MULHERES

Rihanna e Kim Kardashian estão pedindo a libertação desta jovem condenada à prisão perpétua

Cyntoia Brown foi traficada e vendida como escrava sexual na adolescência.

29/11/2017 19:38 -02 | Atualizado 29/11/2017 19:38 -02

Cyntoia Brown tinha apenas 16 anos de idade quando matou um corretor imobiliário do Tennessee que quis transar com ela como prostituta. O crime lhe valeu uma sentença de prisão perpétua. Embora os detalhes básicos de seu caso não tenham mudado muito desde seu primeiro julgamento, em 2006, celebridades e defensores de sua causa vêm chamando a atenção para a história de Cyntoia e para o tráfico sexual de menores, com a ajuda de uma campanha que viralizou nas redes sociais, #FreeCyntoiaBrown.

(O sistema de "justiça" é um nojo, fico furiosa. ... quando li sobre essa situação toda fiquei arrasada. Vou orar por esta jovem com certeza. #FreeCyntoiaBrown)

Depois de fugir de casa, Brown morou com seu namorado de 24 anos, que a agredia, a estuprou, ameaçou matá-la e a forçou a usar drogas e se prostituir.

"Ele me dizia que algumas pessoas nascem putas, que eu era uma dessas pessoas, que eu era vagabunda, que ninguém ia me querer a não ser ele e que o melhor que eu tinha a fazer era aprender a ser uma boa puta", Cyntoia disse em depoimento em uma audiência de 2012 em que foi pediu um novo julgamento.

Em agosto de 2004, Cyntoia matou Johnny Mitchell Allen, 43 anos, depois de ele lhe pagar para fazer sexo. Os advogados dela em seu primeiro julgamento argumentaram que ela era vítima de tráfico sexual e que agiu em defesa própria. Segundo a versão dos fatos apresentada pela defesa, Allen levou Cyntoia à sua casa, onde lhe mostrou uma coleção de armas de fogo. Quando estavam na cama, Allen a agarrou no meio das pernas e tentou pegar algo que Cyntoia pensou ser uma arma. Temendo ser morta, Brown deu um tiro na cabeça de Allen por trás.

Mas os promotores alegaram que o que motivou o crime foi roubo, já que depois de matar Allen Cyntoia levou dinheiro e duas de suas armas. De acordo com seus advogados, Cyntoia levou o dinheiro e as armas porque teve medo de voltar a seu cafetão de mãos vazias.

Ela foi julgada como adulta e condenada por homicídio doloso com agravantes. Cyntoia, que em 2012 recebeu o diagnóstico de transtorno de síndrome alcoólica fetal, está cumprindo pena no Presídio Feminino do Tennessee em Nashville. Segundo o jornal "The Tennessean", ela terá direito a pedir liberdade condicional quando chegar aos 69 anos.

Seu caso chamou alguma atenção nacional em 2011, depois de o documentário "Me Facing Life: The Cyntoia Brown Story", do cineasta Dan Birman, foi exibido pela rede PBS.

"Trata-se de uma moça que é fruto de três gerações de violência contra mulheres", disse Birman à Fox 17, de Nashville, este mês, falando dos estupros sofridos por Cyntoia Brown, sua mãe e sua avó. "Ela não tinha a menor chance."

Agora várias celebridades, incluindo Rihanna, LeBron James, Snoop Dogg e Kim Kardashian West, estão saindo em defesa de Cyntoia, em um esforço para conseguir clemência para ela.

"Será que mudamos a definição de #JUSTIÇA em algum momento?" Rihanna escreveu no Instagram na terça-feira. "Alguma coisa vai muito mal quando o sistema facilita a vida desses estupradores e a vítima é jogada fora pelo resto de sua vida! A cada um de vocês, responsáveis pela sentença dada a essa menor de idade, espero por Deus que vocês não tenham filhos, pois esta poderia ser sua filha sendo punida!"

Kim Kardashian West pediu que seus próprios advogados ajudem a libertar Cyntoia Brown.

"O sistema fracassou", ela tuitou na terça-feira. "É de partir o coração ver uma menina ser vítima de tráfico sexual e, quando ela tem a coragem de resistir, é presa por toda a vida! Precisamos fazer melhor e fazer o que é certo. Liguei para meus advogados ontem para ver o que pode ser feito para consertar isso. #FreeCyntoiaBrown"

A post shared by badgalriri (@badgalriri) on

Imagine virar vítima de tráfico sexual aos 16 anos, sendo explorada por um cafetão chamado "Degolador". Depois de dias sendo drogada e estuprada repetidas vezes por homens diferentes, você é comprada por um predador infantil de 43 anos de idade que a leva à sua casa para usá-la sexualmente. Você acaba criando coragem para resistir, atira nele e o mata.

Você é presa, julgada, condenada como adulta e sentenciada à prisão perpétua.

Essa é a história de Cyntoia Brown. Ela terá direito de pedir liberdade condicional quando fizer 69 anos. #FreeCyntoiaBrown

Foi lançado um abaixo-assinado para pedir ao governador Bill Haslam (republicano) clêmencia para Cyntoia Brown. Mais de 379 mil pessoas já tinham assinado a petição até a tarde de domingo.

O advogado Charles Bone, que começou a trabalhar para Cyntoia sem cobrar depois de assistir ao filme de Birman, disse à NBC que a moça está "chocada e espantada" pelo apoio recebido de celebridades e que aprecia esse apoio.

"Tudo isso é importante não apenas para Cyntoia, mas para a causa das vítimas do tráfico sexual, da escravidão sexual e para a causa da justiça de menores", disse Bone. Ele e uma equipe de advogados estão lutando para conseguir um novo julgamento, no qual ele acredita que Cyntoia seria acusada de "no máximo homicídio doloso com atenuantes".

Segundo o advogado, a acusação menos grave "a colocaria em uma situação em que ela já teria direito a pedir a liberdade condicional".

"Ela foi sentenciada quando era menor de idade, e o fato de que era escrava sexual e de o cafetão com quem ela vivia a sujeitar a tráfico sexual faz com ela mereça o apoio não apenas de celebridades, mas de todos nós", disse Bone ao BuzzFeedNews. "Para termos consciência da gravidade do que está acontecendo, não apenas no Tennessee mas em todo o mundo, é preciso muita atenção e muito apoio."

De acordo com o "The Tennessean", desde que foi encarcerada Cyntoia Brown é descrita como detenta modelo. Ela recebeu o G.E.D. (diploma escolar equivalente à conclusão do ensino médio) e, em seguida, um diploma do programa da Universidade Lipscomb para detentos. Kathy Sinback, sua advogada anterior, que continua a militar em sua causa, disse ao BuzzFeedNews que, para seu diploma de bacharel, Cynthoia está escrevendo uma tese sobre tráfico humano.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost USA e traduzido do inglês.

18 livros para entender mais sobre feminismo e direitos das mulheres