ENTRETENIMENTO

Ex-consulesa Alexandra Loras explica exposição sobre racismo e rejeita críticas sobre 'blackface'

"Como estou ouvindo os outros, gostaria que eles também me ouvissem", disse ex-consulesa da França sobre críticas de mostra que estreia em dezembro.

29/11/2017 22:00 -02 | Atualizado 30/11/2017 14:17 -02
Divulgação
"Eu sou negra, eu tenho o direito de falar sobre negritude, de falar do empoderamento do negro", disse a ex-consulesa, que também é ativista, ao HuffPost Brasil.

Os últimos dias foram turbulentos para a ex-consulesa da França, Alexandra Loras. Após a divulgação de sua nova exposição "Pourquoi pas?" ("Por que não?", em português), Loras foi acusada de praticar "blackface" em suas obras.

A exposição, que será inaugurada em dezembro na Galeria Rabieh, traz imagens de políticos e celebridades brancas editadas para parecerem pessoas negras. Com o uso do photoshop, suas peles foram escurecidas e seus traços foram alterados.

A mostra instigou críticas. Alguns classificaram a exposição de "mau gosto" e disseram que não se combate o racismo com o uso de "blackface".

O "blackface" era uma prática comum em teatros do século 19, na qual atores que se coloriam com o carvão de cortiça para representar personagens negros de forma exagerada e caricata.

Loras rejeita a acusação de que usou blackface em sua exposição. "O blackface tem um fundamento muito claro: é uma pessoa branca que decide se pintar de negros de uma forma pejorativa", disse a ex-consulesa, que também é ativista, ao HuffPost Brasil. "Eu sou negra, eu tenho o direito de falar sobre negritude, de falar do empoderamento do negro", disse.

Ela ainda ressalta que foi usado edição digital, e não a pintura da face pelas pessoas que aparecem nas imagens da exibição. "Esses mesmos personagens estão com uma melanina linda de negro. Em nenhum momento faço o uso dessa edição ironizando o negro", explicou.

Exposição "Pourquoi Pas?"

"O mundo invertido"

Segundo a ex-consulesa, as imagens são "provocações" sobre a segregação racial no Brasil que "ninguém quer ver". "Imagina agora o inverso, tudo que fosse feito pelos negros fosse considerado coisas lindas, negros na política, toda a narrativa que escutamos desde a infância só com personagens negros", descreve Loras. "Quando se vê a novela, a branca é sempre a faxineira ou a mulher sensualizada que destruiu casamentos. Já os homens brancos são traficantes, maus ou também sensualizados."

Loras argumenta que o objetivo da obra é questionar a posição social e profissional dessas personagens e se seriam as mesmas se estas pessoas fossem negras.

A gente consegue ver a Dilma como presidente ou como faxineira? Vocês ainda conseguem ver a Gisele Bündchen como modelo internacional com esta imagem? Se ela tivesse cabelo crespo, ainda seria famosa?", questionou. "Se a Gisele se pintasse de negro e contornasse a boca com um batom vermelho, isso sim seria um blackface.

O principal público-alvo são exatamente pessoas brancas pois, que segundo Loras, são estas que "têm o privilégio da chave de mudança", ou seja, que podem contratar mais negros, ouvir vozes negras e dar mais espaço de atuação para os negros, que são maioria no Brasil. "Minha proposta é pichar com estética uma galeria com a supremacia branca, uma galeria de elite, onde posso trazer pessoas da rua, chamando grafiteiros, e negros da militância. Os que discordam nem viram a exposição", ressaltou.

Em São Paulo desde 2012, quando o marido tornou-se cônsul francês no Brasil, Alexandra se dedica às questões raciais, propondo a líderes empresariais discussões sobre diversidade dentro das corporações. Em setembro do ano passado, o marido Damien Loras deixou o cargo, mas a família decidiu ficar, para que Alexandra possa seguir com seus projetos de luta contra a discriminação racial por aqui.

"Somos uma sociedade extremamente racista e não é com gotinhas que vamos resolver. Cerca de 190 negros morrem todos os dias no Brasil, sendo que 30 são crianças. Há um genocídio acontecendo no Brasil e a mídia não dá atenção a isso. Não quero me tornar cúmplice desse apartheid que estamos vivendo. Poderia continuar na vida diplomática, mas essa missão [ativismo] me pareceu mais importante."

Sobre a repercussão da mostra, Loras diz que respeita as opiniões e, inclusive, nunca apagou comentários ofensivos a ela, mas a avalanche de críticas a surpreendeu. "A arte para mim não é arte se faz unanimidade. Claro que sabia que essa exposição seria polêmica, mas não sabia que seria tanto assim. Mas sei que arte precisa causar debate", disse. E acrescenta:

A mostra é feita pra cutucar, estou segura que estamos quebrando uma membrana do sistema, quebrando paradigmas, está mexendo, mas para mim, em nenhum momento buscamos fazer blackface. Eu respeito cada opinião, mas, como estou ouvindo os outros, gostaria que eles também me ouvissem.

5 novos livros para pensar sobre as condições do negro no Brasil