COMPORTAMENTO

Brasileiras criam 1ª plataforma de curadoria de conhecimento baseada em 'algoritmo ético'

"Se a nossa proposta é conhecimento, a gente tem que impedir que as pessoas passem no piloto automático. O nosso desafio é fazer elas se abrirem."

02/12/2017 14:55 -02 | Atualizado 04/12/2017 11:49 -02
wildpixel via Getty Images
O Mappa é uma plataforma de curadoria de conhecimento.

Você acorda e a primeira coisa a ser feita é alcançar o celular. Abre o primeiro aplicativo e são 300 mensagens não lidas. No caminho até o banheiro são 15 notificações, três convites de eventos e aquele textão que está todo mundo comentando. Enquanto prepara o café, o colega da firma já correu dez quilômetros, a amiga da faculdade está no curso de especialização e o influencer já conheceu o novo restaurante que estava na sua lista. Olha o relógio e está atrasado para o seu primeiro compromisso. Não tinha acabado de acordar?!

Se você tem um smartphone e é usuário das redes sociais, a sua rotina pode ser parecida com essa. O fluxo de informações vem aumentando em todo o planeta e passamos cada vez mais horas de nossos dias online. As plataformas são diversas e os estímulos infinitos - áudios, memes, vídeos de realidade virtual, o snap dos amigos e as curtidas na última publicação.

Estamos sempre disponíveis. Mas o quanto desses conteúdos que consumimos realmente nos transformam? Ao pensar nesta questão, três brasileiras - a engenheira mecânica Ana Martinazzo; a designer de produto Bel Araújo; e a cientista social Débora Emm - criaram o Mappa, uma plataforma de curadoria de conhecimento baseada na ideia de "algoritmo ético".

Isso significa que a plataforma funciona como um guia inteligente de filmes, artigos e palestras que têm como objetivo furar a bolha dos algoritmos tradicionais que só oferecem "mais do mesmo".

"A intenção é trazer conteúdos que tenham bagagem e ajudem a pensar de maneira mais crítica. A missão que o Mappa tem é tirar as pessoas de sua zona de conforto por algum processo de aprendizado que façam elas olharem para frente", explica Débora Emm, em entrevista ao HuffPost Brasil.

No lugar da audiência, o que direciona as recomendações são os questionamentos dos usuários e cada conteúdo é escolhido e debatido por um grupo de curadores antes de ser disponibilizado no acervo.

O principal desafio da plataforma está em convencer os usuários a pagarem por este filtro. Enquanto concorrentes disponibilizam conteúdos de graça, o Mappa chega ao mercado com um custo mensal de dez reais. Para se cadastrar na rede, ainda, é preciso ser maior de dezoito anos e ter conhecimento intermediário em inglês.

"Nós acreditamos que os conteúdos que as pessoas consomem têm impacto direto em quem elas são. Nosso desafio é justamente mostrar para as pessoas a importância do processo de filtragem a partir de uma perspectiva humana. E isso tem preço e também valor", argumenta Emm.

Divulgação/Mappa

Em entrevista ao HuffPost Brasil Débora Emm, sócia-fundadora da plataforma, explica o funcionamento.

HuffPost Brasil: Como é feita a escolha dos conteúdos que vão fazer parte do Mappa?

Débora Emm: Todo o conteúdo do Mappa foi modelado a partir do nosso propósito. O primeiro recorte é que todo conteúdo tem que conseguir transmitir uma mensagem para o nosso usuário que permita que ele evolua de alguma forma. Que amplie a visão de mundo dele, que ele passe por um processo de aprendizado. Então, todo conteúdo tem que deixar uma mensagem que seja de alguma forma construtiva para aquele usuário.

A gente segue as diretrizes da Unesco relacionada aos pilares que a educação do mundo deve seguir no século 21. A gente busca conteúdos que ensinem as pessoas a aprenderem a aprender. Depois, conteúdos relacionados a aprender a fazer. E por fim conteúdos relacionados a aprender a conviver.

Também nos preocupamos com as questões que estão no centro das discussões da sociedade. A intenção é trazer conteúdos que tenham bagagem e ajudem a pensar de maneira mais crítica. A missão do Mappa é tirar as pessoas de sua zona de conforto por algum processo de aprendizado que façam elas olharem para frente.

Se a nossa proposta é conhecimento, a gente tem que impedir que as pessoas passem no piloto automático. O nosso desafio é fazer elas se abrirem. Convencer que o exercício de aprender não é só entretenimento, você tem que se relacionar com o diferente e isso vai te ajudar a evoluir. É um convite provocativo, exige foco e disciplina. Débora Emm, fundadora do Mappa.

E esses conteúdos são disponibilizados para cada usuário a partir de um "algoritmo ético", certo? Como é feita essa distribuição?

O termo "algorismo ético" já tem sido discutido dentro da lógica dos algoritmos. Eu entendo que o Google e o Facebook precisam filtrar conteúdo do mundo, porque, realmente, a gente não dá conta de lidar com tudo isso. Mas a gente precisa imbuir na tecnologia um senso cívico, uma responsabilidade social.

O algoritmo ético é você ter responsabilidade social na formação desse acervo. É ter uma lógica de recomendação que não esteja pautada só na inteligência de mercado. Por exemplo: o Facebook não quer que você saia da plataforma, ele tem uma lógica de mercado pautada na audiência. Quanto mais você consome conteúdos na plataforma, mais tempo você gasta e melhor eles podem vender peças de anúncio. Então, ele cria um algoritmo, os filtros da sua timeline, para que você tenha acesso a conteúdos que você vai gostar. Porque se nada de interessante aparecer para você, você vai sair da plataforma. Ele faz uma faxina em busca de te agradar. E nisso de te agradar, ele pode afastar conteúdos que talvez você não tenha o interesse ativo em ver, mas que são socialmente relevantes.

O nosso interesse é mais amplo. Como a gente faz com que a produção de conteúdo humana, que é cada vez maior, seja mais circulada? E seja circulada de modo a favorecer a sociedade? Como eu faço que as pessoas que estão enxergando o mundo apenas pela perspectiva A consigam enxergar a perspectiva B,C,D... e isso auxilie a ela criarem um maior senso crítico? É isso que a gente quer com o algoritmo ético.

No fundo, os algoritmos são uma série de comandos. E esses comandos são construídos por seres humanos. A gente faz com que esses comandos sejam pensados sempre pela lógica de responsabilidade social, não só por interesses de audiência.

Divulgação/Mappa

Quem são as pessoas por trás da escolha do conteúdo do acervo?

São os nossos curadores. Eles têm perfis distintos, mas não é necessário que eles tenham uma especialização. Algumas características são importantes para esse profissional. Primeiro, ele precisa conseguir fazer uma análise crítica em relação ao conteúdo. Ele precisa saber ler, questionar e pesquisar sobre o contexto que aquele conteúdo foi produzido.

Antes de estar no Mappa, o conteúdo passa por um processo de análise que não é responsabilidade apenas de um curador, mas de vários, para enxergar essas múltiplas perspectivas. O nosso time de curadores já tem esse senso crítico afiado e trabalhado. Eles conseguiram desenvolver ao longo de sua carreira esse olhar, de conseguir enxergar as coisas além da superfície.

De tempos em tempos, além dos curadores fixos do Mappa, a gente monta um laboratório. Fazemos processo seletivos para encontrar curadores de outros universos e formar uma equipe ainda mais ampla. A primeira vez que a gente fez o laboratório durou três meses. Na segunda vez, durou dois meses. E todo o tempo foi dedicado a discussão de cada um desses conteúdos. Então, nós temos a bióloga discutindo com o jornalista, que conversou com o historiador e com o matemático sobre a importância ou não de cada conteúdo.

Divulgação/Mappa

Qual é o papel de um curador de conteúdo hoje em dia?

É fundamental termos curadores de conteúdo. Um dos maiores problemas que a gente já enfrenta e que ainda vamos enfrentar ao longo do século 21 é o fato de estarmos perdidos em meio a tantas informações. Na década de 70 já se falava de excesso de conteúdo, mas a gente só enxergava a possibilidade de a gente perder oportunidades. O desenrolar desse cenário está nos mostrando que a gente não está só perdendo oportunidades, a gente está consumindo coisas que nos fazem mal. Quanto mais conteúdo, mais fácil a gente se confundir.

Apesar da tecnologia ser providencial nesse trabalho ao criar filtros, a gente precisa do olhar humano, do cuidado humano, para fazer essa seleção de forma relevante. Nesse exercício de filtrar, a gente tem que se preocupar com o outro, com quem vai receber o conteúdo. Existe uma diferença entre o curador de conhecimento e quem faz uma lista de filmes bons. Eles são bons para que? Para quem? E é essa a nossa preocupação.

Ao usar a plataforma, percebi que não temos acesso a todos os conteúdo de uma só vez. Porque não disponibilizar logo todo o acervo?

A gente quis criar um processo que tivesse um jeito de chegar até os conteúdos que fosse minimalista. A gente não queria que as pessoas tivessem um acervo enorme e elas ficassem lá perdidas e navegando. Criamos um dia a dia dentro da plataforma que acalme o leitor, que te tire do feed infinito.

Dai a combinação de três em três conteúdos dentro de uma lógica de 16 em 16 horas. Isso é para limitar um pouco esse universo, desacelerar mesmo. Você vai ter três possibilidades de conteúdos. E queremos evitar que você consuma tudo de uma vez. Porque se você fizer isso, não vai ter o tempo de processar, de refletir sobre aquele conteúdo.

Se a nossa proposta é conhecimento, a gente tem que impedir que as pessoas passem no piloto automático. O nosso desafio é fazer as pessoas se abrirem, convencer que o exercício de aprender não é só entretenimento, você tem que se relacionar com o diferente e isso vai te ajudar a evoluir. É um convite provocativo, exige foco e disciplina.

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