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Existe um muro gigante entre alunos da rede pública e o acesso ao ensino superior

Em muitos casos, a educação se tornou ferramenta eficiente de segregação. A educação gera desigualdade. E te tira dela.

02/12/2017 09:29 -02 | Atualizado 02/12/2017 09:31 -02
Wittayayut via Getty Images
Crumpled paper ball on vintage classic answer sheet. Answer sheet concept.

Quando estava no terceiro ano do colegial, eu estudava de manhã e fazia curso técnico a tarde. Via amigos prestando vestibulares e eu não entendia muito bem tudo aquilo.

Lembro de uma amiga que era muito estudiosa e fazia cursinho. Ela dizia palavras que eu não sabia o que era, como "ENEM", "SISU" e "nota de corte". Na época, eu não tinha informação alguma sobre vestibulares e universidades. Pensava em ser mecânico, já que eu fazia técnico na áera. A vida estava resolvida.

Acabei a escola e me matriculei em uma faculdade particular. Com a matrícula veio o boleto. Cheguei em casa muito feliz, mas minha mãe simplesmente disse que não poderia pagar. Pensei: "Já era. Não estudei como deveria, não sei o que é ENEM, vou trabalhar para sempre."

Sempre tive medo de começar um trabalho e não conseguir sair dele por depender de um salário para viver. Via minha mãe e irmãs trabalhando muito e sem qualquer crescimento profissional. Isso me motivava a querer outro caminho, mesmo sem saber qual.

Ingressei na USP em 2015. Tive um choque, parecia outro mundo: Tinha piscina, academia, circular interno, possibilidade de bolsas e intercâmbios, pessoas de todo o mundo, muitas palestras e possibilidade de fazer disciplinas em outros cursos.

Comecei a comentar com meus amigos, vizinhos e familiares sobre o que eu estava vivendo, mas não via muito entusiasmo da parte deles. Só a pressão para trabalhar. Eu queria entender porque meus vizinhos não queriam entrar na faculdade e porque havia poucos alunos de escolas públicas na USP.

Decidi fazer uma pesquisa em 4 escolas públicas da minha cidade com os alunos do último ano do ensino médio. Apliquei um questionário com 193 alunos para tentar mensurar o nível de interesse e informação sobre o ingresso no ensino superior.

Me surpreendi. Havia o interesse, mas faltava informação. Dos 193 alunos, apenas 13 conheciam a FUVEST, 50% dizia saber para que serve o ENEM, porém menos de 10% sabia para que servia os programas SISU, PROUNI e FIES.

Eu não era "especial" por ser o único da família ou da rua a querer uma faculdade. Eu só tive a oportunidade e o privilégio de receber informação.

Senti uma vontade imensa de fazer algo. Convidei alguns amigos da USP para ir às escolas e levar informações, além de falar um pouco sobre a trajetória de cada um, que envolvia as escolhas pessoais e a formação acadêmica.

Foi sensacional. Mas ainda não era suficiente. A maioria dos alunos que convivemos não estava inscrita no ENEM ou outros vestibulares. Eles não tinham aula de redação e muitas vezes faltavam professores de outras matérias. Estudar simplesmente não fazia parte da cultura da maioria que estava em escolas públicas.

Assim nasceu o Salvaguarda. Em 2017, frequentamos 11 escolas públicas, atendemos 1375 alunos do último ano do ensino médio e temos mais de 200 voluntários.

As ações acontecem em três frentes: motivacional, conteudista e informacional.

Ajudamos os alunos com correção de redação, temos um catálogo com todas as graduações possíveis, levamos as turmas ao campus da USP para um tour, temos um grupo de Whatsapp por escola em que os alunos podem tirar dúvidas sobre exercícios, ajudamos nas inscrições e isenções dos vestibulares. O objetivo é empoderar cada aluno e mostrar que eles são capazes de fazer o que quiserem.

Há um muro gigante entre alunos da rede pública e o ensino superior. A maioria simplesmente acha que não é capaz ou não vê valor em investir nos estudos.

Em muitos casos, a educação se tornou ferramenta eficiente de segregação. A educação gera desigualdade. E te tira dela.

Ideb: Como está a educação no seu Estado?