado em 19 de outubro de 2016, quando Clinton disse que Putin preferia Trump porque este poderia ser o "fantoche" do presidente russo, Trump argumentou que era impossível saber quem estava por trás da atuação dos hackers nas eleições. "Nosso país não tem a menor ideia", disse Trump durante o debate, culpando em vez disso, em várias ocasiões, a China, "um cara de 200 quilos" na cama ou alguém em Nova Jersey pela interceptação dos e-mails.

Trump reconheceu pela primeira vez que a Rússia havia sido culpada pela interceptação de e-mails em uma conferência de imprensa, em 11 de janeiro de 2017 ― cinco dias depois de a comunidade de inteligência ter divulgado o comunicado ―, mas desde então, voltou a classificar a história da Rússia de "trote" e uma tentativa dos democratas de encontrar um culpado para a derrota nas eleições.

Mais recentemente, Trump e a secretária de imprensa da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, começaram a atacar a credibilidade de um relatório preparado por um ex-agente do Serviço Secreto britânico, Christopher Steele. O relatório de 35 páginas, que ficou conhecido simplesmente como "o dossiê", incluiu uma longa lista de contatos entre a campanha de Trump e autoridades russas, bem como alegações de que a inteligência russa obteve material de chantagem contra Trump ao arranjar um encontro com prostitutas em um hotel de Moscou, em 2013. O relatório foi originalmente encomendado por um doador republicano; depois que Trump conseguiu a nomeação pelo Partido Republicano, os democratas pagaram para ter acesso ao documento.

Tanto Trump quanto Sanders argumentaram que, como os democratas financiaram o relatório, as revelações são suspeitas. Eles até argumentam que isso prova que os democratas eram os que armaram um "conluio" com os russos, porque Steele estava se comunicando com fontes russas.

"Acho muito triste o que eles fizeram com esse falso dossiê", disse Trump em 25 de outubro. "Mas acho que é uma desgraça. É realmente ― é muito triste ― é um comentário muito triste sobre política neste país."

Mas o consultor do GOP Rick Tyler, que trabalhou para o senador Ted Cruz (Partido Republicano, Texas) durante as primárias presidenciais, disse que, à medida que mais detalhes emergiram ― encontros comprovados entre auxiliares da campanha de Trump e autoridades russas, por exemplo ―, mais preciso parecia ser o dossiê.

"O dossiê parece mais autenticado do que falso", afirmou Tyler.

Entrevistado em um novo livro sobre a interferência da Rússia nas eleições, o próprio Steele disse acreditar que entre 70% e 90% da inteligência bruta que relatou é precisa. O novo livro também sugere que, quando Steele levou suas descobertas a um agente do FBI em Roma, a investigação sobre a campanha de Trump já havia começado, graças às comunicações interceptadas pela inteligência britânica entre os auxiliares da campanha de Trump e os russos.

Para Tyler, a questão não é se a assistência russa acabou favorecendo a eleição de Trump ― que ganhou a presidência graças a uma margem total de 80.000 votos em três estados-chave. "Os russos claramente tiveram uma influência. Isso fez diferença na disputa? Não sei como se chega a essa conclusão", disse.

Mais importante para Tyler é descobrir qual informação, se houver, Putin teria sobre o presidente. "Ele está comprometido? Todos os americanos têm direito de saber", afirmou Tyler.

Trump alegou na conferência de imprensa realizada em janeiro que não havia nenhum material comprometedor relacionado à sua visita a Moscou em 2013. Ele também disse que não tinha negócios com a Rússia. "Não tenho negociações com a Rússia. Não tenho negócios que possam se materializar na Rússia, porque ficamos de fora. E não tenho nenhum empréstimo com a Rússia", disse.

Mas críticos, tanto republicanos quanto democratas, apontam para o contínuo tratamento cuidadoso de Trump em relação a Putin ― em gritante contraste às ásperas palavras dirigidas a alguns aliados tradicionais dos EUA ― como um sinal de que ele teme o presidente russo por alguma razão.

Trump demonstrou raiva pelo fato de o Congresso ter aprovado uma lei impondo novas sanções contra a Rússia devido à sua interferência nas eleições e, repetidamente, afirma que quer ter boas relações com Putin. Durante sua recente visita à Ásia, o presidente se encontrou com Putin e alegou que pressionou novamente o líder russo sobre a questão da interferência nas eleições.

"Ele disse que não interferiu. Ele disse que não interferiu. Eu perguntei a ele novamente. Você não pode ficar perguntando tantas vezes. Mas eu perguntei a ele novamente, e ele disse que absolutamente não interferiu em nossas eleições. Ele não fez o que estão dizendo que ele fez", Trump declarou a repórteres na base Air Force One. "E eu acredito ― eu realmente acredito que, quando ele me diz isso, está sendo sincero. Mas ele diz: 'Eu não fiz isso'. Acho que ele se sente muito insultado, se quer saber a verdade."

(Os russos, por sua vez, negaram que o tema das eleições tenha sequer surgido durante o encontro.)

Os democratas, enquanto isso, esperam usar a investigação sobre a Rússia para relembrar os eleitores das eleições do Congresso em 2018 de que a maioria do republicanos continua a apoiar Trump. O American Bridge, grupo de pesquisa da oposição democrata, até criou um site com uma URL russa para transmitir a mensagem.

"Trump não estará nas urnas no ano que vem", disse Harrell Kirstein, ex-porta-voz da campanha de Clinton e agora diretor de comunicação do "Trump War Room" da American Bridge. "Mas os republicanos no Congresso ― as mesmas pessoas que estavam totalmente cientes do ciberataque russo contra os Estados Unidos no ano passado, mas ainda assim não fizeram nada para defender a população americana ― estarão."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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